Em uma chamada de uma hora e vinte minutos com o homólogo americano, Donald Trump, o presidente Lula (PT) discutiu a relação bilateral com os EUA, com ênfase no novo tarifaço imposto ao Brasil desde o início de agosto e na pauta sobre segurança e combate ao crime organizado. A ligação acontece em um dos piores momentos da relação de lado a lado, às vésperas da eleição presidencial brasileira, quando uma das maiores preocupações do Executivo está justamente no risco de interferência americana no pleito.
Na conversa, Lula reiterou a importância de trabalhar juntos para que os Estados Unidos continuem sendo um dos principais parceiros comerciais do Brasil e, segundo a nota divulgada pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom), o americano “concordou com a necessidade de preservar vínculos comerciais fortes e propôs que equipes dos dois países voltassem a se reunir o mais brevemente possível”.
Durante o telefonema, Lula voltou a defender que as alegações do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) por trás do novo tarifaço são infundadas e que os percentuais aplicados às exportações brasileiras afetam negativamente ambas as economias.
Lula ainda aproveitou para reiterar o interesse brasileiro na cooperação com os Estados Unidos no combate ao crime organizado, argumentando que grupos criminosos exercem terror cotidiano sobre as populações mais carentes, mas não se confundem com organizações terroristas. E destacou que o Brasil tem instrumentos para enfrentar essas organizações sem precisar de classificação especial para designá-las.
Nos últimos dias, Washington sinalizou com operações militares em conjunto com coalizão regional de governos de direita na América Latina contra o narcotráfico, o que acendeu a luz amarela no país diante do temor de ingerência em países de fora da aliança, como Brasil e México. A ofensiva, que levaria para terra a estratégia de ataques a embarcações suspeitas de transportar drogas iniciada há cerca de um ano, seria contra grupos acusados de narcotráfico e classificados por Washington como terroristas.
O presidente brasileiro ainda detalhou a estratégia do país de asfixiar financeiramente a criminalidade, que já resultou na apreensão de cerca de R$ 17 bilhões, segundo dados oficiais, e sobre os planos de transformar 138 presídios em prisões de segurança máxima.
Também comentou sobre a aprovação da Lei Antifacção, que facilita a apreensão de bens e passaportes, bem como sobre a proposta de emenda constitucional que amplia o papel do governo federal na área de segurança pública em colaboração com os estados da federação.
Lula falou ainda no estabelecimento do Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia, em Manaus, que reúne oficiais de todos os países amazônicos. O presidente Trump se dispôs a reforçar a cooperação bilateral e indicou que mobilizaria funcionários de alto escalão para dar seguimento aos entendimentos nessa área.
Ainda trataram no telefonema sobre os principais conflitos globais, em especial as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio. Ambos concordaram sobre a urgência de encontrar uma solução negociada para o conflito entre Rússia e Ucrânia, que já se estende por quase cinco anos.
De acordo com a nota da Secom, Trump ainda “teceu considerações sobre as perspectivas de resolução do conflito com o Irã”, lamentou a inoperância do Conselho de Segurança da ONU e, a exemplo do que sugerira aos presidentes Xi Jinping e Putin, propôs a convocação de uma reunião extraordinária do órgão para encontrar saídas diplomáticas para as crises atuais.
A Secom diz que a ligação transcorreu em tom amistoso. No entanto, a relação bilateral em si não parece seguir o mesmo caminho.
Ao terminar a chamada, Lula disse, ainda segundo a nota, que os grandes líderes não são aqueles que iniciam guerras, mas aqueles que põem fim aos conflitos.
A interação entre os dois, que já tinha sido mencionada por Lula a aliados como possibilidade, segue a estratégia do presidente de manter aberto o canal que ainda tem à disposição, uma vez que os contatos no segundo escalão esfriaram recentemente.
No Palácio do Planalto, a avaliação é a de que a relação se desdobra melhor no mais alto nível, de cima para baixo, quando a ala mais radical de Washington, liderada pelo secretário de Estado, Marco Rubio, segundo fontes, tem prevalecido.