A falta de recursos direcionados pelos partidos e a ausência de estrutura de campanha são as principais barreiras para a eleição de candidatos jovens, que vêm caindo no Brasil, diz um estudo feito pela organização Legisla Brasil publicado nesta segunda (10/8).
A pesquisa mostra que as candidaturas de jovens entre 18 e 19 anos caíram 36% entre 2020 e 2024, mais do que o dobro da média de outras faixas etárias, que tiveram um recuo de 15%.
Em 2024, a proporção de jovens do total foi de apenas 5,6%. Nessas eleições, os candidatos jovens receberam, em média, 64% do orçamento de candidatos mais velhos — e também tiveram menos acesso à estrutura de campanha.
Segundo os pesquisadores, isso contribui para que a taxa de sucesso das candidaturas jovens seja menor. Em 2024, 7,1% dos candidatos de 18 a 20 anos se elegeram. A taxa foi de 16% entre os candidatos de 35 a 44 anos — mais que o dobro.
Para a pesquisadora Synthya Maia, que coordenou o estudo, os dados das eleições municipais são especialmente reveladores, pois as Câmaras de Vereadores costumam ser a porta de entrada para jovens ocuparem cargos eletivos.
“Se eles não conseguem acesso nem nas eleições municipais, quem dirá para cargos executivos ou legislativos em outras instâncias”, diz ela. “A gente encontrou uma barreira logo nessa entrada.”
Além de consolidar dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de quatro eleições (2018, 2020, 2022 e 2024), o estudo também fez entrevistas qualitativas com jovens de 18 a 29 anos filiados a 16 partidos de diferentes espectros políticos.
Causa do encolhimento
Tanto os dados quantitativos quanto as entrevistas qualitativas derrubaram a hipótese de que o pouco envolvimento da juventude com política partidária é resultado de desinteresse, diz a coordenadora do estudo.
“É quase um senso comum que jovens não se interessam por política partidária”, afirma Maia. “Mas o que encontramos foi o oposto: há interesse e os partidos reconhecem a importância do público, mas retêm os instrumentos de decisão: voto na direção, recurso de campanha, espaço deliberativo etc.”
O estudo afirma que os partidos nomeiam, convocam e exibem sua juventude, mas sem dar de fato espaço relevante: todos os 18 partidos analisados têm juventudes organizadas, mas apenas 6 garantem voto na direção nacional e só um assegura orçamento à juventude em estatuto. Nenhum mantém mecanismos dedicados a financiar candidaturas jovens.
O estudo não traz a listagem dos partidos por se concentrar em fazer uma análise mais estrutural, diz a coordenadora.
Os dados mostram que o problema não se concentra em nenhum campo específico — tanto partidos de esquerda quanto de direita e centro enfrentam essa falta de apoio estrutural aos jovens. Isso indica que a causa é estrutural e não ideológica, afirma Maia.
Além da falta de apoio dos partidos, duas mudanças recentes nas regras eleitorais também ajudam a explicar a pouca renovação: a cláusula de desempenho e o novo cálculo do quociente eleitoral.
A cláusula de desempenho determina que, para ter acesso ao fundo partidário e ao tempo de TV, o partido precisa ter um patamar mínimo de votos ou uma distribuição de candidatos eleitos pelo Brasil. Já a mudança no cálculo do quociente eleitoral dificultou a eleição de candidatos com baixa votação.
“Com isso, faz sentido para o partido, do ponto de vista prático, enxugar a chapa e concentrar recursos nos políticos já consolidados — ou seja, houve um desincentivo ao investimento em jovens, que ainda não construíram um histórico eleitoral”, diz Maia.
Recortes de gênero, raça e classe
Em um aspecto, as candidaturas jovens não se diferenciam das outras faixas etárias: a desvantagem eleitoral varia de acordo com classe, raça e gênero, concentrando-se em mulheres e negros.
Entre os jovens de até 29 anos eleitos em 2024, menos de um quinto eram mulheres e mais da metade eram brancos.
O estudo aponta que a diferença de gênero está presente em todas as legendas, inclusive nas de maior estrutura formal.
Ao combinar os marcadores, a chance de uma jovem mulher negra se eleger foi pouco mais de um décimo da chance de um homem branco da mesma idade.
A probabilidade de vitória também sobe muito de acordo com o patrimônio declarado. A taxa de sucesso dos jovens foi de 19,8% entre os 25% de candidatos mais ricos. Entre os 25% mais pobres, o índice caiu para 4,8%.
Pensamento divergente
Embora não haja tanta diferença entre esquerda e direita nos dados e no acesso, o que os jovens enxergam como solução vai em sentidos opostos.
“Os jovens de esquerda e de centro defendem medidas afirmativas, como, por exemplo, a criação de uma reserva de fundo para a juventude”, explica Maia.
“Já os jovens de direita apontam como solução uma maior disposição das lideranças partidárias em partilhar poder com a juventude”, diz ela.