A disputa pelas duas vagas do Senado por São Paulo neste ano tem chamado mais a atenção dos analistas e de quem acompanha de perto a política do que a eleição para o governo do estado. Se na competição pelo comando do Executivo as pesquisas indicam amplo favoritismo de Tarcísio de Freitas (Republicanos) sobre Fernando Haddad (PT), o mesmo não se pode dizer do cenário relativo às eleições majoritárias para o Legislativo federal.
De acordo com os mais recentes levantamentos, ao menos cinco candidatos estão praticamente embolados na corrida pelas duas vagas paulistas no Senado a partir de 2027. Esse dado, por si só, já conferiria grande dose de emoção ao pleito. Soma-se a ele, no entanto, o fato de que a eleição estadual, repleta de nomes conhecidos do eleitor, espelha a polarização nacional entre direita e esquerda, envolve a questão de gênero, pois entre os favoritos estão duas mulheres, e opõe diretamente o presidente Lula (PT) ao governador Tarcísio.
A mais recente pesquisa Genial/Quaest, divulgada nesta semana, traz Guilherme Derrite (PP) com 12%, Marina Silva (Rede) com 12%, Simone Tebet (PSB) com 11%, André do Prado (PL) com 7% e Ricardo Salles (Novo) com 4%. Como a margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, os cinco têm chance de conquistar uma das vagas.
No entanto, o principal dado é que na pesquisa espontânea, na qual os nomes dos candidatos não são mostrados aos entrevistados, 91% contam como indecisos porque não souberam citar um único nome. Esse recorte corrobora o que dizem os mais experientes analistas de pesquisas: a maioria dos eleitores só começa a se interessar sobre o Senado na reta finalíssima da campanha. Ou seja, os levantamentos valem pouca coisa neste momento.
Assim, apesar de termos cinco “favoritos”, é possível dizer que a campanha começa com a disputa completamente aberta, com chances, inclusive, para Soninha Francine (Cidadania) e Geraldo Rufino (Podemos), que aparecem com 2% na pesquisa Genial/Quaest.
Direita versus esquerda
Simone e Marina, ex-ministras de Lula, são as candidatas na chapa de centro-esquerda encabeçada por Haddad. Pela centro-direita, Derrite e Do Prado apoiam Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência e Tarcísio para o governo. Salles foi ministro do Meio Ambiente de Jair Bolsonaro (PL), o que basta para defini-lo no espectro político-eleitoral.
O cenário, portanto, tem uma evidente clivagem ideológica. Há ainda nesse sentido alguns detalhes para apimentar mais a campanha. Ex-ministra do Meio Ambiente, Marina é reconhecida por sua defesa das florestas, enquanto Salles é o autor da célebre frase “passar a boiada”, no sentido de aproveitar a pandemia da Covid-19 para afrouxar regramentos, incluindo o ambiental.
Mulheres versus homens
Marina e Simone têm insistido na importância de São Paulo eleger mulheres como forma de garantir maior participação feminina no Congresso. Segundo elas, o combate à violência política de gênero é essencial para fortalecer a democracia e assegurar a igualdade de direitos no Brasil.
Esse discurso tem reverberado na campanha de seus adversários, já que as mulheres são maioria no eleitorado brasileiro e costumam apresentar índices de abstenção menores do que os homens. Ex-secretário da Segurança Pública de Tarcísio, Derrite tenta atrair o voto feminino defendendo a prisão perpétua para condenados por crimes de estupro, enquanto André do Prado enfatiza o investimento do atual governo em delegacias especializadas.
Paulistas versus ‘forasteiras’
Outro componente importante envolve uma suposta “identidade paulista”. Simone é de Mato Grosso do Sul; Marina nasceu e cresceu no Acre, de onde se lançou para o mundo como liderança ambiental. Os adversários das duas apontaram esse fato como um desabono para que ambas representem São Paulo no Senado. Mas, se o carioca Tarcísio pode governar o estado, por que elas não podem ocupar as cadeiras na Casa Alta?
Segundo voto e disputa fratricida
Ninguém é capaz de garantir que os dois votos de cada eleitor mantenham uma coerência política e ideológica. Ou seja, uma cidadã ou um cidadão pode votar em Marina e em Salles, por exemplo, por mais estranho que isso pareça. Sim, é pouco provável, mas essa possibilidade complica a vida dos “pesquiseiros”, analistas e estrategistas.
O segundo voto costuma ainda impulsar a “disputa fratricida”, ou seja, dois candidatos da mesma chapa concorrendo diretamente por uma vaga. Em outros termos, se for mantida a tradição de São Paulo eleger um nome de cada campo (esquerda e direita), Derrite e Do Prado são concorrentes diretos, assim como Marina e Simone.
Força do governador versus a do presidente
A eleição para o Senado em São Paulo também testará o prestígio de Tarcísio e de Lula, líderes nas pesquisas para o governo e a Presidência, respectivamente. O governador tem colocado todo seu peso político para eleger André do Prado, após o estremecimento de sua relação com Derrite.
Lula busca se equilibrar entre suas duas ex-ministras, sendo que atuou diretamente para Simone ser candidata ao Senado por São Paulo, encaminhando a filiação dela ao PSB paulista, que tinha outros planos para a vaga. No entanto, o presidente possui uma ligação antiga e histórica com Marina, ex-militante do PT.
Para Simone, oriunda do MDB, a relação eleitoral com Lula será mais desafiadora na medida em que ela não pode se afastar do presidente para garantir o voto do eleitor dele, porém, precisará ficar atenta para não se associar demais à esquerda e afugentar o centro antipetista.
Chave de ouro
Fora da polarização direita versus esquerda e de saída do Senado, Mara Gabrilli (PSD-SP) atuou diretamente na liberação esta semana das garantias da União para três financiamentos internacionais destinados a São Paulo. Juntos, eles somam cerca de R$ 3,5 bilhões, valor a ser destinado para as áreas de mobilidade urbana, meio ambiente e saúde.
O Senado havia aprovado, em regime de urgência, as três operações no último dia 13, duas delas destinadas à eletrificação da frota de ônibus e uma ao programa Avança Saúde II, ambas relatadas por Gabrilli. A senadora, que não tentará a reeleição para concorrer a uma vaga na Alesp, comemorou a aprovação, que ajudará a fechar com chave de ouro sua passagem pela Casa.