Os pedidos de recuperação judicial no agronegócio cresceram 56,4% em 2025, segundo dados da Serasa Experian. Em muitos casos, a resposta à crise continua concentrada em recuperações judiciais pautadas essencialmente em descontos de passivo (haircut) e alongamento de dívidas.
Embora necessárias, essas medidas raramente enfrentam as causas do problema. Na maioria dos casos, a recuperação sustentável exigirá uma abordagem mais ampla, combinando reorganização financeira, operacional e comercial e, quando necessário, atração de capital novo.
O primeiro pilar consiste na reorganização das finanças da atividade. Em uma primeira camada, a reengenharia financeira busca dar visibilidade à real situação econômica do negócio por meio de: segregação do caixa pessoal e da atividade; segregação das diferentes linhas de negócio, permitindo avaliar individualmente seus resultados; estruturação de controles financeiros capazes de capturar todos os custos, despesas, investimentos, tributos e desembolsos da operação; e incorporação da dívida reestruturada ao fluxo de caixa projetado, permitindo verificar a efetiva capacidade de pagamento após a renegociação.
Em uma segunda camada, a reengenharia financeira incorpora instrumentos mais sofisticados de planejamento e gestão de riscos, incluindo: construção de fluxos de caixa sensíveis a variáveis como preço das commodities, câmbio, clima e custo de insumos; e revisão da estrutura patrimonial, societária e tributária, buscando a forma mais eficiente de organização dos ativos e da atividade.
O segundo pilar passa pela reorganização operacional e comercial da atividade. Em muitos casos, a recuperação do negócio exige uma reavaliação da exploração dos ativos, que podem estar subutilizados, direcionados a atividades de menor retorno ou operando abaixo de seu potencial, impedindo a plena captura do valor econômico que poderiam gerar.
Em muitos casos, a solução pode estar na construção de parcerias estratégicas, sob a forma de parcerias rurais, comerciais, societárias ou joint ventures. Em comum, essas estruturas combinam ativos e competências complementares: o produtor aporta terra e demais ativos, enquanto o parceiro contribui com tecnologia, gestão, capacidade operacional, estrutura comercial ou acesso a mercados.
Esse modelo pode ser particularmente interessante para tradings e agroindústrias, ao ampliar originação, garantir abastecimento futuro de matéria-prima, desenvolver fornecedores e aumentar a eficiência na exploração dos ativos. O resultado é a criação de valor para todos os participantes e condições mais favoráveis para uma recuperação sustentável.
O terceiro pilar consiste na atração de capital novo. Para captar recursos, não basta demonstrar necessidade de capital; é preciso construir uma tese de investimento capaz de justificar o aporte, definir sua destinação e demonstrar seu potencial de retorno.
É nesse contexto que surgem oportunidades para investidores e provedores de capital. A reorganização financeira traz previsibilidade e capacidade de planejamento, enquanto a reorganização operacional amplia o potencial de geração de caixa da atividade. Em conjunto, elas permitem apresentar ao mercado uma tese de investimento apoiada em informações confiáveis, ativos relevantes e um modelo de negócio mais eficiente, reforçada pela presença de parceiros estratégicos, como tradings e agroindústrias.
Para o investidor, a combinação desses elementos pode representar uma oportunidade relevante. Além das perspectivas positivas de longo prazo do agronegócio, a operação frequentemente está apoiada em ativos reais, capacidade produtiva instalada e garantias mais robustas. Nesses casos, o capital novo deixa de atender apenas necessidades imediatas e passa a financiar a expansão e a geração de valor do negócio.
Descontos de passivo e alongamentos de dívida podem ser necessários para aliviar a pressão de caixa, mas raramente são suficientes para promover uma recuperação sustentável. Na maioria das vezes, tratam apenas os sintomas da crise. A recuperação exige uma revisão mais profunda do negócio, capaz de enfrentar suas causas financeiras, operacionais e estruturais.