Ao ler nos jornais que a inflação geral não chegou a 4%, mas a inflação médica
passou de 16%, o cidadão tem todo o direito de ficar confuso e até de achar
que existe algo errado no cálculo que embasa o reajuste do seu plano de
saúde. Não se trata de erro nem de mistério que não possa ser desvendado.
Pelo contrário, o debate é legítimo e necessário, uma vez que impacta famílias,
empresas, operadoras de saúde e o próprio setor público.
Em todo o mundo, calcula-se esse índice com base em critérios comuns. Além
da própria inflação do país, que incide sobre honorários médicos,
medicamentos e diárias hospitalares, entram nessa conta dados específicos,
como o grau de utilização dos serviços, que aumenta com o envelhecimento da
população, a ampliação de coberturas, a adoção de novas tecnologias, a
dependência de insumos e medicamentos importados, a aprovação de
fármacos de alto custo e, especialmente no Brasil, a judicialização e as
fraudes.
De todo modo, a inflação médica, cujo nome técnico é Variação de Custos
Médico-Hospitalares (VCMH), é uma realidade mundial, amplamente estudada
e mensurada por consultorias, instituições e agentes de mercado em diferentes
regiões do mundo. No Brasil, o indicador mais conhecido é a variação de
custos médico-hospitalares (VCMH).
Estudos conduzidos por renomadas
consultorias globais, como a Aon, a Mercer e a WTW, mostram que a
tendência de custos médicos permanece em patamares elevados em
diferentes regiões, não sendo um fenômeno brasileiro. Nas projeções da AON
para 2026, por exemplo, o Brasil aparece com 9,7%, ante o México com 14,8%;
Singapura, 13%; e muito próximo aos Estados Unidos com 9,5%.
Isso decorre de um conjunto de fatores estruturais. O envelhecimento
populacional, o aumento da prevalência de doenças crônicas, a incorporação
contínua de novas tecnologias e terapias e as mudanças no padrão de
utilização dos serviços de saúde impactam o setor de modo particular. No caso
da tecnologia, há uma particularidade relevante: na saúde, a inovação, ao
contrário do que ocorre em outros setores da economia, não reduz despesas. A
incorporação frequentemente aumenta o custo total do sistema, uma vez que tratamentos mais modernos, e nem sempre mais eficazes, são também mais
caros.
Essa dinâmica se constitui em um desafio para o setor. A elevação persistente
dos custos assistenciais pressiona a sinistralidade, reduz a previsibilidade e
exige esforços contínuos de eficiência por parte das operadoras e dos demais
agentes do sistema. Esse cenário também não é positivo para as operadoras,
que enfrentam pressão crescente sobre custos, previsibilidade e
sustentabilidade do modelo.
Por isso, o setor investe em diversas frentes para conter esse movimento, entre
as quais gestões cada vez mais eficientes, aprimoramento de processos
assistenciais, programas de prevenção e coordenação do cuidado e novos
modelos de organização da rede de atendimento – até o recente crescimento
do modelo de verticalização é um indício de que as operadoras de planos de
saúde estão trabalhando para reduzir a inflação médica.
Essas iniciativas contribuem para ganhos de eficiência e, em alguns casos, para a
desaceleração de indicadores de custo. Ainda assim, trata-se de medidas que
atuam sobre um fenômeno estrutural, que exige respostas contínuas e
coordenadas.
Esse esforço também beneficia diretamente os usuários, ao estimular modelos
assistenciais mais resolutivos, reduzir desperdícios e favorecer uma utilização
mais adequada dos recursos disponíveis. Quanto maior a eficiência do sistema,
maiores tendem a ser as condições para preservar acesso, qualidade do
atendimento e reajustes mais equilibrados ao longo do tempo.
Também é importante destacar que sustentabilidade e qualidade assistencial
não são objetivos opostos. Quando o sistema opera com mais previsibilidade,
melhor gestão e foco em cuidado adequado, cria-se um ambiente mais
favorável para investimentos, inovação e ampliação do acesso da população
aos serviços de saúde suplementar.
Nesse cenário, o debate sobre inflação médica deve avançar rumo à ampliação
da transparência, à qualificação das métricas e à consolidação do uso de
dados. Ao mesmo tempo, é fundamental reconhecer a natureza multifatorial
desse processo e seus impactos sobre todo o sistema de saúde.
Reconhecer essa dinâmica é um passo essencial para construir soluções mais
sustentáveis para o sistema de saúde a bem do setor e dos seus 53 milhões de
beneficiários.