Garcia Pereira Advogados Associados

O Brasil nunca esteve tão próximo de sofrer uma intervenção militar dos Estados Unidos desde a década de 1960. Uma série de ações por parte do governo de Donald Trump vem se acumulando nos últimos meses no sentido de intimidar o país, um dos poucos com governo de esquerda na América do Sul, e interferir no processo eleitoral brasileiro.

O episódio mais recente foi a divulgação de um vídeo, na última terça-feira (11/8), pelo Departamento de Estado dos EUA, em que afirma que o domínio dos Estados Unidos sobre o continente americano “nunca mais será questionado”. A publicação apresenta um histórico da Doutrina Monroe, estratégia elaborada em 1823 pelo presidente James Monroe que defendia a ideia de “América para os americanos” usada pelos EUA para justificar ações diplomáticas, militares e econômicas que buscavam consolidar a influência estadunidense no hemisfério ocidental.

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O Departamento de Estado cita no vídeo a operação militar que sequestrou o ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro, em 3 de janeiro, como o exemplo mais recente da aplicação da doutrina no continente. Segundo a publicação, a ação dos EUA enviou um “forte sinal a todo o hemisfério”.

Desde dezembro de 2025, a Casa Branca anunciou a intenção clara de colocar a América Latina como prioridade estratégica para os EUA com a divulgação da nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos. Por meio desse documento foi criada uma versão atualizada da Doutrina Monroe que descreve a América Latina como um “front central” na disputa geopolítica contemporânea, justificando o reposicionamento de recursos militares, diplomáticos e de inteligência americanos na região.

Ao contar a história da doutrina, o vídeo do Departamento de Estado passa por diferentes episódios da atuação americana na América Latina, mas deixa de fora intervenções americanas na região que contribuíram para levar diversos países a regimes ditatoriais no século 20.

Nesse mesmo sentido, no último sábado (8/8), o deputado republicano Carlos Gimenez, aliado de Trump, publicou em uma rede social uma fotomontagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) preso da mesma forma que o ex-presidente venezuelano, Nicolás Maduro, com uma legenda dizendo “o que o espera”. A postagem foi republicada nas redes pelo ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro e pelo influenciador de extrema direita Paulo Figueiredo. Horas depois, o mesmo deputado publicou uma imagem dizendo que “o Brasil merece mais: liberdade, democracia e um futuro longe da influência ‘castrocomunista’”.

As publicações foram feitas em um momento em que os EUA têm demonstrado forte apoio à extrema direita na América Latina, que tem crescido na região com a interferência direta de Trump nos processos eleitorais de diversos países, como Argentina, Colômbia, Peru e Honduras.

No dia 3 deste mês, o Pentágono anunciou a criação de uma grande força-tarefa sob a liderança do Comando Sul dos Estados Unidos (Southcom), responsável pelas operações militares americanas na América Latina, para combater cartéis de drogas na região. Com a participação de 18 países, entre eles países latino-americanos governados pela extrema direita como Argentina, Bolívia, Chile e Colômbia, o Brasil não faz parte da força-tarefa.

O anúncio, feito nas redes sociais pelo general Francis Donovan, comandante da Southcom, afirmou que os EUA levarão “a luta ao inimigo” e aplicarão “total pressão sistêmica” contra as redes criminosas que ameaçam o país e seus parceiros. O secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, pediu que os países da coalizão abandonem o Tribunal Penal Internacional (TPI). Washington não reconhece o tribunal.

A essa iniciativa se junta a designação de CV e PCC como entidades terroristas internacionais pelo Departamento de Estado norte-americano, realizada em maio deste ano, medida que coloca em risco a soberania brasileira ao abrir espaço para ações militares estadunidenses em solo nacional sob o pretexto de combate ao terrorismo. Diante do conjunto dos fatos, torna-se quase impossível não ficar alarmado com as ações americanas fechando o cerco contra o Brasil, um dos poucos países da região que não se submete aos EUA.

Para piorar a situação, os Clubes Naval, Militar e de Aeronáutica brasileiros publicaram um manifesto conjunto no início deste mês em que afirmam que a condução da política externa, somada ao agravamento da crise institucional e econômica, amplia os riscos para o futuro do país. Soma-se a isso a fala também recente do ministro da Defesa, José Múcio, de que, em uma eventual invasão dos Estados Unidos ao Brasil, a melhor estratégia seria “abrir os portões” porque, segundo ele, o país não teria capacidade de se defender nem recursos para reparar os danos causados.

Múcio, um conhecido títere dos militares, apenas verbalizou um desejo não tão secreto de setores relevantes das Forças Armadas nacionais, historicamente subalternas aos interesses dos Estados Unidos e que nunca esconderam seus impulsos autoritários de golpearem o país com o apoio estadunidense, fato já ocorrido no passado e que, pela ausência de punições, continua a retornar para assombrar a vida política do Brasil.

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Está se criando, portanto, um cenário propício para uma intervenção militar americana ao Brasil. Afirmar com certeza que ela irá ocorrer de fato, entretanto, é um exercício de futurologia e de misticismo.

Porém, “uma das lições que a era hitlerista nos ensinou é a de como é estúpido ser inteligente” em determinados momentos históricos, alertaram os filósofos da Escola de Frankfurt, Theodor Adorno e Max Horkheimer, na sua obra “Dialética do Esclarecimento”. Os filósofos referiam-se às análises complexas feitas por intelectuais antes da ascensão do nazismo na Alemanha que afirmavam a impossibilidade de Hitler chegar ao poder mesmo diante de uma realidade óbvia que vinha se construindo.

Sendo assim, diante de uma conjuntura de escalada autoritária, fazem-se necessárias a cautela e a atenção para os sinais que são dados pela realidade. Que estejamos preparados para quaisquer que sejam os resultados dessa escalada. Não sejamos, nas palavras de Adorno e Horkheimer, os “inteligentes” que, buscando negar uma realidade incômoda, “facilitaram as coisas para os bárbaros”.