Garcia Pereira Advogados Associados

O vídeo divulgado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na noite desta quinta-feira (3/9) tem uma origem bastante pragmática. A iniciativa partiu do ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, diante da avaliação geral de que estava ficando insustentável para Lula continuar sem dizer nada sobre as denúncias envolvendo o ministro Alexandre de Moraes e a crise que tomou conta do Supremo Tribunal Federal (STF).

A publicação veio depois de Lula conversar, nos últimos dias, com o presidente do STF, Edson Fachin, e com o decano da Corte, Gilmar Mendes. O presidente acompanhou de perto a escalada da crise antes de decidir falar publicamente. 

Conheça o JOTA PRO Eleições, cobertura eleitoral especial do JOTA que oferece transparência e previsibilidade para empresas

Até então, a estratégia era não puxar o assunto. Lula falaria se fosse provocado. O problema é que, com a crise crescendo, o silêncio começou a falar por ele. E não bastava terceirizar o posicionamento para o presidente do PT, Edinho Silva, que já havia divulgado um vídeo nesta semana defendendo investigações e dizendo que ninguém está acima da lei. Na avaliação da campanha, quem precisava colocar distância entre Lula e Moraes era o próprio Lula.

Recados de Lula e ‘timing’ do vídeo

Foi esse o objetivo central do vídeo. Os recados são relativamente simples. Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, foi preso durante o governo Lula. A referência a “vazamentos seletivos” tem como endereço político o ministro André Mendonça, do STF, responsável por retirar o sigilo do material que expôs as conversas de Vorcaro com Moraes. E, se houver elementos para investigar Alexandre de Moraes, que ele seja investigado. Como disse Lula, é preciso apurar “todo mundo, sem blindagem de ninguém”.

O timing tornou o vídeo ainda mais significativo. Lula publicou a manifestação praticamente no mesmo momento em que Moraes pedia a Fachin a abertura de investigação contra André Mendonça por suspeitas que incluem abuso de autoridade. Enquanto os dois ministros escalavam o confronto dentro do Supremo, Lula aparecia em público pregando investigação de todos os lados e criticando vazamentos seletivos e pedindo uma reforma das instituições.

Há um entendimento na campanha de que Lula precisa se descolar de Moraes. Os dois acabaram politicamente associados ao longo dos últimos anos, sobretudo depois do 8 de Janeiro e dos embates do ministro com Jair Bolsonaro e com o bolsonarismo. Essa proximidade, que em outros momentos interessou ao governo, agora virou um passivo. As mensagens de Moraes com Vorcaro tornaram inviável para Lula continuar tratando o ministro apenas como símbolo da defesa da democracia.

Presidente na defensiva

A campanha trabalha, até aqui, com relativa tranquilidade sobre a possibilidade de o escândalo atingir diretamente o presidente. A avaliação é que as investigações ainda podem alcançar personagens do PT da Bahia e envolver autoridades e políticos de diferentes matizes ideológicos. Mas não há, neste momento, a percepção de que exista uma ponte capaz de levar o caso até Lula.

Isso não significa que o Planalto e a campanha petista considerem o episódio inofensivo. A leitura é que os últimos dias foram muito ruins para o presidente porque o colocaram na defensiva, justamente quando a campanha começava a tentar deslocar a eleição para terrenos mais favoráveis, como emprego, renda, programas sociais e comparação de governos. 

Lula passou a ter de explicar corrupção, relações entre poderosos e uma crise institucional dentro do Supremo. Mesmo que não seja personagem das denúncias, é um assunto que rouba oxigênio da sua campanha.

Há ainda um problema mais amplo. Pessoas envolvidas na campanha acreditam que, no tema corrupção, Lula e o candidato do PL, Flávio Bolsonaro, tendem a se neutralizar na percepção de boa parte do eleitorado. Tem material para os dois lados. A diferença é que Lula está no poder. E, para quem governa, o desgaste provocado pela sensação de que Brasília inteira está metida em algum escândalo costuma ser maior.

É preciso deixar o caso decantar para medir seu impacto eleitoral. O vídeo de Lula não encerra o problema. Serve, antes, para marcar posição e tentar construir uma distância segura enquanto ainda há tempo.