Diante da dificuldade do PT de estruturar palanques fortes para Lula em alguns estados, emissários do presidente e do Palácio do Planalto têm sinalizado composições em um eventual quarto mandato do petista para quem aceitar o desafio de concorrer em disputas consideradas de alta dificuldade.
Para os mais céticos ou críticos, o “desafio” pode ser chamado de “sacrifício” e a promessa de cargos de “terreno na lua”. Apesar de ser um exagero, pois, em uma eleição, qualquer resultado é possível, especialmente uma nova vitória de Lula, o fato é que a perspectiva de um quarto mandato para o petista se transformou no maior ativo a ser oferecido pelo PT neste momento em vários casos, principalmente para aqueles que correm grande risco de ficar sem mandato.
No jargão e na tradição do PT, quando uma liderança expressiva aceita a “missão” de ir para o “sacrifício eleitoral” com objetivo de blindar o palanque presidencial, ela acumula um expressivo crédito político com Lula e o comando do partido.
Ainda assim, mesmo acenando com boas posições no âmbito federal para o caso de derrota, o próprio presidente ou seus emissários têm recebido recusas de nomes escolhidos por Lula para a “missão”. Essa resistência tem deixado o petista em situação difícil em alguns estados.
O mais emblemático dos casos é o estado de São Paulo, maior colégio eleitoral do país, onde Lula precisou convencer Fernando Haddad (PT), com o aceno da participação dele em um futuro ministério, a assumir uma candidatura ao governo. Agora, o presidente atua para Márcio França (PSB) aceitar ser o vice na chapa.
Como o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) mantém, segundo as pesquisas, o favoritismo para ser reeleito, França tem se mostrado resistente a aceitar a missão porque as pesquisas têm indicado boas chances de ele conquistar uma vaga no Senado Federal. Marina Silva (Rede) também recusou o “convite” de Lula para ser a vice, de olho na possibilidade de ser senadora.
Situações semelhantes ocorrem em Minas Gerais, Paraná, Goiás e Espírito Santo. Em Minas, segundo maior colégio eleitoral do país, o senador Rodrigo Pacheco (PSB) não foi seduzido pelos acenos de que seria ministro em um eventual novo governo de Lula e desistiu de ser candidato ao governo com o apoio do presidente. A sinalização que o senador queria, uma vaga no STF a partir de 2027 em caso de derrota no estado, não lhe foi oferecida.
Diante dessa negativa, Lula e o PT buscam uma alternativa para que o presidente não fique sem palanque em Minas. A primeira opção de Lula é a ex-prefeita de Contagem Marília Campos (PT), mas ela prefere concorrer ao Senado. Pelo mesmo motivo, o deputado federal Reginaldo Lopes (PT) também tem resistido à possibilidade de concorrer ao governo.
Em Goiás, o presidente Lula defendia publicamente a candidatura da deputada federal Adriana Accorsi (PT), por considerá-la o nome mais competitivo e testado eleitoralmente em Goiás. Ela, no entanto, declinou formalmente o convite para priorizar a reeleição na Câmara dos Deputados, sob o argumento de que sua saída enfraqueceria a bancada federal. Assim, o diretório do PT de Goiás oficializou Luis Cesar Bueno como o nome da legenda para o Palácio das Esmeraldas.
Com poucas chances de ser eleito, Bueno é apadrinhado por Delúbio Soares,ex-tesoureiro do PT, e pelo ex-ministro José Dirceu, dois caciques nacionais do partido. Para ele, a “missão” poderá funcionar como uma chancela para assumir um posto de destaque em eventual novo mandato de Lula, caso não vença a eleição estadual.
No Espírito Santo, o PT decidiu lançar Helder Salomão para concorrer ao governo. Deputado federal mais votado do estado em 2022, ele trocou uma reeleição praticamente garantida pelo “sacrifício” de encabeçar um palanque para Lula, pois as mais recentes pesquisas apontam amplo favoritismo do governador Ricardo Ferraço (MDB), seguido por Lorenzo Pazolini (Republicanos).
Segundo lideranças do PT ouvidas pelo JOTA, caso Salomão confirme a provável derrota para o governo do Espírito Santo frente ao favoritismo de Ricardo Ferraço, seu caminho para a Esplanada dos Ministérios em 2027 estará bem pavimentado.
No Paraná, Lula deslocou Gleisi Hoffmann (PT) diretamente do Planalto, onde ela ocupava cargo de ministra, para a disputa de uma vaga no Senado. Conforme apurou o JOTA, a petista aceitou a missão com a promessa de retornar a um eventual novo ministério de Lula em 2027, assim como Haddad, que foi ministro da Fazenda.
Vaga garantida?
Além dos que irão para o “sacrifício” com a promessa de conquistar pontos com Lula, há ainda os ministros que abriram mão de concorrer para permanecer no ministério e que, por isso, esperam ser novamente recompensados em caso de reeleição de Lula.
O deputado federal Guilherme Boulos, por exemplo, atual ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, foi o mais votado em São Paulo em 2022. Neste ano, tinha reeleição certa e era lembrado para o Senado ou até mesmo para o governo. Mas, a pedido de Lula, decidiu permanecer no cargo ed eve ser mantido na Esplanada se o presidente for reeleito.
É o mesmo caso do ministro Luiz Marinho, do Trabalho e Emprego. Também atendendo a um pedido de Lula, ele decidiu permanecer à frente da pasta e, obviamente, espera ser mantido no primeiro escalão em caso de triunfo do presidente.
Fora do PT, Alexandre Silveira (PSD), ministro de Minas e Energia, está na mesma situação de Boulos ou Marinho: desistiu de uma candidatura para ficar no cargo e espera ser recompensado.
Dessa forma, se cumprir todos compromissos assumidos por ele ou em seu nome, o presidente terá de se desdobrar em busca de cargos no primeiro escalão. Antes disso, porém, precisa ser reeleito e conta com o “sacrifício” dos escolhidos.