No livro “Por que as eleições importam?”, o cientista político Adam Przeworski dá alguns recados que merecem ser ouvidos no Brasil, entre eles o fato de que não devemos esperar ou idealizar a democracia e as eleições para além da possibilidade de o povo escolher, garantir a alternância de poder e remover líderes ruins. Pode parecer pouco, mas não é.
Num cenário de normalidade, eu estaria confortável para prever um ambiente político menos tumultuado no Brasil pós-eleições de 2022. A literatura da ciência política nos ensinou que a economia tornará a ambição de Bolsonaro quase impossível, já que os eleitores passarão a mensagem de suas insatisfações nas urnas. Mas eu não estou confortável. Primeiro, porque o malfadado ano de 2018 não deixou dúvidas sobre a importância de outras pautas, como a dos valores e da moralidade, na decisão do eleitor. Segundo, porque Bolsonaro não está derrotado, mas ao contrário (e a despeito da péssima gestão), tem demonstrado vigor extra.
O último mês apontou nessa direção. Nem a tentativa de golpe de Estado no 7 de setembro, a agressão sistemática contra opositores durante três anos de mandato, o desemprego, a inflação alta, nem mesmo os 650 mil mortos pela Covid-19 foram suficientes para nocautear o presidente nas pesquisas. Na contramão da racionalidade, a popularidade presidencial retoma o fôlego, sobe um pouco mais e ele resiste competitivo na disputa. Para a maioria dos eleitores, aqueles que não aguentam mais o governo de Jair Bolsonaro, o recado é simples: as únicas coisas que dá para se afirmar são que o jogo não está ganho, que a disputa de outubro será dificílima e que os dois primeiros candidatos posicionados estarão no segundo turno, para a frustração dos que ainda sonhavam com uma terceira via – aquela que nunca existiu – e a turma do já ganhou.
Há algumas possíveis explicações para a recente melhora da popularidade de Bolsonaro. Supõe-se que o pagamento do Auxílio Brasil tenha alavancado uma segunda chance dos grupos mais pobres, que depois de um recuo importante voltou a melhorar a percepção sobre o presidente pouco a pouco quando o benefício voltou a ser pago.
A vacinação em massa se estabeleceu também como fator de alívio ao brasileiro. Este continua preocupado com o vírus, mas se sente cada vez mais protegido pelos imunizantes. Com um percentual alto de pessoas vacinadas, é natural supor que o medo do vírus passa a ser encarado de outra forma. A vacina favoreceu a maior circulação das pessoas, o que afeta positivamente a retomada de certos setores da economia que estavam prostrados.
Há também maior clareza do eleitor sobre o fato da terceira via ter sido mais fruto de uma expectativa de alguns setores do que uma realidade. Neste caso, o eleitor renitente pode estar começando a deslocar seu voto em direção à polarização Lula X Bolsonaro, que tem se consolidado como as candidaturas mais viáveis. Enquanto isso, pré-candidaturas ensaiadas vão sendo retiradas ou não decolam. Ao menos é o que as pesquisas têm demonstrado, basta ver resultados como o que o Ipespe divulgou em seu último monitoramento, no qual a probabilidade de voto em Lula seria de 44% e de Bolsonaro, 28%, mantendo-se praticamente estável nos últimos meses e sinalizando que 72% dos eleitores já estão propensos a se comprometerem com esses candidatos. O atual presidente seria, portanto, o principal receptor dos votos do eleitor antipetista e que releva qualquer outra coisa no horizonte, até mesmo Bolsonaro.
Por fim, e o mais importante na minha opinião, é que como chefe do Executivo, o presidente detém instrumentos que lhe conferem vantagens em relação aos demais candidatos. Exemplo disso é a distribuição eleitoreira de recursos públicos sem nenhum pudor, como a que vimos na semana passada, quando se prometeu a distribuição de R$ 150 bilhões através de medidas que visam a impulsionar a economia pelo governo. Alguém tinha dúvidas de que isso aconteceria? Só desavisados, já que até Paulo Guedes, o ministro mais liberal, antecipou no ano passado: “Agora vem a eleição? Vamos para o ataque!”.
Diante de uma corrosiva inflação que tem diminuído a renda dos brasileiros, esse governo está disposto a gastar e a fazer o que for preciso para que seja reeleito. Pode ser agradando o centrão com transferências milionárias de um orçamento secreto ou até mesmo a base fanática e moralista que se satisfaz com as migalhas de medidas pró-família para o cidadão de bem, como tem sido feito no caso do filme em que o comediante Fabio Porchat participa.
Para quem preza as instituições da democracia, é hora de lidar com a realidade e receber as lições do professor Przeworski como um presente para organizarmos o futuro próximo. Segundo ele, as experiências que alguns países democratas têm vivido mostram que, apesar de importantes, as instituições democráticas podem não oferecer as salvaguardas necessárias para impedir que os regimes sejam subvertidos por governantes.
Lembrem também que as eleições devem ser encaradas como arranjo político que possibilita que nós, eleitores, possamos tirar do poder quem faz mal à sociedade, e não para que atendam toda e qualquer expectativa que fazemos sobre o futuro. Bolsonaro é o candidato que defende a ditadura ou eleições com um único resultado aceitável, sem alternância de poder. Às vezes o voto serve apenas para evitar o pior, que no caso brasileiro, é decidir se teremos ou não eleições mais à frente. E isso é muita coisa.