Garcia Pereira Advogados Associados

A tese de que a relação universidade-empresa é o elo fraco do sistema brasileiro de inovação (SBI) é talvez o diagnóstico mais repetido na literatura nacional sobre o tema. Os números clássicos são conhecidos: enquanto cerca de 35% das empresas inovadoras na Finlândia mantêm algum tipo de cooperação com a academia, no Brasil esse percentual historicamente girou em torno de 3% a 10% (Arbix; Salerno, 2010). O dado se tornou tão recorrente que assumiu o status de senso comum entre formuladores de política: a inovação brasileira não decola porque a universidade não dialoga com a empresa.

Os dados realmente apontam um sistema com baixa interação entre os subsistemas científico e produtivo, mas a leitura mais cuidadosa da literatura recente sugere um diagnóstico mais sofisticado: a Embrapii, o Porto Digital e, mais recentemente, o Centro de Excelência em Inteligência Artificial (CEIA) da Universidade Federal de Goiás (UFG) apontam caminhos institucionais distintos para enfrentar o problema. O argumento aqui defendido é o de que o gargalo brasileiro está na ausência de instituições intermediárias capazes de operacionalizar essa interação em escala.

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Primeiro, os dispêndios em inovação estão majoritariamente voltados para a aquisição de máquinas e equipamentos, ou seja, as empresas brasileiras compram inovação em vez de produzi-la. Segundo, apenas cerca de 3% das empresas inovadoras desenvolvem alguma cooperação com universidades.

Em 2002, 8% dos grupos de pesquisa cadastrados no CNPq declaravam algum tipo de relacionamento com empresas; em 2010, esse número havia subido para mais de 13%, chegando a 30% nas engenharias e 26% nas ciências agrárias.

A interação cresceu, mas o sistema continua produzindo pouca inovação. O problema não está apenas no nível agregado da relação entre os dois subsistemas, mas em outras dimensões: a baixa demanda empresarial por conhecimento avançado, a estrutura produtiva pouco diversificada, a fragilidade do mercado de capital de risco e, sobretudo, a ausência de mecanismos institucionais que traduzam a interação pontual em rotinas sistemáticas de geração de tecnologia.

Das aproximadamente mil patentes registradas pela Unicamp, apenas 87 (menos de 9%) foram licenciadas para empresas. No MIT, em um único ano (2016), 30% das patentes registradas foram licenciadas. O contraste sugere que o problema brasileiro é transferir o conhecimento patenteável ao tecido produtivo. E aqui o argumento desloca-se, pois o gargalo fica na fragilidade institucional das pontes entre universidade e empresa.

Três caminhos de intermediação: Embrapii, Porto Digital e CEIA

Criada em 2013, a Embrapii opera por meio de uma rede de Unidades credenciadas que desenvolvem projetos de P&D sob demanda das empresas, na faixa de maturidade tecnológica entre TRL 3 e 6, ou seja, no chamado “vale da morte” da inovação. O modelo financeiro é tripartite: a Embrapii aporta até 1/3 dos recursos (não reembolsáveis), a empresa aporta no mínimo 1/3 e a Unidade complementa.

O dado mais relevante é a mudança qualitativa que o modelo induz: a maioria dos projetos foca em inovação de produto (45%) e produto-processo (35,5%), invertendo o padrão histórico das empresas brasileiras.

O caso do Porto Digital. Lima et al. (2022) analisam um arranjo de natureza distinta: um parque tecnológico em Recife que, desde 2000, articula a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), via Centro de Informática (CIn), governo estadual e iniciativa privada (com papel central do Cesar, instituto privado de inovação fundado em 1996).

O resultado é eloquente: 39% das empresas embarcadas no parque afirmam que o ambiente universitário “alavancou” seus negócios; 82% dos profissionais recrutados no parque são pernambucanos formados localmente; entre 2002 e 2004, o Cesar repassou R$ 1,5 milhão ao CIn enquanto o repasse federal foi de apenas R$ 100 mil. A New Rizon atuou em projetos de blockchain em 2019 junto ao Cesar e a colaboração mútua com inovação vinda da academia fez o desafio do projeto ser encurtado. Aqui também, como na Embrapii, o que se vê é uma engenharia institucional específica que viabiliza a relação universidade-empresa. A diferença é que, enquanto a Embrapii opera como rede nacional descentralizada, o Porto Digital opera como aglomeração territorial densa, sustentada por uma instituição-ponte (o Cesar) e por políticas estaduais ativas.

O caso do CEIA. Criado em 2019, em parceria entre o governo de Goiás e a UFG, o Centro de Excelência em Inteligência Artificial nasceu com a intermediação no desenho: o aporte inicial de R$ 12 milhões foi condicionado à criação de um curso superior de inteligência artificial e à captação de recursos com o mercado (Fapeg, 2026). O curso se tornou o mais concorrido da universidade, superando medicina, e o centro opera como Unidade Embrapii desde 2020, com mais de 30 empresas parceiras (UFG, 2026).

Os três casos compartilham uma mesma lição: a interação universidade-empresa, no Brasil, exige uma camada institucional intermediária, seja no formato de uma agência indutora (Embrapii), de um instituto-âncora territorial (Cesar) ou de um centro universitário desenhado para a demanda (CEIA). Essa camada cumpre quatro funções que nem a empresa nem a universidade conseguem cumprir sozinhas: redução de risco financeiro e tecnológico, tradução cognitiva entre as duas linguagens, agilidade contratual e governança compartilhada de longo prazo.

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Sem uma instituição que faça a tradução, o projeto não acontece. É justamente isso que Embrapii, Porto Digital e CEIA, cada um a seu modo, oferecem.

O diagnóstico do “elo fraco” precisa ser revisitado. Ao colocar o foco no atributo errado, a ausência da relação, ele pode ter desviado a política pública do problema mais profundo: a ausência das instituições que viabilizam essa relação em escala. Olhar para a Embrapii, o Porto Digital e o CEIA permite reformular a pergunta-chave: “que instituições precisamos construir para que a aproximação entre universidade e empresa produza inovação com impacto econômico e social?”. A resposta está na engenharia institucional paciente e essa é uma agenda que, em pleno debate sobre nova política industrial e missões nacionais, está apenas começando.


ARBIX, G.; SALERNO, M. S. (Orgs.). Inovação: estratégias de sete países. Brasília: ABDI, 2010.

DE NEGRI, F. Novos caminhos para a inovação no Brasil. Washington, DC: Wilson Center; Interfarma, 2018.

EMBRAPII. Embrapii em 2025: veja como foi nossa atuação. Brasília, 2026. Disponível em: https://embrapii.org.br/embrapii-em-2025/

FAPEG. Centro de Excelência em Inteligência Artificial da UFG amplia atuação e chega à Faculdade de Medicina. Goiânia, 2026. Disponível em: https://goias.gov.br/fapeg/centro-de-excelencia-em-inteligencia-artificial-da-ufg-amplia-atuacao-e-chega-a-faculdade-de-medicina/

LIMA, J. P. R.; MOREIRA, T. M.; COSTA, A. M.; GATTO, M. F. Tecnologia da informação, instituições e desenvolvimento local: o caso do Porto Digital – Recife. Planejamento e Políticas Públicas, n. 62, p. 211-228, abr./jun. 2022.

UFG. Centro de Excelência em Inteligência Artificial (CEIA). Instituto de Informática; Lançada pedra fundamental do edifício-sede do Ceia UFG. Goiânia, 2026. Disponíveis em: https://inf.ufg.br/p/39527-centro-de-excelencia-em-inteligencia-artificial-ceia e https://ufg.br/n/198253-lancada-pedra-fundamental-do-edificio-sede-do-ceia-ufg