Garcia Pereira Advogados Associados

A recente parceria entre o YouTube e a TV Brasil para a exibição da série Afiadas não é apenas mais um lançamento no mercado de conteúdo, mas um marco que pode ajudar a redesenhar o futuro da distribuição audiovisual no país. Pela primeira vez, vemos uma plataforma global de compartilhamento de vídeos e uma emissora de TV pública unirem forças para potencializar o alcance de uma produção de relevância social e cultural.

O ineditismo dessa forma de distribuição traz também uma novidade para a indústria do entretenimento. Afiadas é uma série de humor, de alto valor de produção e custo relativamente baixo de execução, que aposta em um produto divertido, inteligente e popular.

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Com total liberdade criativa e sem as imposições de canais submetidos a estruturas corporativas que nem sempre colocam o conteúdo em primeiro plano, roteiristas, atrizes e direção puderam construir personagens e histórias que abordam, com humor e profundidade, algumas das questões mais relevantes da vida das mulheres brasileiras. Trabalho, cuidado, violência, autonomia, dinheiro, política, maternidade, sexualidade e desigualdade de gênero aparecem não como temas de nicho, mas como parte do cotidiano de milhões de pessoas.

Este é o tipo de projeto realizado por um grupo de talentos que teve liberdade para criar uma obra assumida e orgulhosamente brasileira, feminina e comprometida com a realidade social do país. E assim foi possível desenvolver um programa que dialoga diretamente com a experiência da nossa população e coloca no centro do humor temas que costumam permanecer à margem da atual conjuntura do entretenimento.

Afiadas carrega em si a potência da transversalidade. De um lado, a TV Brasil entra com a credibilidade, a capilaridade da TV aberta e a missão de democratizar o acesso à cultura e a informação. Do outro, o YouTube oferece a cauda longa, a interatividade e a capacidade de furar bolhas, garantindo que o conteúdo dialogue com diferentes gerações em seus próprios tempos e formatos.

Não se trata de uma janela “canibalizando” a outra mas sim de um modelo de sinergia que prova que, para o espectador brasileiro, a TV Brasil sintonizada no aparelho da sala, no YouTube na Smart TV ou no celular são rigorosamente a mesma: a tela escolhida para o consumo naquele momento. O valor de uma obra audiovisual não está preso ao suporte físico ou à tecnologia de transmissão, mas sim à sua capacidade de engajamento e relevância. Uma combinação de ineditismo de forma e conteúdo capaz de entregar entretenimento de altíssima qualidade e relevância.

No entanto, o ineditismo dessa união escancara um descompasso histórico, pois enquanto o público e as plataformas já vivem a convergência digital no seu dia a dia, o arcabouço regulatório brasileiro ainda enxerga o ecossistema de forma analógica. É exatamente nesse ponto que a conversa de mercado precisa evoluir.

Historicamente, a indústria estruturou-se na lógica de maximização de receita em cascata, impondo longos períodos de carência antes de uma obra saltar do cinema para a TV paga e, finalmente, para a TV aberta. A emissão do Certificado de Produto Brasileiro (CPB) torna esse cenário ainda mais complexo.

Para registrar e comercializar uma obra legalmente — sobretudo quando há o uso de recursos públicos de fomento —, o regulador exige o enquadramento em “Segmentos de Mercado” estanques: Salas de Exibição, Radiodifusão (TV Aberta) ou Comunicação Eletrônica de Massa (TV Paga). Todavia, as plataformas abertas baseadas em anúncios (AVoD), como o YouTube, apresentam uma nova forma de janela de exibição, que também atinge milhões de brasileiros e merece reconhecimento.

Embora o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) tenha financiado, ao longo das últimas décadas, milhares de obras que acabaram encontrando seu público no YouTube, essa sempre foi uma relação de “fato” e não de “direito”. O YouTube nunca foi, oficialmente, uma das janelas de exibição aceitas para o cumprimento de projetos fomentados. O resultado é que grande parte das produtoras brasileiras mantém hoje um acervo de obras prontas, muitas delas financiadas com recursos públicos, guardadas e sem qualquer perspectiva de circulação, impedidas de alcançar o público para o qual foram produzidas.

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Afiadas dita um novo ritmo para a indústria. Se o objetivo primordial do fomento público é fazer com que a cultura e a informação cheguem ao maior número possível de cidadãos, ignorar as plataformas digitais é um contrassenso estratégico. No caso do YouTube, mais de 85% do tempo de visualização vem de canais brasileiros.

Reconhecer plataformas digitais abertas como potenciais primeiras janelas de exibição pela Ancine, permitindo que contem formalmente como metas de difusão, não é apenas uma concessão ao modernismo. É uma necessidade urgente para oxigenar o mercado produtor independente, atrair novos investimentos e garantir que o dinheiro público investido gere o maior impacto social possível. O mercado já cruzou essa ponte. Resta saber quando a burocracia vai atravessá-la.