A crise envolvendo o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), no caso Master levou a campanha de Flávio Bolsonaro (PL) ao que aliados consideram ser seu melhor momento até agora. Ao mesmo tempo, porém, o grupo já trabalha com a expectativa de que a guerra interna na Corte também respingue no senador e que ele entre na mira nas próximas semanas.
A avaliação leva em conta o fato de Flávio também estar envolvido em outra frente de investigação relacionada a Daniel Vorcaro: os pagamentos feitos pelo ex-banqueiro ao filme Dark Horse, que conta a história de Jair Bolsonaro. No mês passado, o ministro André Mendonça autorizou a Polícia Federal a investigar a suspeita de uso irregular desses recursos. Já o ministro Flávio Dino autorizou o compartilhamento com a PF de informações do material apreendido pela Polícia Civil de São Paulo sobre o caso.
Além disso, faz parte da estratégia do PT relembrar o episódio para manter Flávio sob suspeita. Por isso, o partido pediu a retirada do sigilo dessa investigação também – algo que o senador não comentou, mas que foi endossado pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
O cenário permite à campanha tentar se preparar para o que pode vir, ainda que não saiba o quê, como ou quando. Outra frente de preocupação são as investigações sobre emendas parlamentares, sob a alçada de Dino. O vice de Flávio, deputado Alfredo Gaspar (PL-AL), é alvo de um pedido da PF para a abertura de investigação sobre esse tema.
Eleitor de centro
São muitas as frentes em aberto, enquanto a campanha eleitoral fica à revelia das decisões e guerras internas do Supremo. Mas, até o momento, isso tem beneficiado o presidenciável do PL, na avaliação de aliados. Para eles, há uma oportunidade para avançar no eleitorado de centro, furando a bolha do bolsonarismo com esse caso.
O relatório da PF que divulgou conversas entre Vorcaro e Moraes não trata de uma questão relacionada à democracia, algo que elevou o magistrado a um pedestal na esquerda. O documento, porém, levanta suspeitas sobre a atuação do magistrado para eventualmente favorecer o ex-banqueiro. Por isso, aliados de Flávio acreditam ser possível colar o desgaste do episódio em Lula, na esteira de um discurso anticorrupção. Mais além, o caso ajuda a impulsionar o slogan “Fora, Moraes”, que eles levantam há muito tempo, antes mesmo de surgirem suspeitas de corrupção.
O tema, aliás, é encarado como o terceiro em ordem de prioridade do eleitorado, de acordo com interlocutores de Flávio. Está atrás de poder de compra e segurança pública – dois assuntos que o presidenciável já tem explorado na sua propaganda eleitoral, também por entender que são mais favoráveis a ele do que ao petista.
Como o JOTA mostrou, o ato programado para o 7 de Setembro será um marco para tentar reaglutinar a militância, e a crise de Moraes não poderia ter vindo em melhor momento para isso. Eles acreditam que uma manifestação reformulada para incluir “Fora, Moraes” tem capacidade de encher mais as ruas do que simplesmente um ato pró-Flávio.
O senador foi aconselhado a se posicionar e a pedir o afastamento do magistrado, mas deixando clara a diferenciação entre a instituição e Moraes. A orientação dá conta de que Flávio não pode se indispor com todos os dez ministros e deve focar a artilharia no que condenou seu pai a 27 anos de prisão por liderar a trama golpista.
Os ataques mais duros devem vir dos aliados. Isso porque a pauta de impeachment de ministros voltou à agenda eleitoral e pode beneficiar sobretudo os candidatos ao Senado – Casa que tem a prerrogativa de abrir e conduzir o processo.