Garcia Pereira Advogados Associados

A divulgação do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 2024 trouxe uma notícia relevante para o Brasil. Pela primeira vez, o país alcançou a faixa de “muito alto desenvolvimento humano”. Mesmo admitindo que há muito ainda a avançar e que o IDH mede apenas dimensões mais básicas, é um feito digno de reconhecimento. Várias políticas contribuíram para esse movimento e uma das mais importantes foi o Bolsa Família.

Coordenei a equipe que idealizou e desenhou o programa no primeiro governo Lula. Desde a origem, ele nunca foi pensado como uma política isolada, mas como parte de um arranjo institucional mais amplo, que articula assistência social, educação e saúde. Sua eficácia depende, portanto, da capacidade do Estado de operar de forma coordenada – um desafio permanente em um país desigual e descentralizado como o Brasil.

Conheça o JOTA PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transparência e previsibilidade para empresas

Várias críticas apareceram no debate público no início. Ele geraria dependência, alimentaria um efeito preguiça, incentivaria a natalidade, ficaria refém de práticas eleitorais e clientelistas… O fato é que, desde então, poucas políticas públicas foram tão avaliadas quanto o Bolsa Família, e o saldo das evidências acumuladas é amplamente favorável.

Ao longo de mais de duas décadas, o programa demonstrou resiliência e capacidade de adaptação. Consolidou-se como uma das políticas públicas mais relevantes do país, tanto pela escala quanto pela consistência de seus resultados. Quando mobilizamos o vasto e diversificado repertório de avaliação, constatamos que sua efetividade é evidente, especialmente em três dimensões bastante sensíveis ao termômetro do IDH: redução da pobreza, ampliação do acesso à escola e aos serviços básicos de saúde desde a infância.

É importante lembrar que, desde sua criação, o programa foi concebido com uma dupla finalidade: aliviar a pobreza imediata e criar condições para romper sua reprodução entre gerações. As condicionalidades em educação e saúde não foram desenhadas como mecanismos punitivos, mas como instrumentos de garantia de direitos e de ampliação de oportunidades.

Além dessas finalidades, o Bolsa Família, sobretudo a partir da estruturação técnica e rigorosa do Cadastro Único, pretendia também servir de plataforma para a integração de políticas sociais voltadas à mobilidade social das pessoas mais vulneráveis.

Vejamos o caso da educação, dimensão que mais explica o avanço do Brasil no IDH. Ao reduzir a insegurança econômica das famílias e estimular a permanência das crianças na escola, o programa contribuiu para elevar a frequência escolar, reduzir a evasão e ampliar os anos médios de estudo das populações mais pobres. São resultados que não aparecem de forma instantânea. Seus efeitos acumulam-se ao longo do tempo.

Essa é uma característica fundamental das políticas de desenvolvimento humano: seus impactos mais relevantes costumam surgir anos depois de sua implementação. Crianças que permanecem mais tempo na escola hoje (graças ao Bolsa Família e outras políticas) tornam-se jovens mais qualificados amanhã, ampliando suas possibilidades de inserção produtiva, renda e participação social.

Mais do que uma hipótese, esta é uma evidência constatada por diversos estudos. Um deles foi divulgado em 2023 pelo IMDS (Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social), de autoria de Valdemar Neto e Vinícius Schuabb. A pesquisa acompanhou, entre 2005 e 2019, brasileiros beneficiados na infância ou adolescência pelo Bolsa Família, e constatou que, quando já adultos (entre 21 e 30 anos), apenas 20% permaneciam no programa, e 64% já estavam fora do Cadastro Único, instrumento que mapeia as famílias prioritárias no acesso à política social.

Em linha com esses resultados, a eventual crítica de “acomodação” de seus beneficiários ignora não apenas a evidência empírica, mas a própria lógica de funcionamento do programa. O verdadeiro risco não está na suposta dependência, mas na perda de qualidade na implementação. Diversas evidências indicam que majoritariamente o Bolsa Família não cria permanência, cria transição. Não produz dependência, produz oportunidade.

O avanço recente do IDH brasileiro, portanto, sugere que parte dos investimentos realizados desde o início dos anos 2000 começa a produzir efeitos mais visíveis sobre a trajetória do país. Trata-se de um resultado que transcende governos e ciclos políticos. É fruto da continuidade de políticas públicas que apostaram na combinação entre proteção social e desenvolvimento de capacidades.

Isso não significa ignorar os desafios e limitações. Nossa desigualdade segue brutal, e nenhum programa de transferência condicionada de renda, por mais meritório que seja, é capaz de sozinho enfrentar esse problema. Reconhecer o impacto positivo do Bolsa Família tampouco significa negar que aprimoramentos sejam necessários.

Auditoria recente do Tribunal de Contas da União, por exemplo, identificou fragilidades importantes no acompanhamento das condicionalidades. Milhões de beneficiários deixaram de ter registros atualizados de frequência escolar ou acompanhamento de saúde. Monitorar e corrigir de forma célere os problemas identificados é dimensão essencial de qualquer política pública. Por isso, o alerta do TCU não deve ser interpretado como evidência de fracasso. Ao contrário. Ele reforça a necessidade de fortalecer os mecanismos que permitem ao programa cumprir plenamente sua missão.

O desafio atual não é substituir o Bolsa Família, mas aprimorá-lo. Isso exige fortalecer o Cadastro Único, investir em capacidades municipais, aperfeiçoar sistemas de monitoramento e aprofundar a integração entre assistência social, educação e saúde.

A experiência internacional mostra que sociedades que conseguiram reduzir desigualdades de forma sustentável combinaram crescimento econômico com políticas robustas de proteção e promoção social. O Brasil ainda está distante desse objetivo, mas o avanço do IDH indica que alguns caminhos produziram resultados consistentes.

Assine gratuitamente a newsletter Últimas Notícias do JOTA e receba as principais notícias jurídicas e políticas do dia no seu email

O novo IDH brasileiro não é apenas um indicador estatístico de sinalização das condições sociais. Ele também é uma oportunidade para reconhecer que políticas públicas bem desenhadas, bem implementadas, sustentadas ao longo do tempo e orientadas pela redução das desigualdades podem produzir transformações duradouras.

Essa talvez seja uma das lições mais importantes que o Bolsa Família continua a oferecer ao país.