Mil quinhentos e treze dias. Se você tivesse esse prazo para resolver um problema de escala planetária, como começaria? Primeiro, entendendo o tamanho do problema. Depois, mapeando a equipe disponível. Em seguida, definindo quem faz o quê, com quais recursos, até quando.
Por último, estabelecendo pontos de chegada ao longo do caminho, porque ninguém gerencia o que não consegue medir. Se algo faltar, o trabalho precisa começar mesmo assim, e você, grande chefe dessa cruzada, precisa ir atrás das pessoas e do dinheiro que faltam. Porque o tempo não pára e não teremos como adiar a entrega final.
Essa é, em essência, a lógica que deveria governar o Mapa do Caminho para Deter e Reverter o Desmatamento e a Degradação Florestal até 2030, iniciativa lançada pelo presidente Lula na abertura da COP30 (Conferência das Partes sobre Clima), em Belém, em novembro de 2025, e reiterada pelo presidente da conferência, André Corrêa do Lago: a meta não é do Brasil ou dos trópicos. É do planeta inteiro. As florestas regulam o clima local e global, influenciam chuvas e temperaturas, mantêm a biodiversidade e sustentam serviços ecossistêmicos essenciais para milhões de espécies, incluindo a nossa.
Um Mapa do Caminho não é um tratado, não cria obrigações novas e não se esgota no gesto simbólico. É um instrumento de coordenação: mapeia quem faz o quê, com quais recursos, em que sequência, para que atores com interesses radicalmente distintos possam agir de forma convergente. Bem construído, é a peça que faltava entre o mandato do Acordo de Paris e a floresta que ainda está de pé. Mal construído, vira mais um catálogo de compromissos reembalados e 1.513 dias passam sem que ninguém responda por nada.
O tamanho do problema dispensa eufemismos. Em 2024, o mundo perdeu 8,1 milhões de hectares de florestas, área maior que o Rio de Janeiro e 63% acima da meta para 2030. A equipe, ao menos no papel, é extraordinária: 99% dos países membros da ONU, com mandato claro nos parágrafos 33 e 34 do Balanço Global do Acordo de Paris de 2023 para deter e reverter o desmatamento até 2030.
O que falta é uma arquitetura de governança capaz de transformar mandatos fragmentados em ação coordenada. A maior ameaça ao Mapa do Caminho não é a ausência de vontade política declarada. É a fragmentação: tratados que não dialogam, trilhas negociais paralelas que nunca se cruzam, financiamento disperso sem padrões comuns e responsabilidades tão diluídas que ninguém responde por nada. A ciência identificou cinco alavancas precisas, com atores nomeados e prazos definidos, que precisam ser acionadas simultaneamente.
A primeira é uma questão de hierarquia. Conservar a floresta em pé vale entre sete e dez vezes mais, em termos de benefício climático por real investido, do que qualquer esforço equivalente de restauração. “Plantar árvore” não pode virar desculpa para desmatar. E há uma razão a mais para a urgência: mesmo que o desmatamento cessasse amanhã, o fogo continuaria esvaziando a vegetação nativa.
Somente na Amazônia, cerca de 7% das florestas sofreram incêndios ao menos uma vez entre 1985 e 2024, reduzindo em cerca de um quarto os estoques de carbono nessas áreas. Qualquer mecanismo que trate conservação e restauro como equivalentes está construído sobre uma premissa falsa. E as NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas) de boa parte dos países fazem exatamente isso.
A segunda alavanca: só se governa o que se mede. Os sistemas de monitoramento ainda operam com métricas binárias que não enxergam a degradação florestal. A tecnologia para medir incêndio, perda de biomassa e fragmentação existe, mas os inventários nacionais foram construídos para reportar apenas emissões de terras manejadas, excluindo as maiores fontes em crescimento: fogo em florestas boreais, degelo de permafrost e emissões de florestas tropicais fora das áreas manejadas.
A lacuna entre o que os países reportam e o que os modelos estimam chega a 7 bilhões de toneladas de CO₂ por ano. Os países estão sendo avaliados contra um retrato estruturalmente incompleto do problema que tentam resolver.
A terceira alavanca é financeira. Os subsídios que incentivam a conversão de ecossistemas superam o financiamento à conservação na proporção de 200 para 1. Triplicar o investimento é necessário, mas insuficiente se a arquitetura do dinheiro não mudar. O GCF, os bancos multilaterais e o REDD+ seguem operando com critérios pouco articulados entre si e com acesso limitado às comunidades que guardam a floresta.
Um instrumento promissor é o TFFF (Tropical Forest Forever Facility), que propõe pagamentos por desempenho de cerca de quatro dólares por hectare por ano, financiados por mercado de títulos, com penalidades explícitas por degradação causada por fogo.
A quarta alavanca é o comércio. A agricultura responde por 90 a 99% do desmatamento tropical, e seis commodities concentram a maior parte dessa conta: carne bovina, soja, óleo de palma, cacau, café e borracha. O Regulamento de Desmatamento da União Europeia é o instrumento mais pronto para operar fora da UNFCCC, mas o comércio agrícola entre Brasil e China ainda não tem nenhuma condicionalidade ambiental. Embutir essas exigências em acordos bilaterais soberanos funcionaria muito mais rápido do que qualquer harmonização multilateral.
A quinta alavanca é ao mesmo tempo a mais simples e a mais negligenciada. Territórios indígenas formalmente reconhecidos têm taxas de desmatamento consistentemente menores do que áreas protegidas geridas pelo Estado. Na Amazônia, armazenam mais da metade do carbono acima do solo e respondem por apenas 10% da variação líquida de carbono. Um terço do carbono irrecuperável do planeta está em terras geridas por povos indígenas e comunidades locais. Não reconhecer direitos territoriais não é omissão. É uma escolha ativa de destruir o mecanismo de conservação mais eficaz documentado pela ciência.
O Mapa do Caminho para as Florestas começou bem. A presidência da COP30 fez uma chamada para contribuições envolvendo partes, sociedade civil, cientistas e povos indígenas, criando responsabilidade compartilhada. Mas um bom mapa nomeia atores e ações concretas. O GCF e o secretariado do REDD+ precisam estender o financiamento para prevenção de degradação e gestão de fogo até 2027.
O IPCC precisa atualizar suas diretrizes para inventários de 2026 a 2028. A FAO precisa medir não apenas quantos hectares permanecem em pé, mas em que condição. Os bancos multilaterais precisam eliminar créditos que incentivam a expansão agrícola em ecossistemas de alto carbono até 2026. Países de floresta tropical precisam regularizar a posse de terras indígenas com registros georreferenciados públicos até 2028.
Nosso chamado enquanto sociedade civil e cientistas é para que o Mapa do Caminho tenha uma arquitetura real com atores nomeados e prazos que alguém responda, ou acabará se tornando mais um papel enterrado no cemitério de mapas do caminho que o antecederam.