Se, em qualquer nível, o BBB pode ser visto como amostra simbólica para compreender o Brasil, quem sabe pode ser visto também como um tubo de ensaio para as eleições presidenciais deste ano. Essa mostra, que rende milhões em publicidade, teve a jornalista Ana Paula Renault como grande vitoriosa na final do maior reality show do país, com 75,94% dos votos e um prêmio de quase R$ 6 milhões.
Ana Paula é jornalista, mineira de 44 anos, oriunda de uma família bem posicionada política e economicamente, ativista e apresentadora. Ficou conhecida como a ex-veterana expulsa do mesmo reality após um episódio de agressão em 2016 — ano politicamente lembrado pelo golpe contra outra mineira, a então presidenta Dilma Rousseff.
O principal enredo do programa girou a partir da conexão entre Ana Paula e Milena Moreira, ou apenas “Tia Milena”. Ambas formaram uma dupla imparável, que gerou desconfianças sobre os reais interesses envolvidos numa amizade pouco provável no “mundo real”, com um paredão entre a manutenção do privilégio branco e as desigualdades socioeconômicas e raciais.
Criada em um abrigo durante a infância ao lado da irmã gêmea, Tia Milena é uma jovem de 26 anos, que trabalha desde os 11 anos como babá/empregada doméstica, profissão herdada de outras mulheres da sua família, mas antes de entrar no reality show já desfilava seu carisma como empreendedora do ramo da recreação infantil em Teófilo Otoni (MG).
Saltando entre a importância de aprovar o fim da escala 6×1 ou a venda da Amazônia, os diálogos entre as duas renderam não apenas altas porcentagens nas votações, mas também diálogos pedagógicos. De um lado, a jornalista politizada. De outro, a recreadora carismática, com doses de inspiração autodidata, resiliência criativa, convicções religiosas e pitadas de senso comum.
Os adversários duvidaram de uma conexão desinteressada, reconhecendo a reprodução velada dos papéis de “patroa” e “empregada”. A aproximação das duas conterrâneas de Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país, atravessou os 100 dias de confinamento até o pódio, onde Tia Milena ocupou o segundo lugar (17,29%).
Há quem questione os obstáculos ao protagonismo negro de Tia Milena. Há quem ressalte que ela foi tudo, menos uma coadjuvante, atuando como interlocutora cheia de personalidade, vontade e voto, assim como tantos que demandam atenção pedagógica para demonstrar as incongruências da extrema direita rumo ao paredão eleitoral de outubro.
Dizem que quem ganha em MG ganha a eleição presidencial
Nos últimos anos, Ana Paula se expôs com posicionamentos frontais em favor de pautas progressistas. Em 2023, confrontou o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) após discurso transfóbico no Dia Internacional da Mulher.
O BBB 26 foi a primeira edição a combinar veteranos, camarotes e pipocas, forjando convivências quase tão diversas quanto a população brasileira. A inclusão de perfis mais representativos rendeu debates que extrapolaram as futilidades de um show de massas, alcançando machismo, racismo, divisões de classes e o flaflu entre defensores de Lula ou Bolsonaro.
As críticas ao bolsonarismo resultaram em expressões de ódio contra Ana Paula, que revelou receio com os haters. Num jogo de irreverência e sarcasmo, tomou para si o perfil de “desumana”, desestabilizando seus opositores.
Se quem ganha em Minas ganha a eleição, a visão de Belo Horizonte ao vivo por apoiadores da veterana progressista pode sugerir um cenário fértil à campanha de Lula, que deverá exercitar habilidade e sensibilidade para dialogar com as “Tias Milenas”, sem subestimá-las. Este é o desafio, num paredão eleitoral que definirá o rumo do maior país da América Latina, cercado pelo avanço da extrema direita.
O terceiro lugar, as redes sociais e outras receitas
Juliano chegou como camarote, mas era um tiktoker de 21 anos, conhecido por vídeos de dança e figurinos extravagantes. Mostrou-se um aliado leal e mediador. Quando Babu Santana rompeu a aliança com Ana Paula, foi Juliano quem buscou o diálogo, expressando sua dor, ouvindo queixas e tentando preservar as relações. Não funcionou, mas a tentativa diz mais sobre quem ele é do que o desfecho.
Juliano mostrou para um Brasil machista que outras masculinidades são possíveis. Demonstrou que a força pode estar na empatia, na sinceridade e na lealdade. Que homens podem chorar sem mostrar fraqueza, mas compaixão e cumplicidade. Ele representa quem pode sentar com quem discorda, ouvir de verdade e não sair menor.
Tadeu Schmidt tornou-se ele mesmo um personagem. Apresentou o programa no dia da morte de seu irmão Oscar Schmidt, o maior jogador de basquete do Brasil. Quebrou protocolos e contou isso a Ana Paula, que acabara de saber da morte de seu pai. Mostrou empatia — um valor político, construído e passível de disputa. Tadeu personifica nossa elite midiática, que pode ser persuadida a ter empatia pelo Brasil.
O BBB 26 teve uma forte participação da torcida, que protegeu Ana Paula e aliados com uma mobilização há muito não vista, eliminando adversários “favoritos” um a um.
No X (antigo Twitter), o BBB 26 ficou mais de 16 dias em primeiro lugar nos Trending Topics do Brasil. A temporada alavancou 788 termos nos Trending Topics Brasil, 124% a mais que o BBB 25, e 130 nos Trending Topics Mundo, crescimento de 97%. Em dois meses, já acumulava mais de 70 milhões de menções nas redes sociais. Nos perfis oficiais da Globo, somaram 21 bilhões de visualizações e mais de 860 milhões de interações.
Apesar de considerado fútil por boa parte da esquerda intelectual, os personagens do BBB mostram boas estratégias para uma vitória progressista. O confronto político criativo é a chave: não aceitar fake news passivamente, pautar o debate, “ir para cima”. Expor “o jogo” dos adversários com campanha negativa desde o começo, e mostrar como se diferenciam de quem vive apenas do confronto pelo confronto.
O público engajado mostra que nenhuma campanha se vence apenas com partidos. É preciso trazer os militantes no sentido mais amplo, transformar as eleições num “paredão” — com mutirões de convencimento online e presencial para “eliminar” o candidato bolsonarista no primeiro turno. O diálogo com artistas e influenciadores digitais pode ser a chave: têm conexão direta com o público e conhecem ferramentas de engajamento.
Para quem ainda não comprou o argumento, vale ver a reflexão de Zuza Nacif, estrategista político e CEO da Brasil Comunicação. Para Nacif, a relevância política se constitui na circulação entre televisão, redes sociais e suas derivações em tempo real. A arena decisiva se desloca para o ambiente móvel, onde o eleitor consome e compartilha conteúdos num contexto de atenção fragmentada. Comunidades digitais defendem narrativas e ampliam alcance de modo orgânico — lógica já manifesta na política por WhatsApp e influenciadores regionais. Campanhas competitivas convertem identificação em participação efetiva.
A própria Ana Paula tem muito a colaborar, se não se aventurar como candidata. Foi diretamente apoiada pela primeira-dama, Janja Lula da Silva. Até outubro de 2026, essa aproximação com a política é vital. Devemos lembrar do papel de pessoas como Xuxa e Felipe Neto em 2022.
Finalmente, o Brasil não tem 50% de fascistas dispostos a votar em Flávio Bolsonaro. O núcleo duro do bolsonarismo é cerca de 30% da população. Logo, devemos olhar para esses 20% flutuantes, comparáveis à nossa Tia Milena. Ela não é uma abstração, carrega na trajetória as marcas materiais do eleitor indeciso: pessoas comuns, frustradas com o poder de compra, endividadas, com pouca esperança. Mas ainda sonham e podem ser convencidas. Como Tia Milena, são fortes, determinadas e querem um futuro melhor. Não podemos cogitar desistir delas ou subestimá-las.