O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), começa o segundo semestre de 2026 com a liderança consolidada dentro da Casa e com uma proximidade maior com o presidente Lula (PT). Apesar de ter rendido bons frutos para ambos os lados, a relação com o petista não resolveu a principal aposta pessoal do parlamentar: garantir apoio para a eleição de seu pai, Nabor Wanderley (Republicanos) ao Senado da Paraíba.
Ao longo do último ano, com o apoio de Motta, o governo conseguiu avançar em projetos considerados prioritários. Enquanto fortalecia sua posição como principal articulador político da Câmara, o parlamentar também costurou acordos que evitaram derrotas a Lula em áreas como a economia e a segurança pública.
No plano pessoal, no entanto, o deputado lida com o silêncio do petista a respeito de um possível apoio à candidatura de seu pai. Ex-prefeito de Patos por quatro mandatos, Nabor Wanderley segue sem ganhar tração nas pesquisas e aparece atrás do ex-governador João Azevedo (PSB) e do senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB), candidato à reeleição.
Nesse contexto, um vídeo em que Lula declarou apoio a Veneziano provocou desconforto entre aliados de Motta. No grupo político do presidente da Câmara, a expectativa era de que o petista retribuísse a colaboração recebida no Congresso com um gesto público em favor de Wanderley. Até agora, isso não aconteceu.
Motta, por outro lado, já declarou formalmente seu apoio à reeleição de Lula nesta semana. O presidente viu o gesto com bons olhos e chamou o deputado paraibano para uma conversa. Na mesa, está o apoio do governo à reeleição de Motta para a presidência da Câmara no ano que vem.
A construção da liderança
Quando foi eleito presidente da Câmara, em fevereiro de 2025, Hugo Motta chegou ao cargo respaldado por uma ampla aliança construída por seu antecessor, Arthur Lira (PP-AL), que reuniu partidos do PT ao PL. Os desafios, entretanto, começaram no dia seguinte à eleição.
O paraibano prometeu uma gestão mais previsível, baseada na construção de consensos e na valorização do colégio de líderes. Na prática, porém, precisou administrar um ambiente polarizado e equilibrar pressões constantes do governo e da oposição.
Ao longo do primeiro ano, acumulou desgastes dos dois lados. Impôs derrotas ao governo ao pautar o projeto de decreto legislativo (PDL) que derrubou a alteração promovida pelo Executivo no Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) e atendeu a uma das principais demandas do Partido Liberal (PL) ao colocar em votação a urgência e o mérito do projeto que concedia anistia aos condenados pelos atos de 8 de Janeiro.
Também enfrentou momentos de forte tensão institucional. Nesse período, a Câmara foi ocupada duas vezes: primeiro por deputados do PL, que resistiram publicamente ao retorno de Motta à sua cadeira; depois pelo deputado Glauber Braga (PSOL-RJ), durante os protestos contra a cassação do mandato do parlamentar, encerrados pela atuação da Polícia Legislativa.
Foi ainda sob sua gestão que ganhou força o slogan “Congresso inimigo do povo”, impulsionado pela repercussão negativa da chamada PEC da Blindagem, que dificultava a abertura de processos criminais contra parlamentares e acabou sendo enterrada no Senado. Meses depois, a mobilização passou a mirar o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), por segurar a votação da PEC que extingue a escala de trabalho 6×1.
No fim de 2025, Motta chegou a declarar publicamente que havia rompido relações com os líderes das duas maiores bancadas da Câmara, Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) e Lindbergh Farias (PT-RJ), após sucessivas críticas à sua condução da Casa. A indicação de Guilherme Derrite (PP-SP) para relatar o projeto do governo de combate às facções criminosas também aumentou o desgaste entre governo e oposição.
A aproximação com o Planalto
O cenário mudou ao longo de 2026. Mais alinhado ao Palácio do Planalto, Motta passou a colher resultados políticos. Participou ao lado de Lula do lançamento de programas estratégicos, como o Pacto Nacional contra o Feminicídio e o Brasil Contra o Crime Organizado.
Também assumiu protagonismo na articulação da PEC da jornada 6×1, aprovada sem alterações relevantes em relação ao texto defendido pelo governo, e conseguiu eleger o deputado Odair Cunha (PT-MG) para a vaga da Câmara no Tribunal de Contas da União (TCU).
Na segurança pública, costurou um acordo que permitiu a aprovação da PEC do setor sem a inclusão do referendo sobre a redução da maioridade penal, principal ponto de divergência do Executivo. A solução encontrada foi transferir a discussão para uma comissão especial, adiando qualquer deliberação para depois das eleições.
Nos últimos dias do primeiro semestre legislativo, também liderou as negociações entre a equipe econômica e a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) para construir um acordo em torno da proposta de renegociação das dívidas rurais. Motta se recusou a votar o texto aprovado pelo Senado, de elevado impacto fiscal, e coordenou uma solução intermediária.
Na relação com o Judiciário, manteve uma postura mais moderada que Arthur Lira, embora tenha feito críticas ao ministro Flávio Dino após decisões envolvendo emendas parlamentares ligadas ao PL. Posteriormente, afirmou que demonstraria ao Supremo Tribunal Federal (STF) a legalidade da distribuição dos recursos.
O teste das urnas
A despeito da boa relação construída com Lula, o presidente da Casa segue enfrentando o desafio político de transformar o capital institucional que adquiriu ao longo do ano em apoio eleitoral para o projeto de sua família na Paraíba.
A ausência, até agora, de um gesto público de Lula em favor de Nabor Wanderley tornou-se motivo de incômodo entre aliados de Motta e evidenciou que a parceria construída em Brasília encontra limites quando confrontada com interesses eleitorais locais.
Já em seu quarto mandato como deputado federal, Motta será candidato à reeleição para a Câmara. O resultado das urnas ajudará a definir não apenas o destino político de seu pai, mas também o tamanho da influência que o paraibano terá na próxima legislatura.