O Banco Central incorporou em seu cenário de inflação “uma estimativa preliminar do impacto da medida de ampliação da isenção do imposto de renda”. A informação consta da ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), na qual o colegiado manteve os juros inalterados em 15% ao ano, bem como a sinalização de que assim ficarão por tempo “bastante prolongado”.
O impacto do IR não está detalhado no documento que explica as razões e as discussões em torno da política monetária. Mas a autoridade deixa espaço para ajustar suas projeções nesse flanco ao dizer que “considera que tal estimativa é bastante incerta e acompanhará os dados para calibrar seus impactos”.
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O documento também classifica essa opção como uma “postura conservadora e dependente de dados”, que tem sido reforçada “por exemplos recentes de medidas, fiscais e creditícias, que se conjecturava que poderiam levar a uma discrepância em relação ao cenário delineado, mas não provocaram divergências relevantes em relação ao que se esperava”.
Ao dizer que incorporou uma estimativa de impacto da isenção do IR, aprovada em definitivo na semana passada pelo Congresso e que está pendente de sanção pelo Executivo, o BC reduz uma dúvida do mercado sobre em que medida esse tema estava sendo considerado nas projeções e na análise da autoridade.
Outro efeito de incorporar o IR no seu cenário é que a autoridade monetária implicitamente indica um aumento da possibilidade de flexibilização dos juros no futuro próximo, especialmente porque, mesmo com esse fator e outros elementos de impacto fiscal sobre a demanda, as projeções acabaram por melhorar. O risco, porém, é se o impacto efetivo for maior do que o estimado.
Na ata, o Copom projetou o IPCA em 3,6% para o ano que vem, primeiro ano de vigência da medida e em 3,3% para o segundo trimestre de 2027, onde está o chamado “horizonte relevante” da política monetária, que nada mais é do que até onde as decisões atuais de juros têm impacto.
Ainda assim, o discurso geral da ata é duro e dificulta ter clareza sobre em que momento a Selic, cujo nível tem sido crescentemente criticado pelo governo, vai cair.
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Além de alertar para os riscos fiscais, foi importante a ênfase da ata no cenário externo com incertezas que dificultam a análise e demandam do BC postura mais cautelosa, embora o comportamento da taxa de câmbio esteja sendo favorável – em parte pelos juros altos.
Se foi uma evolução a ata informar que já considera o IR no seu cenário, ainda que em caráter preliminar, o BC volta a derrapar na transparência ao não detalhar qual a estimativa para esse impulso e em que medida isso está afetando as projeções de inflação ao longo do horizonte.