Garcia Pereira Advogados Associados

  • Post publicado:

A sensação de que o debate da Band, no último domingo, mais atrapalhou os candidatos do que ajudou surtiu efeito nesta sexta-feira (23/10). No último confronto antes da eleição no domingo, o presidente Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) ajustaram o tom e fizeram um programa mais propositivo do que o de cinco dias atrás.

Lula demonstrou maior preparo e vigor, ao tentar explorar pontos negativos para aumentar a rejeição do seu adversário. Sua cobrança pela fala de Flávio sobre “nove dedos” foi um dos pontos altos do debate para o petista.

Flávio Bolsonaro (PL), por sua vez, conseguiu, na maior parte do tempo, evitar o tom debochado do último domingo e buscou representar o petista como ultrapassado e ele, como o futuro.

Até mesmo na apresentação os presidenciáveis estiveram diferentes. Lula, que no último domingo usou sua gravata da sorte verde e amarela, desta vez abriu mão do acessório. Já Flávio, que quer se apresentar como um candidato mais sério, surgiu de gravata na TV Globo nesta sexta.

Aliados entenderam que o tom irônico do senador no último domingo deveria dar espaço a um discurso mais propositivo. Flávio conseguiu falar sobre suas propostas, como a redução da maioridade penal, fez aceno às mulheres e prometeu concluir rodovias e estradas – emulando o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que ajudou a prepará-lo para o debate. Além disso, soube se posicionar no palco, acertou as câmeras e o tempo. Algo que o petista teve dificuldade de manejar.

Assine gratuitamente a newsletter Últimas Notícias do JOTA e receba as principais notícias jurídicas e políticas do dia no seu email

Flávio, em dois momentos, retomou o tom do último domingo – o que pode ser um sinal de que o deboche talvez não fosse proposto por Pablo Marçal, mas seja do próprio candidato. Ele ironizou a dicção do presidente e o fato de ele ter nove dedos. Neste último momento, foi levado a se desculpar a Lula, “caso tenha ofendido”, num dos momentos altos do presidente.

“Eu não vou levar para casa. Ele me chamou de nove dedos. Se tem alguém que perdeu o dedo com 17 anos, fui eu, trabalhando de noite que eu não podia trabalhar. Não vou permitir que o miliciano me chame de nove dedos”, disse o petista, arrematando críticas ao currículo do seu adversário.

Inscreva-se no canal de notícias do JOTA no WhatsApp e fique por dentro das principais discussões do país!

Lula, por sua vez, foi ao programa disposto a explorar as vulnerabilidades de Flávio Bolsonaro e ampliar sua rejeição, que já supera a do petista em pesquisas recentes. Mais afiado do que no confronto da Band, Lula aproveitou melhor as oportunidades de pressionar o adversário e conseguiu, em várias passagens, conduzir a discussão para os temas que desejava. Também procurou alimentar o receio de cortes em programas sociais com o chamado “tesouraço” de Flávio.

O senador teve de se comprometer no debate em pagar reajuste acima da inflação para o salário mínimo, além de manter o Pé-de-Meia e outros programas do governo petista. Ele repetiu que não fará ajuste “às custas dos pais pobres”, tornando a promessa de corte de gastos cada vez menos ambiciosa. O “tesouraço” é na burocracia e na corrupção, disse em determinado momento do debate.

Um dos pontos altos para o petista ocorreu no início do segundo bloco, quando Lula cobrou explicações sobre o voto de Flávio contra a ampliação da licença-maternidade e lembrou que ele havia chamado o Bolsa Família de “Bolsa Farelo”. O senador também reconheceu que errou no voto sobre a licença-maternidade e afirmou que hoje teria outra posição, procurando acenar ao eleitorado feminino.

No terceiro bloco, Lula conseguiu deslocar a discussão sobre segurança pública para a trajetória do adversário. Recuperou a atuação de Flávio na defesa do policial acusado de matar a menina Ana Clara, de cinco anos, cuja mãe, Cristiane Gomes da Silva, acompanhava o debate na plateia, e voltou a levantar suspeitas sobre as relações do senador com integrantes de milícias. Flávio procurou defender sua atuação como advogado e retomar as críticas à política de segurança do governo. Lula tentou associá-lo à imagem de “miliciano”, numa ofensiva destinada a desgastá-lo justamente em um tema explorado pela direita contra o PT. A presença da mulher na plateia parece ter desestabilizado o candidato, que chegou a se confundir e chamar a mãe de Ana Clara.

Flávio contra-atacou na economia. Insistiu nos juros, no endividamento das famílias e nos preços dos alimentos, recorrendo a exemplos concretos, como a redução do tamanho das embalagens. Lula contrapôs as realizações de seus governos, os programas de renegociação de dívidas e a valorização do salário mínimo. O presidente também explorou a ameaça de cortes em benefícios sociais, enquanto Flávio prometeu preservar o Pé-de-Meia, reajustar o mínimo acima da inflação e investir no SUS. O senador ainda recuou das críticas à proposta petista de transporte público gratuito nos fins de semana, declarando-se favorável à medida.

O debate, que começou em tom cordial e transcorreu de maneira relativamente civilizada durante os três primeiros blocos, terminou com uma troca de acusações sobre corrupção, patrimônio e relações com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Foi o momento mais parecido com o confronto da Band, embora sem a mesma hostilidade.

Os dois praticamente abandonaram a discussão de propostas num último bloco “espanta-indeciso”, que pouco esclareceu sobre o que pretendem fazer à frente do país. Nas considerações finais, Lula ainda abriu espaço para um direito de resposta ao chamar novamente Flávio de miliciano. O senador encerrou o programa prometendo recuperar o poder de compra dos brasileiros e convidando o eleitor a rezar um pai-nosso.