Garcia Pereira Advogados Associados

Muita coisa ainda pode acontecer até 4 de outubro, mas uma série de fatos recentes demonstra que existe uma vontade concreta de uma parte do eleitorado de superar a polarização entre centro-esquerda e extrema direita. Pela primeira vez nesta campanha, um candidato que não seja de um desses polos chega aos dois dígitos de intenção de voto. Seu nome é Augusto Cury (Avante).

Médico psiquiatra e escritor de livros de autoajuda, ele teve sua candidatura analisada no último texto desta coluna. A mais recente pesquisa Quaest, divulgada nesta quarta-feira (2), confirmou a tendência de levantamentos publicados no começo da semana que já indicavam o surgimento de uma terceira força na campanha, reunindo 10% das intenções de voto.

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No entanto, a persistente popularidade do lulismo e do bolsonarismo, assim como a taxa de rejeição mútua entre esses grupos, também indica que ainda falta muito para que uma terceira via emerja de modo competitivo na política brasileira. Esse cenário deve persistir mesmo após o ministro André Mendonça ter sustado o sigilo de investigações que apontam que seu colega de STF Alexandre de Moraes pode ter feito advocacia administrativa e praticado tráfico de influência em favor de Daniel Vorcaro, o ex-banqueiro do Master que colocou praticamente toda a república no bolso, criando, assim, um terreno fértil para o voto antissistema.

Após a derrota de Jair Bolsonaro nas eleições de 2022 e sua consequente condenação por diversos crimes, dentre eles, tentativa de abolição violenta do Estado democrático de Direito e golpe de Estado, em 2025, parte da direita e centro-direita vem tentando encontrar uma alternativa viável a Bolsonaro, enfrentando enorme dificuldade em superar o estado simbiótico com o bolsonarismo, ao qual se lançou nos últimos anos.

As próprias candidaturas dos ex-governadores Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD), notáveis apoiadores do ex-presidente golpista nos últimos anos, revelam o constrangimento dessa posição.

Precisam, portanto, demonstrar que são uma alternativa ao bolsonarismo ao mesmo tempo em que defendem políticas que, embora sejam bandeiras da extrema direita, encontram respaldo entre eleitores que se autodenominam moderados. Elas incluem manutenção de abordagens truculentas de segurança pública e anistia para os condenados do 8 de janeiro, inclusive para o próprio Jair Bolsonaro, além da redução dos poderes do STF — tema que volta a ganhar força em meio às suspeitas que recaem sobre Moraes no caso Master.

Para o eleitorado verdadeiramente centrista, fica difícil diferenciar as propostas de Zema e Caiado das apresentadas pelo senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato no lugar do pai; para o eleitor bolsonarista, mais vale o filho ungido do messias/mito da extrema direita que ex-aliados vistos como titubeantes e externos ao “clã”, qualidades que despertam a desconfiança dos fanáticos.

Ademais, os ex-governadores vêm apresentando notáveis problemas de comunicação. Zema demonstra não só dificuldade em concatenar ideias, como exibe falta de conhecimento frente aos problemas nacionais: por exemplo, quando perguntado sobre educação na entrevista da TV Globo, respondeu vagamente sobre aumentar o número de escolas integrais, sem se dar conta de que o foco constitucional do governo federal é o ensino superior.

Já o candidato do PSD, que vinha se esforçado para se apresentar como a melhor opção de direita à Presidência, se mostrou, ao longo da sabatina conduzida por Renata Vasconcellos e César Tralli, prolixo e confuso, sem conseguir responder a contento o que lhe era perguntado. Tendo sido candidato pela primeira vez em 1989, parece ter ficado por lá enquanto terminou pedindo voto aos eleitores mais jovens.

Ao contrário dos outros candidatos da direita, Renan Santos (Missão) apresentou desenvoltura, expressa em respostas rápidas e contundentes, com habilidade o suficiente para mascarar que o destaque de seu projeto para a segurança pública, inspirado no sistema prisional de Nayib Bukele em El Salvador, além de ser inconstitucional, cria uma segunda categoria de cidadão, bastante próxima da adjetivação de “inimigo interno” e quase desprovida de garantias constitucionais.

Possivelmente tão perigoso quanto Flávio Bolsonaro, o candidato do Missão é mais bem articulado e busca se afastar de discursos golpistas. Caso eleito, difícil dizer se vai afastar-se de tentações autoritárias, tal como segmentos do establishment imaginavam que Jair Bolsonaro faria na Presidência. Como todo extremista, o “mito” decidiu dobrar a aposta e governou como bem entendeu.

Renan poderia ter ganhado popularidade, particularmente entre os críticos do sistema de justiça, depois do imbróglio da suspensão de sua campanha digital pelo ministro Dias Toffoli, principalmente após Toffoli voltar atrás e liberar a campanha em resposta ao recurso apresentado ao TSE pela equipe do candidato. Porém, o sentimento antissistema acabou capturado por outro outsider.

Cury, esperto orador e profissional versado na autoajuda, busca construir uma imagem difícil de ser trabalhada pelos outros presidenciáveis: a de um candidato de centro. Calma, supostas boas intenções e um discurso neoliberal humanizado formam o repertório de Cury, que parece dizer o que muitos querem ouvir, sem apresentar substância para seus argumentos. Basicamente, a fórmula fácil de seus livros é aplicada à sua capacidade discursiva, o que constitui um prato cheio para o eleitor ávido por palavras amenas e soluções superficiais.

Cury não demonstra força política, pois sua intenção é justamente apresentar-se como outsider: mais vale ser o candidato que concilia os dois polos que ainda ocupam o imaginário do eleitor médio. “Mente capitalista, coração social”, conforme o próprio Cury se definiu, o médico parece navegar sobre águas já conhecidas por outros ao longo do século passado: trata-se de evocar o imaginário da famosa “terceira via”, cujas expressões políticas foram tão diversas, passando pelo nazifascismo, social-democracia e social-liberalismo.

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Ele obviamente não dialoga com a primeira destas vertentes (que é de extrema direita), ficando em algum lugar entre as duas últimas. Na atual conjuntura, o Brasil pode suportar tudo, menos uma presidência ainda mais fraca que aquelas dos últimos 11 anos, quando teve início a captura do orçamento pelo Legislativo por meio de emendas impositivas.

De fato, sem força política, um eventual governo Cury correria risco de ser capturado pelos bolsonaristas que deverão tomar o Senado de assalto e “farmar aura” de antissistema, mas querem apenas emascular as instituições para se vingar do STF, em particular Moraes, por ter condenado seu líder golpista.