Garcia Pereira Advogados Associados

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, suspendeu nesta segunda-feira (8/6) a pesquisa feita pelo Instituto AtlasIntel em que trazia um bloco de perguntas relacionando o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato do PL à presidência da República, ao escândalo do Banco Master e a Daniel Vorcaro.

O questionário foi feito dias depois de o site The Intercept Brasil publicar áudio de uma conversa do senador com o ex-banqueiro do Master em que o pré-candidato cobrou uma verba de R$ 134 milhões para a produção de um filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

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Divulgada em maio, a pesquisa apontou queda de cinco pontos nas intenções de voto do pré-candidato do PL no primeiro turno das eleições de 2026.

Para justificar a decisão, Nunes Marques diz que existem elementos mínimos que evidenciam “possível comprometimento da neutralidade metodológica do questionário”.

Em sua avaliação inicial, a sequência de perguntas aparenta “extrapolar a simples aferição neutra da opinião pública para introduzir estímulos narrativos possivelmente aptos a influenciar as respostas subsequentes relativas à intenção de voto, à rejeição e à avaliação de imagem do pré-candidato mencionado na representação”.

O ministro cita ainda uma entrevista do CEO do Instituto AtlasIntel, Andrei Roman, à CNN Brasil em 19 de maio de 2026, em que, segundo o magistrado, o executivo reconheceu viés político do conteúdo submetido aos entrevistados e externou “juízo valorativo” acerca do potencial de desgaste eleitoral do pré-candidato.

“A controvérsia suscitada nos autos não se limita, portanto, à mera discordância quanto às escolhas metodológicas da representada, mas envolve alegação objetiva de possível utilização do questionário como mecanismo de indução do entrevistado, especialmente em razão da ordem sequencial das perguntas e do emprego de expressões de carga valorativa negativa”, escreveu o ministro.

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O ministro estabeleceu o prazo de dois dias para que o instituto apresente documentação técnica complementar diretamente relacionada aos pontos controvertidos, especialmente em relação ao áudio de Flávio e Vorcaro, e aos registros técnicos de aplicação do questionário.

A decisão será submetida ao colegiado do TSE.

A ação

O PL acionou o TSE contra a pesquisa do Instituto AtlasIntel que apontou uma queda de 5 pontos nas intenções de voto do candidato no primeiro turno das eleições de 2026.

Entre os pedidos à Justiça Eleitoral estão a suspensão da divulgação da pesquisa, informações sobre os métodos, multa à empresa e a proibição da divulgação do bloco de perguntas que relaciona Flávio Bolsonaro ao Banco Master e a Daniel Vorcaro.

A representação questiona a metodologia adotada no levantamento e sustenta que o questionário teria sido estruturado de forma a induzir a percepção negativa sobre Flávio Bolsonaro. Na petição apresentada no TSE, os advogados argumentam que das 48 perguntas, oito tratam, “em claro induzimento”, do suposto envolvimento de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro e o Banco Master.

O que diz a AtlasIntel

Em nota, o Instituto AtlasIntel afirmou que respeitará a decisão do TSE, mas que a “a situação será devidamente esclarecida a partir da análise técnica dos fatos e da metodologia empregada e confiamos no colegiado do TSE para afirmar a robustez técnica e a legalidade do estudo”.

O instituto também ressaltou que a pesquisa foi realizada sem que o áudio objeto da controvérsia fosse reproduzido aos respondentes durante a aplicação do questionário. “O questionário principal foi integralmente concluído e submetido antes de qualquer contato do participante com o conteúdo audiovisual. Não houve qualquer tipo de indução aos entrevistados. Todo o desenho metodológico do questionário, bem como a dinâmica de aplicação do teste de áudio, foi conduzido com o rigor técnico e científico que caracteriza o trabalho da AtlasIntel, sempre orientado pelos princípios de imparcialidade, transparência, integridade metodológica e qualidade estatística dos dados produzidos”.

“Após o encerramento definitivo do questionário — sem qualquer possibilidade de retornar às perguntas anteriores ou alterar respostas já registradas — os participantes eram redirecionados para uma página completamente separada do questionário, onde eram convidados a registrar suas reações enquanto ouviam o áudio por meio da ferramenta Atlas VRC. O teste de áudio, por sua vez, tem finalidade analítica distinta: medir, segundo a segundo, a reação de uma amostra representativa da população a conteúdos audiovisuais, com segmentação demográfica”, acrescentou a nota.

O Instituto destacou ainda que outras pesquisas de opinião realizadas posteriormente por diferentes institutos identificaram o mesmo padrão de impacto do episódio sobre as intenções de voto Flávio Bolsonaro, em alguns casos apontando efeitos de magnitude ainda superior à observada pela AtlasIntel.

Dessa forma, o CEO da AtlasIntel, Andrei Roman, esclarece que não reconhece qualquer viés político na elaboração ou aplicação deste estudo, assim como de qualquer outra pesquisa conduzida pela empresa. “A AtlasIntel pauta seu trabalho pela imparcialidade, rigor científico e precisão. Foi essa combinação que permitiu à AtlasIntel ganhar um destaque global e ser a empresa mais precisa em 102 eleições em todo o mundo nos últimos 7 anos, incluindo o 1º turno da recente eleição presidencial da Colômbia, na qual a AtlasIntel foi o único instituto a indicar a vitória do candidato oposicionista de direita Abelardo de la Espriella”, afirma.