No momento em que esse artigo é escrito, a Rússia promove uma investida político-militar contra o território, o povo, a cultura e a soberania da Ucrânia, país que compartilha largas fronteiras terrestres com o outrora parceiro dos tempos da extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), agora invasor. Tal investida representa a maior agressão militar em solo europeu desde o final da Segunda Guerra Mundial, em meados dos anos de 1940.
Os argumentos apresentados como fundamento da investida são muitos, porém a motivação principal reside na tentativa russa de impedir, à força, a integração ucraniana à União Europeia, ao modo de vida ocidental e à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), aliança militar que congrega países alinhados à pax americana, agora efetivamente colocada em xeque perante os movimentos ousados – porém não inesperados – do presidente da Rússia, conhecido, dentre outras características, por seu desgosto com o fim da URSS e pelo desejo de devolver à Rússia o protagonismo no tabuleiro geopolítico mundial.
Afora a dimensão das tragédias humana, social e diplomática que a investida russa sobre a Ucrânia representa, os desdobramentos do conflito geram incertezas em diversas frentes relacionadas ao agronegócio nacional, com destaque para as questões econômicas, jurídicas, comerciais e geopolíticas associadas ao tema, as quais, cada uma a seu modo e em diferentes graus de intensidade, geram um elevado componente de incerteza e insegurança no setor, com impactos diretos sobre os custos de produção, os desafios logísticos e o planejamento da próxima safra.
Rússia e Ucrânia são importantes produtores e exportadores de trigo e milho, commodities largamente utilizadas, dentre outras destinações, como ração animal na Europa. Eventual quebra na produção e comercialização desses cereais pode gerar uma reação em cadeia que resulte não apenas em desabastecimento como, também, elevação da demanda por alternativas de alimentação dos rebanhos, com impactos, por exemplo, para a soja, em que o Brasil é o maior produtor mundial e o primeiro no ranking de exportação do grão, e para o milho, sendo o Brasil um dos poucos países, para não dizer o único, com condições de atender minimamente uma demanda mundial elevada em função da quebra da cadeia na Ucrânia e na Rússia.
Relativamente ao trigo e ao milho, potenciais dificuldades na plantação e colheita da safra de verão europeia e no escoamento da produção pelos corredores de exportação ucranianos, assim como os embargos de natureza econômica e demais sanções que venham a ser aplicadas à Rússia, podem gerar, especialmente a partir do segundo semestre de 2022, um problema de fornecimento desses importantes cereais a nível mundial.
É importante destacar que a região leste da Ucrânia, onde estão localizadas as regiões separatistas autodeclaradas Repúblicas Populares de Donetsk e Luhansk, conflagradas desde 2014, abrange terras agriculturáveis de alto potencial produtivo que compreendem parcela relevante da produção ucraniana de cereais. Em um ambiente de constante tensionamento e muitas incertezas quanto ao futuro, é relevante considerar que a produção agrícola na região deve sofrer com uma combinação de menor produção com elevados custos logísticos e dificuldades de escoamento da colheita, com reflexos diretos nos preços do trigo, do milho e da soja, que já apresentam elevação de 10% a 20% desde janeiro, na Bolsa de Chicago.
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No que cabe em relação aos insumos básicos de produção, é notório que Rússia, Ucrânia e Bielorrússia, país este que outrora compôs a URSS e hoje é um aliado de primeira hora dos russos, são importantes fornecedores de fertilizantes em todo o mundo, especialmente o Cloreto de Potássio, sendo o Brasil um relevante comprador. Em um cenário de alta demanda por commodities no mundo, com uma nova configuração da cesta de consumo nos países desenvolvidos, conclui-se que o aumento da produtividade, que passa pela aplicação de fertilizantes e defensivos em larga escala, é uma necessidade para atendimento do apetite mundial por alimentos.
Com as dificuldades já naturalmente impostas pelo conflito político-militar e em razão dos embargos econômicos em curso, é grande o temor de que haja quebra na oferta de macronutrientes fundamentais para a produção agrícola no Brasil, assim como a disparada dos preços em moeda forte, razão pela qual os custos da safra 2022/2023, que se inicia em meados do presente ano, devem sofrer relevantes oscilações para cima se não forem tomadas medidas efetivas de mitigação de riscos cambiais, comerciais e logísticos.
É importante destacar que já há sinais claros de dificuldades no fornecimento e aquisição, por produtores brasileiros, de insumos de produção. Fornecedores bielorrussos de macronutrientes têm notificado adquirentes no Brasil acerca da dificuldade para embarque de insumos, dadas as condições que inviabilizam o escoamento das mercadorias em função dos embargos promovidos pelos países do Ocidente. Alegando “força maior”, alguns contratos de fornecimento foram suspensos ou encerrados, gerando insegurança, inclusive jurídica, para os compradores no Brasil.
A cláusula de “força maior”, comum em contratos comerciais, pode ser acionada pelas partes em situações de imprevisibilidade e inevitabilidade de um evento, no geral de natureza climática, política ou social, como um conflito armado ou um embargo econômico, eximindo de responsabilidade a parte que for impossibilitada de cumprir o acordado. Nesse contexto, as implicações geopolíticas decorrentes da instabilidade social na Bielorrússia e do conflito militar promovido pela Rússia na Ucrânia devem afetar parcela dos contratos de comercialização de fertilizantes para o Brasil.
Dada a relevância da participação dos fornecedores em questão e as dificuldades que a suspensão e/ou o cancelamento dos embarques devem causar, é possível a ocorrência de uma “tempestade perfeita” na cadeia de fertilizantes, especialmente no segundo semestre de 2022, com encarecimento das mercadorias, diminuição da oferta e potenciais litígios arbitrais ou em cortes internacionais entre fornecedores estrangeiros e compradores no Brasil.
A esse cenário conturbado, somam-se os riscos decorrentes da disputa eleitoral informalmente já em curso e que tomará corpo oficialmente a partir de meados de 2022, com visões antagônicas e polêmicas sobre variados temas, dentre os quais aqueles de interesse do agronegócio nacional. Em um cenário eleitoral e social de polarização, é de se esperar que solavancos ocorram no câmbio, nos juros, na precificação de ativos e nos títulos do Tesouro, de forma que, reitera-se, as proteções contra variações abruptas de preço, inflação e potenciais descasamentos de câmbio entre despesas e receitas de produção são fundamentais para a saúde financeira do produtor rural.
No mais, não se pode esquecer dos riscos climáticos inerentes à atividade agropecuária, não apenas no Brasil – com seca no Sul e chuva recorde em parte do Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste – como, também, nos vizinhos Paraguai e Argentina e no hemisfério norte, que resultaram em quebra de safra, oscilação de preços de commodities e encarecimento dos custos de produção. Afinal, a atividade agropecuária é um escritório a céu aberto.
Como se percebe, o agronegócio é um segmento da economia com alto teor de imprevisibilidade e cujos riscos inerentes à atividade são sistêmicos. Conflitos militares, disputas geopolíticas, intempéries climáticas, alterações legislativas ou jurisprudenciais e instabilidades políticas domésticas ou em importantes regiões produtoras geram efeitos nos preços e na dinâmica de toda uma cadeia em um mundo altamente globalizado. Assim, a aplicação de instrumentos de mitigação de riscos associados a um acompanhamento constante da conjuntura política, econômica e jurídica podem ser a diferença entre o lucro e o prejuízo na atividade agropecuária.