A solidão da mulher negra é tema amplamente tratado no campo da psicologia, na medida em que as disparidades raciais alcançam também a relação travada entre esta e suas relações individuais no campo afetivo e social.
Com efeito, o imaginário coletivo que desde a época do movimento escravista categoriza a mulher preta como sujeito hiper sexualizado, forte e com inclinação para o trabalho de cuidado, fomenta o isolamento destas mulheres, já que as coloca em posição de objeto de consumo e não de sujeito de direitos.
Não à toa, Grada Kilomba, problematizando o outro de Simone de Beauvoir, definiu a mulher negra como o outro do outro na sociedade supremacista branca, em uma posição de maior vulnerabilidade e menor reciprocidade. Para a autora, “nesse esquema, a mulher negra só pode ser o outro, e nunca si mesma. […] Mulheres brancas tem um oscilante status, enquanto si mesmas e enquanto o ‘outro’ do homem branco, pois são brancas, mas não homens; homens negros exercem a função de oponentes dos homens brancos, por serem possíveis competidores na conquista das mulheres brancas, pois são homens, mas não brancos; mulheres negras, entretanto, não são nem brancas, nem homens, e exercem a função de o ‘outro’ do outro”.[1]
No mundo do trabalho, por sua vez, a carne mais barata do mercado permanece sendo a carne negra, já que é inegável o hiato entre a maneira pela qual negros e negras se inserem e ocupam o ambiente laboral.
De acordo com o Boletim Especial 20 de Novembro – Dia da Consciência Negra de lavra do DIEESE, os maiores atingidos pelo desemprego no momento do isolamento decorrente da pandemia da Covid-19 foram negros e negras. Destes, já sabidamente inseridos em ocupações de baixa qualificação e rendimento, 60% voltaram ao mercado de trabalho. Por sua vez, quando o recorte é de gênero, tem-se que a cada 100 mulheres, enquanto 13 brancas estão à procura de trabalho, no caso das negras esse número sobe para 20. [2]
Na interseccionalidade entre raça e gênero, o que se percebe é o maior isolamento de mulheres negras no ambiente produtivo, seja pela dificuldade de sua inserção no mercado formal, seja por sua pouca representatividade em cargos de gestão e maior qualificação – daí a solidão.
Nesse sentido, pesquisa do IBGE acerca de Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil revela que seja na ocupação formal, seja na ocupação informal, pessoas pretas e pardas são remuneradas com valores inferiores àqueles pagos a pessoas brancas. Por sua vez, o privilégio do homem branco em detrimento da mulher negra fica evidenciado diante do dado de que estas recebem em média 44% menos que homens não racializados.[3] São elas o outro do outro.
Enquanto mulheres pretas são forçadas a se resignar com o fato de ocuparem apenas 0,4% de cargos de gestão[4], o problema parece ser ainda mais grave, já que indivíduos negros têm sua humanidade ignorada por aqueles que sempre se viram em posição de privilégio. A solidão, mecanismo de opressão do racismo, é técnica de enfraquecimento de existência, no mundo social e no mundo do trabalho, porquanto excludente.
O que se percebe é que o topo tem cor, gênero e preço vil e que a branquitude privilegiada não parece ter interesse em pigmentá-lo. E que não se diga que a afirmação é exagerada. Não são poucos os Moïse Mugenyi Kabagambe, cuja carne, barata, é ceifada por pouco. No caso do congolês, pela bagatela de R$ 200, equivalente a duas diárias de trabalho não pagas.
[1] Grada Kilomba, Plantation Memories: Episodes of Everyday Racism. p.124.
[2] https://www.dieese.org.br/boletimespecial/2021/conscienciaNegra.html
[3] https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101681_informativo.pdf