Garcia Pereira Advogados Associados

Segundo colocado nas pesquisas num cenário cristalizado de polarização, Flávio Bolsonaro (PL) se vê diante de uma nova crise na sua pré-campanha à Presidência, deflagrada por causa do tarifaço que os Estados Unidos devem impor ao Brasil. 

O senador esteve nos Estados Unidos, onde participou na terça-feira (7/7) de uma audiência pública no USTR (Escritório do Representante de Comércio dos EUA). Em sua fala, ele disse que aquele seria “o pior momento” para determinar tarifas aos produtos brasileiros e que isso beneficiaria Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Conheça o JOTA PRO Eleições, cobertura eleitoral especial do JOTA que oferece transparência e previsibilidade para empresas

A atuação do senador foi alvo de críticas de outros candidatos na direita, que até então vinham focando artilharia no petista. Ronaldo Caiado (PSD) disse que Flávio conspirou contra a economia do país. Romeu Zema (Novo), por sua vez, disse que negociar é atribuição do governo, não de candidato.

Dos Estados Unidos, Flávio passou recibo: “Era audiência pública, as pessoas podiam se inscrever. Cadê os outros candidatos a presidente, por que não tão aqui defendendo os interesses dos brasileiros? Mais fácil ficar criticando a atuação do Flávio Bolsonaro, muito mais cômodo”.

O problema do senador é que a crítica não vem só de fora. Mesmo aliados defendiam que ele não se envolvesse no tema tarifaço – principal calcanhar de aquiles do bolsonarismo. A avaliação é de que ele deveria manter distância, porque a taxação está precificada. Agora, adversários poderão atribuí-la a ele.

Uma ala do entorno do senador tem se queixado da influência que Michelle Bolsonaro, em vídeo, classificou esse grupo como a “turma dos Estados Unidos”. Há uma avaliação de que Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo estão atrapalhando a campanha de Flávio. Esses aliados citam como exemplo a aproximação do senador ao tarifaço (Trump anunciou possibilidade de novas tarifas no mesmo dia em que publicou foto com os três no Salão Oval); e a artilharia de Eduardo e Paulo contra Michelle, fomentando a briga pública.

Assine gratuitamente a newsletter Últimas Notícias do JOTA e receba as principais notícias jurídicas e políticas do dia no seu email

O empresário Paulo Figueiredo chegou a dizer que as mulheres votam mal em meio a uma crítica à ex-primeira-dama. A fala causou estrago instantâneo, e Flávio teve de desautorizá-lo publicamente. E um aliado do senador crítico ao empresário chegou a compará-lo a Carla Zambelli, ex-deputada federal que, em 2022, correu armada atrás de um homem nas ruas de São Paulo às vésperas da eleição. O bolsonarismo até hoje culpa a parlamentar pela derrota de Bolsonaro. 

Um aliado defendeu que Flávio não vá mais para os Estados Unidos e foque sua campanha no Brasil, até porque é do eleitorado de centro que ele precisa – e também diminuir rejeição entre as mulheres, não aumentar. 

Paulo, por sua vez, diz que há “campanha coordenada de difamação” contra ele. Também afirma que não participa da pré-campanha e tem liberdade para dizer o que pensa enquanto comunicador. Ele também se queixa da equipe de comunicação que está trabalhando com o senador – recém trocada, diga-se de passagem, depois da crise do Dark Horse. Para ele, deveriam ter feito maior alarde da ida de Flávio aos Estados Unidos.

Por trás da crise há uma disputa por poder e influência na nova ordem do bolsonarismo. Sem Jair Bolsonaro, diferentes alas buscam dar novo tom ao futuro do grupo político: uma ala quer moderação, outra se manter radicalmente ideológica. O ex-presidente também amargava crises internas e fogo-amigo, mas conseguia se impor e estancar a sangria. Flávio, até o momento, ainda não mostrou se vai –ou se mesmo pretende– escolher um desses caminhos.