Passados dois meses do início do ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irã, o secretário executivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC, na sigla em inglês), Simon Stiell, afirmou que a crise dos preços de energia mantém “o pé no pescoço da economia global”. Ele também alertou para o risco de estagflação e disse que os efeitos sociais e econômicos destes movimentos se alastram como uma pandemia.
A menos de dois meses da SB64, em Bonn, na Alemanha, a última grande conferência do clima da ONU antes da COP31 em novembro, Stiell afirmou que os governos não podem se prender aos fósseis no longo prazo para enfrentar a crise atual. Mas devem aproveitar o momentum para quebrar a ligação entre os preços da eletricidade e os combustíveis fósseis para que as energias renováveis de baixo custo reduzam as faturas. E defendeu que se intensifique a cooperação internacional para transformar os compromissos globais em resultados na economia real – mais rapidamente.
Diante deste cenário de crise, segundo ele, ficou impossível ignorar lógica econômica das energias renováveis, que “não podem ser mantidas cativas por estreitos canais de navegação, ou conflitos globais”.
Na abertura do primeiro de uma série de Diálogos de Alto Nível sobre a Transição Energética, organizados pela presidência da COP31 e a AIE a caminho de Antalya, Stiell pediu foco mais imediato ao que chamou de áreas de maior urgência e impacto: redes e armazenamento para que se chega ao próximo nível da transição para a energia limpa, e a redução do metano de modo a produzir benefícios climáticos rápidos e ao mesmo tempo economizando dinheiro.
Mas reiterou a necessidade de se superarem grandes barreiras a novos investimentos em energia limpa, incluindo a falta de financiamento e as crises de dívida, para os países em desenvolvimento que querem abraçar a energia limpa e a resiliência climática. Também falou em liberar o poder da Agenda de Ação para o norte e sul global de forma equitativa e na importância de se concluírem a Nova Meta Coletiva Quantificada para o financiamento climático na íntegra e o Road Map para US$ 1,3 trilhão.
Brasil não é citado entre “grandes ricos em renováveis”
Em seu discurso, Stiell também citou os esforços de governos mundo afora para implementar planos de energias renováveis como instrumento de restauração da segurança nacional, da estabilidade econômica, da competitividade, da autonomia política e da soberania fundamental.
O curioso é que, ao referir-se aos países “ricos em energias renováveis” que teriam sido protegidos de alguns dos piores impactos desta crise do custo de combustíveis fósseis, falou de Espanha e Paquistão, sem mencionar o Brasil. Também citou França, que duplicou o financiamento para a eletrificação, China, Índia, Indonésia, Coreia do Sul, Alemanha, Reino Unido e outros países que estariam sendo “claros quanto ao fato de o avanço da transição para as energias renováveis ser um pilar da segurança energética”.
Na avaliação de alguns especialistas ouvidos pelo JOTA, isso demonstra que o foco de Stiell está possivelmente muito mais voltado para a eletrificação do que para outros tipos de energias sustentáveis, como os biocombustíveis, que está no topo da pauta da agenda energética brasileira.
Questionado sobre a ausência do Brasil nas menções de Stiell, o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, disse entender que ele esteja se referindo a países com políticas recentes para renováveis.
“O Brasil é reconhecido há décadas como campeão de renováveis”, afirmou ao JOTA.
“No ano passado, o investimento em energia limpa estava previsto para ser o dobro do dos combustíveis fósseis. A geração solar aumentou 600 terawatts-hora em relação a 2024, um aumento colossal – embora a transição continue desigual”, disse.
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Segundo Stiell, a grande ironia desta crise está no fato de que “aqueles que lutaram para manter o mundo viciado em combustíveis fósseis estão, inadvertidamente, a impulsionar o boom global das energias renováveis”.
Para o secretário Executivo do UNFCCC, deve-se ainda manter foco total na segurança alimentar, protegendo as colheitas dos choques climáticos, à medida que a guerra leva à escassez de fertilizantes, ameaçando 45 milhões de pessoas com fome aguda este ano.