Interrompemos nossa programação! O horário eleitoral gratuito começa nesta sexta-feira e pode ser decisivo para indicar se, em eleições futuras, a mídia tradicional eletrônica — representada pelas concessões de rádio e TV — ainda terá o poder que historicamente exerceu desde o início da redemocratização no debate público nacional durante os períodos eleitorais.
Se por um lado o líder nas pesquisas referentes ao primeiro turno, o presidente Lula (PT), é o candidato com maior tempo de TV (5 minutos e 31 segundos), por outro, candidatos do campo da direita que empatam tecnicamente em terceiro lugar com outros não terão acesso ao horário eleitoral e, ainda assim, têm potencial de conquistar novos eleitores.
Portanto, cabe observar nas próximas semanas se, após o início do horário eleitoral, eventuais oscilações nas pesquisas favorecerão Lula e o vice-líder nas pesquisas, o senador de extrema direita Flávio Bolsonaro (PL), com a segunda maior alocação de tempo na telinha (4 minutos e 20 segundos), ou se ganhará terreno o candidato que já encontrou um nicho específico (jovens de 16 a 24 anos).
Trata-se de Renan Santos, candidato à presidência pelo Missão, partido fundado pelo Movimento Brasil Livre (MBL), que há mais de uma década faz barulho na política nacional, liderando manifestações de rua contra “o sistema”. Conforme discutido em colunas anteriores, o sentimento antissistêmico ainda é forte entre o eleitorado, ainda que parte dos que adotam a lógica do “contra tudo que está aí” tenha se mantido no campo bolsonarista.
Por estar em um partido recém-fundado, Santos não terá à disposição o tempo gratuito de rádio e TV dos adversários mais estruturados. Além de Lula e Flávio Bolsonaro, terão direito de aparecer na mídia eletrônica tradicional os direitistas Ronaldo Caiado (PSD), com 2 minutos e 2 segundos, e Augusto Cury (Avante), com 35 segundos, pois suas agremiações políticas elegeram um número suficiente de deputados na última eleição para que lhes fosse concedido o benefício.
Na entrevista realizada nesta quarta-feira (26/8) pela TV Globo, Santos teve uma performance superior aos ex-governadores Caiado (GO) e Romeu Zema (MG), candidato pelo Novo, ao defender suas posições extremistas e ilegais, como derramar sangue de criminosos para supostamente reduzir os índices de criminalidade e buscar, contra o que está escrito na Constituição, o desenvolvimento de armas nucleares.
Aos 42 anos, ele é um dos candidatos que melhor pontuam no segundo escalão das pesquisas, ainda que siga distante do líder e vice-líder de intenção de voto no primeiro turno. Se Santos terminar as eleições em terceiro lugar, superando Caiado — que dispõe de uma estrutura partidária comandada pela raposa Gilberto Kassab — ficará evidente que a mídia eletrônica, se não é coisa do passado, ao menos se torna menos eficaz em um cenário no qual as redes sociais, particularmente entre os mais jovens, passaram a ocupar papel central na socialização política.
Digo socialização política e não debate político pois, embora tenham uma aura de horizontalidade, as redes sociais mais difundem ideias para seus usuários do que os engajam em discussões que poderiam dar origem a novas perspectivas. Nesse sentido, o rádio e a TV, muito embora não permitam a interação com ouvintes e telespectadores, abrem paradoxalmente mais espaço para a necessária reflexão sem a qual as práticas democráticas não se sustentam.
O declínio da mídia eletrônica tradicional também se tornará definitivo caso Flávio Bolsonaro vença. Uma das lógicas das grandes coligações sempre foi garantir aos candidatos majoritários o maior tempo possível de televisão. A chapa puro-sangue liderada pelo filho zero um da dinastia que faz de refém a tradicional direita brasileira, em tese, teria desvantagem em relação a Lula, que, além de contar com mais tempo de TV, ainda detém o poder da caneta como atual presidente.
Mas, se Flávio prevalecer e derrotar a centro-esquerda, os ecos de 2018 serão inevitáveis. Naquele ano, Jair Bolsonaro chegou ao Planalto sem uma estrutura televisiva robusta no primeiro turno. A conclusão, mais uma vez, será difícil de ignorar: para dialogar com os eleitores, em particular os nativos digitais, líderes políticos tendem a adaptar suas mensagens às dinâmicas das redes.
Isso não significa apenas a adoção de um novo meio, mas a transformação da própria mensagem nas democracias contemporâneas, cada vez mais subordinadas à lógica dos algoritmos e, portanto, aos interesses de seus desenvolvedores. As big techs, com raras exceções, representam forças estrangeiras e acabam limitando o alcance da soberania popular.
Apenas isso é suficiente para decretar o fim do modelo de democracia em vigor desde o fim da ditadura militar. Saem as famílias que dominam as concessões de rádio e TV: hoje nosso voto é moldado por empresas estrangeiras, camufladas por uma estrutura aparentemente sem hierarquias, mas cuja base passiva é a sua excelência, o eleitor. Ou seria melhor chamá-lo pela alcunha nada lisonjeira de fantoche de algoritmos? Seremos um dia capazes de interromper essa manipulação?