Em 2002, quando Lula se elegeu pela primeira vez, as campanhas eleitorais tiveram 92 dias para atos nas ruas e propaganda na televisão — o maior período nos pleitos presidenciais desde então.
Desde a reforma eleitoral de 2015, o período oficial de campanha diminuiu quase pela metade. Neste ano, serão 49 dias até o primeiro turno, contados a partir do domingo passado (16).
Ainda assim, o período de “pré-campanha” — quando os “pré-candidatos” já começam a corrida por votos sem de fato pedi-los, a fim de evitar multas do TSE — é um momento sujeito a chuvas e turbulências.
Que o diga Flávio Bolsonaro, cuja pré-campanha passou pelas revelações sobre a relação dele com Daniel Vorcaro, uma briga pública com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o tarifaço aplicado pelos Estados Unidos.
Por ora, porém, com o início oficial da campanha, aliados do senador avaliam que o voo se estabilizou. Leia a análise de Marianna Holanda e Daniel Marcelino a seguir.
Boa leitura.
O PONTO CENTRAL
1. Nos céus
Um aliado de Flávio Bolsonaro compara o caso Dark Horse a um raio que atingiu um avião em céu de brigadeiro.
Depois de uma breve pane, porém, o voo parece ter se estabilizado, Marianna Holanda e Daniel Marcelino analisam no JOTA PRO Poder.
✈️ Panorama: A campanha sofreu três abalos logo de cara, com as revelações sobre a relação do senador com Daniel Vorcaro, a briga com Michelle Bolsonaro e o tarifaço de Donald Trump — além de três mudanças de marqueteiro.
- A campanha conseguiu, ao menos por ora, estancar a sucessão de crises.
- O senador apresentou um plano de governo à direita, com propostas duras contra o crime organizado e promessas de ajuste fiscal, ainda que sem detalhamento.
- É um plano menos explicitamente bolsonarista, com o qual a campanha busca ampliar o discurso para além da base mais fiel.
- Ainda assim, seguem investigações em curso e boatos sobre a existência de mais material envolvendo a relação entre Flávio e Vorcaro.
O candidato conseguiu também uma trégua nas disputas dentro do próprio campo político.
- Nos primeiros dias de campanha, esteve com Nikolas Ferreira em Minas Gerais, onde os dois fizeram agenda de rua.
- O parlamentar é alvo frequente de críticas e cobranças, em especial do entorno de Eduardo Bolsonaro.
- O bolsonarismo vinha esgarçado pelas polêmicas, especialmente pelas disputas envolvendo a própria família Bolsonaro.
- O movimento de recomposição durou meses e teve intensa participação de aliados.
- Ao final, chegou-se a uma espécie de bandeira branca.
No lançamento de sua candidatura ao Senado, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro falou em eleger o enteado.
- A expectativa é que faça vídeos e manifestações públicas nesse sentido durante a campanha.
- Michelle também gravou material para Flávio, assim como outros candidatos.
- Foram pequenos gestos, mas suficientes para evitar um rompimento dentro da própria base.
O consenso das pesquisas mostra o senador recuperando parte do eleitorado que havia perdido e reduzindo em cerca de dois pontos percentuais a distância para Lula.
- A melhora no ambiente para Flávio coincide com um período de maior pressão sobre Lula, marcado pela repercussão das apurações da Polícia Federal envolvendo Lulinha e seu ex-chefe de gabinete Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola.
- Interlocutores da campanha petista, porém, avaliam que o início do horário eleitoral gratuito, no próximo dia 28, poderá ajudar a equilibrar a cobertura e reduzir parte dessa assimetria.
- O presidente contará com o maior tempo de propaganda no rádio e na televisão: 5 minutos e 32 segundos por bloco de exibição, contra 4 minutos e 20 segundos do candidato do PL.
UMA MENSAGEM DE EY
Reforma tributária altera a lógica tributária no agronegócio

O agronegócio conta com um histórico de incentivos tributários, como isenções, diferimentos e regimes especiais, em razão de sua importância para a economia e para a segurança alimentar. Com a reforma tributária, parte desse tratamento será mantida por meio de alíquotas reduzidas, regimes específicos para produtores rurais, cooperativas e biocombustíveis, além da desoneração integral dos produtos que compõem a cesta básica.
No entanto, a implementação do IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e da CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) muda a tributação do setor. Com isso, a formação de preços, a gestão dos créditos tributários e a organização das cadeias produtivas passam a seguir uma nova dinâmica, orientada pelos princípios da neutralidade tributária e da tributação no destino.
O agronegócio também enfrentará mudanças na dinâmica de créditos, no fluxo de caixa e na gestão fiscal. Entre os principais impactos estão:
- o acúmulo de créditos e a dependência de mecanismos de ressarcimento;
- as incertezas regulatórias sobre insumos agropecuários, exportações, combustíveis, cooperativas e produtores rurais;
- e os desafios operacionais relacionados ao split payment.
2. Só para novembro

O governo se prepara para entregar a proposta de Orçamento de 2027 ao Congresso no fim deste mês, mas sem grandes mecanismos de ajuste, Fábio Pupo relata no JOTA PRO Poder.
Por que importa: Os maiores ajustes nas contas devem ficar para depois das eleições — em parceria com o Congresso, conforme a equipe econômica defende nos bastidores.
- O ministro Dario Durigan prega reduzir o teto de crescimento das despesas do arcabouço (hoje, em 2,5%), embora uma mudança significativa do percentual precise ser acompanhada de alterações legais a serem implementadas com o Congresso.
- Apesar das potenciais dificuldades no Legislativo, uma medida recente foi sugerida pelo governo e aprovada pelos parlamentares: no PLP dos Combustíveis, criou-se uma trava para despesas com vinculações legais.
- Além disso, no mesmo texto foi alterado o cálculo da RCL (Receita Corrente Líquida) — o que reduz determinadas despesas, como as com educação.
🔮 O que observar: Esse tipo de ajuste, se implementado em mais situações, pode cumprir um papel de acenar ao mercado em direção a uma responsabilidade maior com o controle de despesas.
- O compromisso está no discurso do ministro e no plano de governo, mas há a necessidade de mais elementos para acreditar que ele será implementado de forma robusta.
3. Vidas passadas

No ato de lançamento de sua campanha à reeleição, no domingo (16), Lula abordou um tema que estava fora do roteiro, Beto Bombig escreve em sua coluna no JOTA.
O improviso chamou atenção por não ter ligação direta com a eleição e por envolver um antigo aliado: o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal.
- “Você veja a diferença. No tempo da ditadura militar, um delegado de polícia permitiu que eu saísse da cadeia para vir no enterro da minha mãe”, disse o petista.
- “Agora, no regime democrático, um juiz, um ministro que eu indiquei, não permitiu que eu saísse da cadeia para vir no enterro do meu irmão Vavá — numa demonstração de que os homens não são medidos por épocas, os homens são medidos pelo caráter, pela dignidade, pela criação que ele teve de berço”, completou.
Por que importa: O gesto foi interpretado nos mundos político e jurídico como uma sinalização clara de que o presidente não será obstáculo a um eventual impeachment de Toffoli a partir do ano que vem, quando um novo desenho do Senado estará em vigor.
- O ministro acumula dezenas de pedidos de afastamento protocolados na Casa, impulsionados, principalmente, por contestações ligadas ao escândalo do Master.
- Na análise de um profundo conhecedor do presidente, Lula jamais falaria algo tão sério sem medir as consequências, ainda mais utilizando a palavra “caráter”.
- Haveria um cálculo político sofisticado que passa pela tentativa do petista de se reposicionar como candidato “antissistema” — ou seja, sem “rabo preso” com o STF.
Vavá morreu em janeiro de 2019, quando Lula estava preso em Curitiba, na esteira da Lava Jato.
- Toffoli, que presidia a Corte, não autorizou a presença de Lula no velório.
- O ministro concedeu uma autorização parcial para que o petista se encontrasse com familiares em uma unidade militar.
4. Tinta no papel

Onze plataformas digitais entregaram ao Tribunal Superior Eleitoral seus planos de conformidade para as eleições, Lucas Mendes registra no JOTA.
- Enviaram os planos Discord, Google, Kwai, LinkedIn, Mercado Livre, Meta, OpenAI, Pinterest, Telegram, TikTok e X.
🔭 Panorama: A elaboração dos planos é uma das inovações estabelecidas na resolução sobre propaganda eleitoral para o pleito deste ano.
- O plano deve ser usado para prevenir e mitigar riscos à integridade do processo eleitoral.
- Os documentos não foram divulgados na íntegra — pela portaria que regulamentou a elaboração, as empresas devem disponibilizar uma “camada pública” do plano, podendo manter uma versão restrita.
- A versão restrita é voltada à apresentação de dados cuja divulgação ampla possa comprometer a efetividade das ações, a segurança dos sistemas ou a proteção de informações técnicas e operacionais sensíveis do provedor.
A apresentação do plano dentro do prazo garante ao provedor a comercialização do serviço de impulsionamento de conteúdos político-eleitorais.
- Essa autorização vale até que o plano seja analisado pela Presidência do TSE.
- Eventuais inadequações não barram automaticamente o serviço de impulsionamento, que só será encerrado após uma declaração final de inaptidão do plano.
Outro pleito das plataformas atendido pelo TSE foi a autorização para a recusa ao envio de determinadas informações.
- Excepcionalmente, a empresa poderá indicar quais dados restritos não serão fornecidos às autoridades.
- A escolha deverá ser justificada e poderá envolver razões de negócio, como a proteção de segredo comercial, a proibição estabelecida pelas regras de outro país ou a inviabilidade técnica de apresentar a informação em “linguagem natural ou documental”.
5. Sob nova direção

O ministro Luís Felipe Salomão toma posse hoje (19) como presidente do STJ tendo como principais missões implementar o filtro de relevância, lidar com investigações envolvendo ministros e indicar as listas tríplices para as vagas em aberto, Flávia Maia escreve no JOTA PRO Poder.
- Salomão tem dito a interlocutores que pretende reforçar a coesão e a união entre os ministros.
Por que importa: Caberá ao ministro colocar em prática o novo critério para a admissão de recursos especiais.
- O filtro de relevância foi aprovado pelo Congresso, e a lei foi sancionada por Lula neste mês, alterando o Código de Processo Civil (CPC) para incorporar as novas regras.
- A intenção é transformar o STJ em uma Corte de precedentes.
- O mecanismo deve funcionar de forma similar à repercussão geral no Supremo: assim, para que um recurso chegue ao tribunal, será necessária a comprovação da relevância social, econômica ou jurídica.
- Haverá, portanto, uma mudança na sistemática de análise dos recursos, com maior ênfase na importância do caso em análise.
- Uma das consequências esperadas é a diminuição em 50% do volume de processos no tribunal, e o desafio será encontrar o equilíbrio para evitar que o novo mecanismo feche as portas para quem precise da Justiça.
6. Acidentes com entregadores

Entre 2023 e julho de 2026, o Brasil registrou um salto de 34,92% no número de ocorrências de acidentes de trabalho envolvendo entregadores de aplicativo, Mirielle Carvalho registra no JOTA.
O total de casos no período foi de 34.211.
- Os dados são do Ministério da Saúde e foram enviados ao Ministério Público do Trabalho em razão da expansão do ecossistema de entregas via plataformas no país, a pedido do órgão.
🏍️ Panorama: A ocupação dos motociclistas passou a figurar entre as dez categorias mais notificadas por acidente de trabalho no Sinan (Sistema de Informação de Agravos de Notificação).
- A amostra do departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador, vinculado ao Ministério da Saúde, aponta que o número de 2025 atingiu o pico da série, concentrando 11.579 notificações.
- Apesar de as estatísticas apontarem uma média de 10 mil casos por ano, o Ministério da Saúde alertou que os números podem ser subnotificados.