Garcia Pereira Advogados Associados

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A possibilidade de um novo tarifaço dos Estados Unidos contra o Brasil — desta vez com maior respaldo legal — deu impulso à disputa eleitoral entre Lula e Flávio Bolsonaro em torno da pauta de política externa.

O presidente voltou a manejar o discurso da soberania nacional, agora mais atrelado ao Pix, que se tornou unanimidade popular e protagonizou um dos piores momentos do governo, em meio à ofensiva capitaneada por Nikolas Ferreira contra normas da Receita.

Se há menos de um mês — em 10 de maio, dias antes da revelação da relação com Daniel Vorcaro — Flávio usou uma camiseta com os dizeres “o Pix é do Bolsonaro”, ontem (2) Lula respondeu com um cartaz: “O Pix é do Brasil”.

Em um vídeo divulgado por sua assessoria, Flávio Bolsonaro disse que “essa tarifa é do Lula, pelo seu discurso agressivo contra os Estados Unidos”.

A fala se concatena à do secretário de Estado americano, Marco Rubio, que ontem (2) elencou o Brasil entre países da região que segundo ele não são simpáticos aos Estados Unidos, ao lado de Cuba, Nicarágua e Venezuela.

Rubio também citou a Colômbia, que está no meio da campanha presidencial — Trump anunciou ontem (2) apoio ao candidato da extrema direita, Abelardo de la Espriella.

Os desdobramentos reforçaram entre integrantes do governo a convicção de que Trump deseja interferir na eleição brasileira, ainda que haja interesses comerciais imiscuídos, como os minerais críticos e a regulação das big techs.

Mesmo que esse não seja o objetivo dos Estados Unidos, a campanha brasileira já está sendo pautada pelos temas da relação entre os países e disputa com o escândalo do Master a primazia do assunto que será mais usado pelos candidatos.

A JOTA Principal volta na segunda-feira (8).

Boa leitura e bom feriado.


O PONTO CENTRAL

1. ‘Vendilhões da pátria’

A proposta de tarifas de 25% sobre os produtos brasileiros foi recebida pelo governo Lula como um presente eleitoral, Fabio MuraKawa e Marianna Holanda escrevem no JOTA PRO Poder.

  • Além de implicações econômicas, o novo desdobramento recoloca na campanha o tema da defesa da soberania nacional, que pesquisas do PT indicam ser decisivo.

🔭 Panorama: A pré-campanha de Flávio Bolsonaro lamentou o timing do anúncio, que ocorreu dias após o governo americano classificar CV e PCC como organizações terroristas, o que havia sido encarado como uma vitória.

  • Antes que o senador ensaiasse uma reação, a militância petista inundava as redes com a denominação “TARIFLÁVIO”.
  • A estratégia de Lula, por sua vez, foi associar o rival político a uma postura de submissão aos Estados Unidos e contrária aos interesses brasileiros.

No fim da manhã, Lula fez um duro discurso relacionando a medida ao clã Bolsonaro durante evento em Catalão (GO).

  • O presidente classificou Eduardo e Flávio como “vendilhões da pátria” e “traidores”.
  • E ainda chamou Flávio de “imbecil”, que foi “pedir arrego” para Trump taxar Lula, mas acabou “prejudicando o povo brasileiro”.

À noite, em outro evento em Goiás, Lula acusou Flávio de ir para os Estados Unidos pedir para Trump intervir no Pix.

  • Outras autoridades, como o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro Dario Durigan, também se pronunciaram mesclando restrições à postura de Washington a críticas à atuação dos Bolsonaro.
  • E o governo brasileiro, mais uma vez, mencionou a família em uma nota oficial, algo que não é comum, acusando-os de “tentativa de ingerência em temas internos” do Brasil.

A “cereja no bolo” para Lula veio com a publicação de Trump nas redes de uma foto do encontro com Flávio Bolsonaro.

  • A postagem, no dia do anúncio de um possível novo tarifaço, foi vista como uma feliz coincidência pelo Planalto.

🔮 O que observar: A ação do governo americano atenua em boa parte os danos causados a Lula com a classificação de CV e PCC como organizações terroristas ao facilitar a tarefa do presidente de associá-la ao tarifaço.

  • Pesquisas internas já demonstravam que o tema da soberania continuava com potencial para ser explorado de maneira positiva para Lula durante a campanha.
  • O “tarifaço 2.0” provocou uma inversão de papéis: se na semana passada Lula se viu na posição de explicar por que é contra a nova designação dada aos grupos criminosos brasileiros, agora é Flávio quem está na defensiva.

UMA MENSAGEM DE OpenAI

Governança e o futuro tecnológico

Crédito: Getty Images

A implementação bem-sucedida do Projeto de Lei 2.338/2023, que regula a IA, exigirá um diagnóstico de complementaridade com as leis vigentes, dialogando diretamente com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e o arcabouço do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). O debate jurídico atual, contudo, ainda carece de maior aprofundamento técnico no que diz respeito à computação em nuvem e a modelos de base.

Para orquestrar esse cenário e evitar sobreposições que gerem insegurança, a proposta estrutura um modelo coordenado que:

  • cria o Sistema Nacional de Regulação e Governança de IA;
  • eleva a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) ao posto de autoridade central;
  • articula a atuação das diferentes agências reguladoras setoriais.

2. Fã ou hater?

Foto postada por Trump em que recebe Eduardo Bolsonaro, Flávio e Paulo Figueiredo no Salão Oval / Crédito: Reprodução/Truth Social

Com sinais contraditórios, Trump fez afagos ao clã Bolsonaro ao mesmo tempo em que demonstrou encantamento com Lula.
Ao final, prevalece a máxima do America First, Vivian Oswald e Daniel Marcelino escrevem no JOTA.

  • É a reafirmação de que a política externa terá peso inédito nesta eleição.

Por que importa: Por mais que os canais de diálogo se mantenham abertos, o que não era o caso no ano passado, e que os presidentes tenham uma relação cordial, o clima da relação azedou.

  • Mais do que isso, está claro que há uma disputa de grupos de interesse dentro da administração Trump.
  • A ala mais radical, liderada pelo secretário de Estado, Marco Rubio, conseguiu impor-se nas últimas semanas.
  • A maior preocupação continua sendo com a pressão eleitoral insidiosa, ou escancarada, via big techs, a partir das plataformas.

Para Flávio Bolsonaro, o encontro com Trump produziu forte repercussão política e midiática, mas ainda não se converteu em ganho líquido de opinião pública.

  • Levantamento divulgado ontem (2) pela Real Time Big Data, empresa de pesquisas ligada à Record e ao Republicanos, sugere que o episódio não produziu um saldo político claramente favorável para nenhum dos lados.
  • Segundo a pesquisa, 42% dos entrevistados classificam o encontro como neutro, enquanto avaliações positivas e negativas sobre o encontro aparecem empatadas em 29%.
  • A pesquisa não perguntou diretamente sobre as tarifas nem sobre a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas — o que foi medido foi a percepção dos eleitores sobre o encontro entre Flávio e Trump.
  • O equilíbrio entre avaliações favoráveis e desfavoráveis sugere que, ao mesmo tempo em que o episódio encontra respaldo entre simpatizantes do campo bolsonarista, desperta resistência semelhante em outros segmentos do eleitorado
  • Até aqui, portanto, a aproximação com Trump parece ter produzido mais visibilidade do que ganho eleitoral para o senador.

3. E ainda mais essa

Daniel Perez, indicado como embaixador dos EUA no Brasil por Trump / Crédito: Reprodução/Facebook Daniel Perez

Escolhido por Trump como novo embaixador no Brasil, o deputado estadual da Flórida Daniel Perez enterrou um projeto de regulação de inteligência artificial promovido pelo governador Ron DeSantis, Edoardo Ghirotto e Karol Bandeira informam no JOTA PRO Tecnologia.

  • Perez é descendente de cubanos e nos últimos anos presidiu a Câmara estadual.
  • DeSantis era uma das esperanças para o futuro do Partido Republicano até ser batido por Trump nas primárias.
  • Hoje distante da cúpula do partido, o governador passou meses promovendo uma proposta de regulação estadual que criaria direitos e proteções para o uso da IA, especialmente para crianças.

Por que importa: Embora a investigação da Seção 301 não mencione projetos de lei, como os PLs 2.338/23 (IA) e o 4.675/25 (mercados digitais), o reforço das posições americanas poderá ser um novo ingrediente para a tramitação dos textos antes do recesso.

  • Perez chegará para liderar a equipe de uma Embaixada que já atuou para frear outras regulações num passado recente, como o JOTA revelou em dezembro passado.
  • Seria surpreendente um personagem com entendimento tão alinhado a Trump (e a Rubio) sobre a regulação da IA não se envolver no tema após desembarcar no Brasil.
  • Sobretudo diante do ceticismo do Planalto com relação ao cumprimento do cronograma para o PL 2.338/23 — o relatório prometido para o dia 9 ainda não chegou ao conhecimento de nenhum ator envolvido na discussão.

⏩ Pela frente: A nomeação de Perez precisa ser aprovada pelo Senado dos Estados Unidos.

  • Em seguida, o governo terá de cumprir o rito para conceder as credenciais ao representante diplomático de Washington.
  • Não há um prazo fixado para a entrega do agrément.
  • E, por mais incomum que seja, o governo brasileiro pode decidir negá-lo a depender da escalada da crise com os Estados Unidos.

4. Pressões externas

O presidente do STF, Edson Fachin, com Margaret Satterthwaite, relatora especial da ONU para a Independência de Magistrados e Advogados / Crédito: Luiz Silveira/STF

O presidente do Supremo, ministro Edson Fachin, disse ontem (2) que sanções unilaterais exercem pressão sobre o Judiciário e têm como objetivo dilapidar a independência judicial, Lucas Mendes registra no JOTA.

  • A fala foi feita à relatora especial da ONU para a Independência de Magistrados e Advogados, Margaret Satterthwaite, e o STF divulgou o posicionamento após o encontro.
  • Fachin afirmou que iniciativas voltadas a constranger magistrados por atos praticados no exercício de suas funções são motivo de atenção redobrada por parte das instituições democráticas.
  • Conforme divulgado pelo STF, Fachin “foi claro ao dizer que os desafios atualmente enfrentados não devem ser subestimados”.

Fachin também informou, mais cedo, que aguarda uma comunicação oficial sobre a classificação pelos Estados Unidos de facções como organizações terroristas.

  • Uma vez comunicado, o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) poderá tomar providências em processos sobre o tema, segundo o ministro.
  • Segundo Fachin, o CNJ deve apresentar no começo de agosto uma proposta de atuação do judiciário em casos relacionados ao crime organizado.

Aliás… A previsão é que o Supremo comece e termine na próxima semana o julgamento dos recursos sobre a tese fixada na análise do Marco Civil da Internet.

  • O caso está pautado para dia 10 de junho.
  • Estão na pauta do plenário nove recursos apresentados por big techs, associações e entidades sobre a tese fixada pela Corte no julgamento do Marco Civil da Internet.
  • Empresas como Meta e X pediram, entre outros pontos, prazo de 6 meses para implementar as novas obrigações.

5. Pra frente, Brasil!

Torcedor levanta taça da Copa do Mundo durante o amistoso do Brasil contra o Panamá / Crédito: Wagner Meier/Getty Images

O desempenho da seleção na Copa pode favorecer ou atrapalhar os candidatos à Presidência?

  • A resposta dependerá, acima de tudo, do desempenho do Brasil em campo, Beto Bombig escreve em sua coluna no JOTA, em que rememora o histórico do uso político de Copas do Mundo.
  • Uma eliminação humilhante, em tese, deverá favorecer a oposição, pois aumentará o mau humor geral, o que jamais ajudou os incumbentes.
  • No entanto, os bolsonaristas tentaram se apropriar de tal maneira da camisa da seleção e de seu universo nacionalista que Flávio também tende a sair prejudicado nessa hipótese de fracasso retumbante.

E em caso de uma vitória, da conquista do hexa?

  • Obviamente, todo mundo tentará tirar uma lasquinha da taça, especialmente a direita ufanista e verde-amarela, incluindo Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos.
  • Do outro lado, Lula também deverá embarcar no nacionalismo e empacotar o triunfo como mais uma afirmação da soberania brasileira — conquistada justamente na terra de Trump.
  • Se for campeã, não há definição se a seleção poderá ser recebida em Brasília pelo presidente (por conta das regras eleitorais) nem se haverá essa intenção por parte da CBF ou dos jogadores.
  • Caso isso aconteça, criará uma imagem poderosa eleitoralmente.
  • De qualquer forma, um triunfo em uma Copa sempre ajuda a desanuviar o ambiente e a abrir a percepção do eleitor para eventuais avanços e conquistas do governo, a famosa “boa vontade” que gera esperança.

⏩ Pela frente: O Brasil estreia daqui a 10 dias, no sábado (13), contra o Marrocos.


6. Carimbo seco

Alcolumbre em sessão do Senado ontem (2/6) / Crédito: Carlos Moura/Agência Senado

Davi Alcolumbre disse ontem (2) que o Senado não será mero “carimbador”, ao criticar pressões para acelerar a PEC pelo fim da escala 6×1, Maria Eduarda Portela escreve no JOTA.
Por que importa: O presidente da Casa defendeu que a proposta deve passar por, no mínimo, uma comissão e evitou assumir compromisso de votar o tema antes das eleições, contrariando as expectativas do governo.

  • “Não é razoável que a Câmara dos Deputados passe cinco meses debatendo um assunto muito relevante para o Brasil, para o povo brasileiro, para a nação e também para os trabalhadores e para os empreendedores, e o Senado Federal seja obrigado a carimbar um texto aprovado na Câmara”, defendeu Alcolumbre.

Alcolumbre ainda não despachou a matéria.

  • A expectativa é de que o tema seja discutido primeiro na Comissão de Constituição e Justiça e depois siga para o plenário.
  • A manifestação demonstra que não há pressa na Casa para discutir o tema.
  • Essa posição é mais um sintoma do desgaste da relação entre o Planalto e o Senado, agravado desde a rejeição de Jorge Messias para o STF.

7. À espera do Supremo

O ex-governador Cláudio Castro / Crédito: Rafael Campos/Governo do Rio de Janeiro

O Tribunal Superior Eleitoral manteve a condenação ao ex-governador Cláudio Castro, declarado inelegível até 2030, por unanimidade em sessão nesta terça (2), Lucas Mendes relata no JOTA.

  • Por 5 a 2, a Corte rejeitou recurso do Ministério Público Eleitoral que pedia o reconhecimento da cassação do diploma.
  • A decisão do TSE mantém a situação de Castro tal como havia sido determinada no julgamento, em março.

Por que importa: A decisão final sobre o que vai acontecer na sucessão de Castro deve ser do Supremo Tribunal Federal.

  • A Corte foi acionada em duas ações sobre o assunto, e o julgamento começou em abril, mas foi paralisado por pedido de vista de Flávio Dino e não há data para a análise ser retomada.