Em 2011, quando o então PMDB era o principal fiel da balança no espectro político brasileiro, Gilberto Kassab deixou o finado Democratas e criou um partido que, segundo disse à época, não seria nem de esquerda, nem de direita, nem de centro.
A aposta arriscada naquele momento se mostrou vencedora: 15 anos depois, o PSD construiu uma relevante bancada no Congresso e se tornou o partido que mais elegeu prefeitos, com capilaridade invejável. Já admirado como analista do cenário político, Kassab de lá para cá ganhou aura de pitonisa.
Neste ano, veio a primeira candidatura presidencial da história do PSD, com Ronaldo Caiado — um candidato acima de qualquer suspeita de esquerdismo. Mas o mesmo Kassab, vice na chapa, não goza das mesmas credenciais junto ao eleitorado destro.
Somada ao histórico de camaleão político — não custa lembrar que foi ministro de Dilma Rousseff —, a declaração dele de que Flávio Bolsonaro tem “zero” chances de se eleger despertou ira nas campanhas de centro-direita e alegria entre petistas.
Ainda que Kassab tenha tentado se explicar depois, buscando argumentar que uma desidratação do candidato do PL pode favorecer o PSD, o que está em jogo é convencer o eleitor antipetista sobre quem tem mais chances de ir ao segundo turno, Beto Bombig analisa na nota de abertura.
A estratégia na campanha de Flávio é martelar que ele é o único capaz de chegar lá e derrotar Lula. Para isso, busca empurrar Caiado — que se opõe ao PT desde 1989 — para o campo adversário, dizendo que o vice dele não é mesmo nem de direita e nem de centro, mas, sim, de esquerda.
Boa leitura.
O PONTO CENTRAL
1. Segura, peão
A declaração de Gilberto Kassab de que Flávio Bolsonaro tem chance “zero” de se eleger teve efeito imediato: escancarou a disputa na oposição, alimentou especulações sobre investigações e desagradou o companheiro de chapa Ronaldo Caiado, Beto Bombig analisa no JOTA PRO Poder.
Por que importa: Lideranças partidárias e do mercado financeiro avaliam que Kassab expôs em público as dúvidas levantadas em privado quanto à viabilidade eleitoral do candidato do PL em um eventual segundo turno contra Lula.
- Kassab voltou ao assunto ontem (17) e foi alvo de críticas de Flávio e de Renan Santos.
- “À medida que o Flávio contava com o centrão e agora não conta mais, ele perdeu o tempo de televisão”, emendou Kassab, ao buscar esclarecer o que quis dizer.
- “Se ele perdeu o tempo de televisão, esse tempo veio para o Caiado, uma grande parte. Então, foi bom para o Caiado.”
- Em linhas gerais, o que está em jogo é convencer o eleitor antipetista sobre quem tem mais chances de ir ao segundo turno e, então, derrotar Lula.
Sim, mas… O momento da declaração e sua repercussão — muito influenciada pela formulação enigmática do candidato a vice de Caiado — podem não ajudar nenhum dos candidatos da oposição, inclusive o próprio candidato do PSD.
- A troca de farpas na centro-direita levantou dúvidas sobre as reais intenções do dirigente do PSD e só tem um beneficiário até agora: o presidente da República.
Na campanha do PT, a leitura é de que a divisão e a troca de farpas na direita têm dois efeitos de curto prazo:
- gerar expectativa de vitória do petista já no primeiro turno;
- e ajudar a afastar do foco do noticiário as investigações sobre o INSS, que têm Lulinha como principal alvo.
🔮 O que observar: Flávio reconheceu em privado, segundo o JOTA apurou, que a afirmação de Kassab pode criar uma onda de desconfiança no eleitorado antipetista quanto à sua viabilidade.
- A fim de repelir qualquer prejuízo, a campanha do PL adotou a estratégia de desqualificar Kassab como voz ativa entre os conservadores e empurrar Caiado para a esquerda.
- Nesse sentido, Flávio foi orientado a aumentar os ataques a Lula e a repetir quantas vezes for preciso que só ele é capaz de derrotar o presidente na eleição deste ano.
- Caiado também ficou insatisfeito com a repercussão da declaração de Kassab, que não teria passado por ele nem por sua equipe de comunicação, segundo o JOTA apurou.
- O candidato do PSD tem aumentado o tom dos ataques a Flávio, mas avaliou que a forma como a mensagem de seu candidato a vice foi interpretada pela opinião pública pode sugerir alguma proximidade dele com Lula ou com o PT.
- “Em nenhuma hipótese, em nenhum cenário, em nenhum turno, eu estarei ao lado de Lula ou do PT”, publicou nas redes o presidenciável do PSD.
UMA MENSAGEM DE EY
Reforma tributária vai exigir adaptação na Saúde

A reforma tributária brasileira trará impactos para o setor da saúde, que reúne prestação de serviços, indústria e distribuição de medicamentos. Hoje, serviços médicos e hospitalares, em regra, não recolhem ICMS, mas suportam o imposto embutido nos insumos, enquanto muitos medicamentos são tributados por regimes concentrados, como o ICMS-ST e o PIS/Cofins monofásico.
Com a reforma, a tributação passa a ser distribuída ao longo da cadeia e o sistema amplia a possibilidade de aproveitamento de créditos. As principais discussões envolvem:
- a definição dos medicamentos;
- dispositivos médicos e serviços que terão tratamento tributário diferenciado;
- os impactos para prestadores com alta folha de pagamento;
- a compatibilização da nova carga tributária com os preços regulados pela CMED;
- e os efeitos do split payment sobre o capital de giro de hospitais e demais agentes do setor.
2. Na presença dos EUA

O presidente do TSE, Nunes Marques, exaltou o sistema eleitoral brasileiro em evento com representantes de 89 países e organizações internacionais, Flávia Maia registra no JOTA.
- O ministro também destacou a parceria firmada entre a Justiça Eleitoral e as plataformas digitais e a segurança do sistema eletrônico.
Por que importa: A declaração se dá em um contexto de preocupação do governo brasileiro com a instrumentalização de plataformas e do uso de IA nas eleições.
- Um dos receios é a disseminação de informações falsas contra candidatos e a urna eletrônica de modo a interferir no equilíbrio do pleito brasileiro.
- Nunes destacou o diálogo com as plataformas para a elaboração da normativa sobre os planos de conformidade — a ideia inicial foi desidratada após as empresas apresentarem sugestões.
- Sobre as urnas, Nunes garantiu que elas são seguras e passam por constantes melhorias.
- “O aperfeiçoamento continuado dos instrumentos normativos e os avanços tecnológicos caminham lado a lado para garantir a integridade das eleições e o fortalecimento da democracia”, afirmou.
3. Aliás…

A Justiça Eleitoral nos estados tem adotado postura convergente em representações ajuizadas contra conteúdos publicados nas redes, Lucas Mendes escreve no JOTA.
Por que importa: Decisões liminares analisadas pelo JOTA apontam para uma maior deferência ao debate público, com a manutenção de posts mesmo em casos de críticas consideradas “severas” e “ácidas”.
- Esse entendimento vale inclusive para casos de “linguagem reprovável e grosseira”, mas cuja fala não tenha causado dano eleitoral a algum candidato específico.
- Também foram mantidas no ar postagens com imputações negativas a gestões de atuais ocupantes de governos locais.
- A maioria dos assuntos levados aos tribunais nas representações sobre propaganda envolve a publicação de conteúdo negativo contra adversários, a promoção antecipada de candidaturas ou ambos.
- Parte das decisões analisadas destaca a necessidade de uma “interferência mínima” da Justiça Eleitoral durante a pré-campanha.
Consulte os casos analisados na reportagem completa.
4. ‘Ecossistema criminoso’

Flávio Dino afastou por 180 dias o presidente do Tribunal de Contas do Estado do Maranhão, Daniel Brandão, sobrinho do governador Carlos Brandão, Flávia Maia registra no JOTA.
- Segundo o ministro, a manutenção de Daniel no cargo pode atrapalhar as investigações em curso sobre desvio de dinheiro público e um homicídio decorrente de esquema de propinas.
- Na avaliação de Dino, a nomeação de Daniel Brandão para conselheiro do TCE em 2023 tem “aparente tentativa de conferir proteção institucional ao investigado”.
A determinação se dá em meio a críticas sobre decisões tomadas pelo STF em investigações contra políticos e jornalistas do Maranhão.
- Uma das mais controvérsias partiu do ministro Alexandre de Moraes, que autorizou operação contra o ex-secretário Raimundo Cutrim, apontado como fonte de um jornalista investigado por suposto monitoramento de Dino.
- Após as críticas, na última sexta (14), Dino tornou públicas as três investigações.
- No sábado (15), o governador Carlos Brandão, que já foi aliado político de Dino, negou qualquer envolvimento com uma organização criminosa investigada pela Polícia Federal.
- Na decisão desta segunda-feira (17/8), Dino destaca que está em investigação um “ecossistema criminoso” existente no Maranhão, destinado ao desvio de recursos públicos — abrangendo, inclusive, emendas parlamentares federais.
5. Conversa vai, conversa vem

A 27ª Conferência Anual do Santander, ontem (17), em São Paulo, reuniu autoridades para debater as perspectivas da economia brasileira em meio à disputa eleitoral.
🔖 Leia nas reportagens de Beatriz de Cicco:
- ‘Olho por olho, o máximo que pode acontecer é todo mundo ficar cego’, diz Alckmin sobre tarifaço
- Durigan defende rigor na responsabilidade fiscal e fala em ‘liderança global’ do Brasil
- Galípolo alerta para uso de linha emergencial de crédito e fala em defesa do Pix
6. Carnês em atraso

O Grupo Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial por dívidas que somam R$ 17,3 bilhões, Carolina Maingué Pires registra no JOTA.
- Em abril de 2024, a empresa havia pedido recuperação extrajudicial, cujo plano, aprovado pelos credores, foi homologado em junho daquele ano.
- A maior parte das obrigações da recuperação extrajudicial já foi cumprida, mas é possível que alguns créditos remanescentes sejam sujeitos à proteção da recuperação judicial, segundo o JOTA apurou.
- A empresa considera que a recuperação extrajudicial foi exitosa, segundo os autos, mas diz que continua enfrentando dificuldades econômico-financeiras urgentes.