Garcia Pereira Advogados Associados

Três anos atrás, escrevi neste espaço, quando ainda era hospedado em outro site, o texto “Afinal, o que é o municipalismo?”, no qual procurei compreender a estratégia política anunciada por Carlos Brandão nos primeiros meses de seu governo no Maranhão.

Naquele momento, a pergunta ainda estava aberta. O municipalismo aparecia como uma possibilidade de reorganização administrativa e política do estado, com a promessa de aproximar o governo estadual dos municípios, ampliar a cooperação federativa e conferir maior autonomia às gestões locais. Também era possível enxergar nessa escolha uma tentativa de afastamento em relação ao modo de governar associado ao ciclo anterior e de construir uma coalizão política mais ampla, sustentada pela interlocução direta com as prefeituras.

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Tenho dito, há algum tempo, que governar é desagradar. A frase parece simples, mas contém uma premissa elementar da política: governar é escolher. E escolher significa estabelecer prioridades, distribuir recursos, organizar agendas, reconhecer demandas e, inevitavelmente, deixar outras em segundo plano. Não há administração pública capaz de converter conflito em unanimidade, assim como não há governo capaz de satisfazer simultaneamente todas as expectativas que se dirigem ao Estado. A política começa precisamente onde termina a fantasia de que todos podem ser contemplados da mesma maneira.

A Ciência Política ajuda a tornar esse ponto mais claro. A competição política não ocorre em uma sociedade homogênea, mas entre grupos, interesses, territórios e lideranças que disputam recursos escassos e reconhecimento público. Giovanni Sartori mostrou que a análise da política exige atenção à competição, à estrutura dos sistemas partidários e às clivagens que organizam as preferências sociais. Nessa perspectiva, a capacidade de um governo formar alianças não elimina o conflito, apenas o administra temporariamente. Uma coalizão ampla pode conter tensões, mas dificilmente consegue anulá-las.

É sob essa lente que o municipalismo de Brandão precisa ser reavaliado. A estratégia pode ter sido funcional para ampliar a presença do governo estadual nos municípios, construir canais de diálogo com prefeitos e organizar uma rede de cooperação institucional. Mas seria um erro supor que presença administrativa equivale, automaticamente, a adesão política ou fidelidade eleitoral. Entre a parceria de governo e a decisão de apoiar uma candidatura existe uma distância relevante, marcada pelos interesses próprios de cada prefeito, pelas expectativas sobre a eleição e pela disputa concreta por influência nos territórios.

A comparação com a gramática política construída pelo grupo Sarney ajuda a perceber essa diferença. Durante décadas, o sarneísmo estruturou uma forma de poder baseada na conexão entre o governo estadual, as lideranças regionais e as prefeituras. Essa estrutura combinava acesso a recursos, capacidade de mediação e uma rede de alianças suficientemente estável para reproduzir influência em diferentes eleições.

Não se trata de reduzir aquele ciclo a uma fórmula simples, nem de ignorar as mudanças profundas da política maranhense. Trata-se de reconhecer que a articulação municipal sempre ocupou papel decisivo na sustentação do poder estadual.

O governo Carlos Brandão atualizou essa gramática com outra linguagem. No lugar de uma relação explicitamente apresentada como controle político, entrou em cena o vocabulário da cooperação federativa, da presença territorial, da descentralização e da escuta dos municípios.

Essa repaginação não é irrelevante, porque responde a um ambiente político mais competitivo, mais fragmentado e mais exposto ao escrutínio público. Ainda assim, ela preserva uma aposta central: a de que a aproximação do governo estadual com as prefeituras pode fornecer a base para uma coalizão política duradoura.

Ainda que o municipalismo tenha funcionado como estratégia de interlocução e presença territorial, sua nova versão, repaginada sob Carlos Brandão, parece enfrentar obstáculos maiores para transformar esses vínculos em mobilização eleitoral. Diferentemente da capacidade historicamente demonstrada pelo grupo Sarney de organizar alianças mais estáveis e de converter articulação territorial em sustentação política, o governo atual opera em uma conjuntura de maior competição, maior circulação de lideranças e menor previsibilidade dos apoios. A estrutura continua importante, mas já não basta para assegurar que o aliado institucional de hoje seja o aliado eleitoral de amanhã.

O caso de Imperatriz ajuda a observar esse problema de modo concreto. Rildo Amaral reconheceu publicamente a parceria institucional com o governo Brandão e as obras realizadas no município, mas declarou apoio a Eduardo Braide (PSD), sustentando sua escolha na avaliação sobre o futuro da cidade e do estado, além da experiência administrativa do pré-candidato.

O episódio não demonstra, isoladamente, o esvaziamento de toda a base governista. Mostra algo mais relevante para a análise: a cooperação administrativa não suspende a autonomia estratégica dos prefeitos. Eles recebem recursos, celebram parcerias e compõem agendas com o governo estadual, mas continuam respondendo a cálculos locais, expectativas eleitorais e correlações de força em permanente mudança.

Uma estratégia que se pretende inclusiva enfrenta o limite inevitável de toda coalizão: não é possível acomodar plenamente interesses que, em algum momento, competem entre si. Para manter uma aliança, o governo precisa distribuir atenção, recursos e prestígio. Mas, ao priorizar determinados municípios, lideranças ou grupos, produz descontentamentos em outros. Ao tentar incorporar todos, corre o risco de diluir critérios, compromissos e identidade. Não há falha moral nessa dinâmica, há uma condição própria da política. Governar não é produzir consenso permanente, mas administrar conflitos que não desaparecem.

A convenção que oficializou Orleans Brandão como candidato do MDB ao governo do Maranhão tornou essa questão mais visível. O evento formalizou uma aliança composta por MDB, Republicanos, PDT, Podemos, PRD, Solidariedade e Agir, com Edivaldo Holanda Júnior (Republicanos) como candidato a vice, além de Roseana Sarney (MDB) e Weverton Rocha (PDT) na disputa pelo Senado.

A composição reúne forças importantes e procura transmitir uma ideia de abrangência política. Ao mesmo tempo, uma coalizão ampla não é, em si, prova de unidade duradoura. Ela também pode revelar o esforço necessário para reunir grupos com trajetórias, interesses e expectativas que não são necessariamente coincidentes.

Neste sentido, a trajetória de Orleans reforça esse ponto. Ex-secretário de Assuntos Municipalistas, ele apresentou a experiência acumulada na pasta como uma das bases de sua candidatura e afirmou, na convenção, que pretende percorrer o Maranhão e dialogar com todo o estado. Seu discurso preserva os elementos centrais da estratégia municipalista: a valorização da presença junto às prefeituras, a interlocução territorial e a ideia de continuidade.

O desafio consiste em saber se esse repertório, que pode ser adequado à administração pública, será igualmente capaz de produzir identificação eleitoral e sustentar uma candidatura que precisa ultrapassar os limites da estrutura governamental.

Os dados disponíveis ajudam a situar a dificuldade. Pesquisa Real Time Big Data, contratada pelo próprio instituto e registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número MA-04311/2026, ouviu 1.600 eleitores no Maranhão entre os dias 6 e 7 de julho de 2026. O levantamento tem nível de confiança de 95% e margem de erro de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos.

No cenário de primeiro turno, Eduardo Braide aparece com 44% das intenções de voto, contra 31% de Orleans Brandão. No confronto direto de segundo turno, Braide tem 52% e Orleans, 38%. A pesquisa foi divulgada pelo Poder360 em 8 de julho de 2026. Esses números não encerram uma eleição ainda em curso, mas revelam, neste momento, uma diferença entre a amplitude institucional da coalizão governista e sua capacidade de converter essa estrutura em preferência eleitoral.

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Três anos depois da pergunta do referido texto, minha conclusão é menos taxativa do que a formulação de um fracasso. O municipalismo de Brandão produziu uma forma concreta de organização governamental e ampliou a interlocução com as prefeituras. Mas sua eficácia como fundamento de uma sucessão política ainda está em disputa.

Governar é desagradar porque toda escolha produz limites, frustrações e novas disputas. A tentativa de incluir todos pode ampliar momentaneamente uma coalizão, mas não elimina o conflito que a sustenta, nem garante que aqueles que foram incluídos permaneçam juntos quando chega o momento decisivo da escolha.