O presidente do Instituto Locomotiva, Renato Meirelles, acaba de lançar um novo livro com atualizações dos seus estudos sobre a classe C brasileira, protagonista nas recentes eleições do país. Tendo sua mais recente obra como parâmetro, ele analisou, em entrevista ao JOTA, o cenário da atual disputa presencial e afirmou que nem Lula (PT) nem Flávio Bolsonaro (PL), os dois líderes das pesquisas, são capazes de fazer brilhar o olho dessa parcela expressiva da população.
“Existe uma gratidão ainda, especialmente, entre os mais velhos, à melhora de vida durante os anos do governo Lula, mas uma gratidão que não vem com uma perspectiva de um futuro melhor” afirma Meirelles. “Por outro lado, nós temos pessoas que efetivamente perderam seu poder de compra, perderam a sua perspectivava de futuro e estão com medo da violência. Essas pessoas tendem a ter um perfil mais conservador. Mas o fato é que o olho da classe C não brilha nem com Lula nem com Flávio porque nenhum dos dois entendeu que o trabalho deixou de ser sinônimo de emprego”, diz ele, referindo-se à enorme quantidade de brasileiras e de brasileiros que hoje não têm Carteira de Trabalho assinada.
No livro “Brasil da maioria: 25 anos de classe C” (Editora Record), Meirelles procura mostrar como renda, trabalho, consumo, religião e experiências do cotidiano costumam pesar mais na decisão do voto do que as leituras tradicionais que os analistas fazem do cenário político.
Questionado sobre as propostas liberais do candidato Renan Santos (Missão) batizadas de projeto de “desfavelização”, Meirelles afirmou que seria importante para o presidenciável conhecer de perto uma realidade de um território onde não existe educação, segurança nem áreas públicas de lazer. “Existe um lugar onde o Estado brasileiro é mínimo. Esse lugar é a favela, onde o Estado não tem nem o monopólio da força,” disse.
Na obra e na conversa com o JOTA, ele aborda também a influência das redes socias, o avanço das religiões evangélicas e as diferenças regionais do país, sempre apontadas como muito importantes para a definição do voto dos brasileiros.