Garcia Pereira Advogados Associados

Nas últimas décadas, muitos analistas anunciaram repetidamente o suposto declínio dos Estados Unidos. A ascensão da China, o fortalecimento de novas potências regionais e a crescente multipolaridade do sistema internacional pareciam apontar para uma inevitável perda de relevância americana. Entretanto, a realidade é mais complexa.

Os Estados Unidos continuam sendo a principal potência militar, tecnológica, financeira e científica do planeta. O que está em transformação não é propriamente seu poder, mas sua capacidade de liderar consensos globais e organizar a ordem internacional que ajudaram a construir após a Segunda Guerra Mundial.

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A liderança internacional sempre dependeu de dois elementos complementares: força e legitimidade. Durante décadas, Washington não apenas possuía os instrumentos econômicos e militares mais poderosos do mundo, mas também exercia influência por meio de instituições multilaterais, acordos internacionais, organismos financeiros e alianças políticas que garantiam previsibilidade às relações globais.

O cenário contemporâneo revela uma mudança importante. A competição estratégica entre grandes potências substitui gradualmente a lógica da cooperação internacional que predominou após o fim da Guerra Fria. A disputa tecnológica entre Estados Unidos e China, os conflitos regionais, as sanções econômicas, as guerras comerciais e o ressurgimento do nacionalismo econômico demonstram que o mundo entrou em uma nova fase histórica.

Nesse contexto, o crescimento da China é um dos fenômenos mais relevantes do século 21. Em poucas décadas, Pequim tornou-se a segunda maior economia do planeta, principal parceiro comercial de dezenas de países e protagonista em setores estratégicos como inteligência artificial, energia limpa, telecomunicações e infraestrutura. Contudo, o fortalecimento chinês não significa necessariamente o enfraquecimento absoluto dos Estados Unidos. O que observamos é uma redistribuição relativa de influência em um sistema internacional mais competitivo.

Os Estados Unidos continuam detendo enorme capacidade de inovação, liderança científica, projeção militar e influência financeira. O dólar permanece como a principal moeda de reserva internacional, Wall Street segue como o maior centro financeiro do mundo e as empresas americanas continuam liderando segmentos decisivos da economia digital. O desafio atual não é a perda de poder, mas a redução de sua capacidade de produzir consensos e coordenar a governança global.

Essa nova realidade afeta diretamente países como o Brasil, que possuem dimensões continentais, forte capacidade produtiva e vocação para atuar de forma pragmática nas relações internacionais. O interesse nacional brasileiro não está em escolher lados em uma disputa entre potências, mas em ampliar mercados, diversificar parceiros e fortalecer sua inserção global.

Os números do comércio exterior ajudam a compreender essa dinâmica.

A China consolidou-se como o principal parceiro comercial do Brasil. Nos últimos anos, o intercâmbio bilateral superou US$ 180 bilhões anuais, impulsionado principalmente pelas exportações de soja, minério de ferro, petróleo, carnes e celulose.

Os Estados Unidos permanecem como um dos parceiros mais estratégicos do Brasil, com corrente de comércio superior a US$ 80 bilhões anuais. Diferentemente do intercâmbio com a China, a relação comercial com os norte-americanos apresenta maior intensidade tecnológica e maior participação de produtos industrializados, máquinas, equipamentos, aeronaves, produtos químicos e serviços.

A União Europeia continua sendo um dos principais investidores estrangeiros no país e um parceiro fundamental para a modernização econômica brasileira. Além de representar um mercado de elevado poder aquisitivo, o bloco europeu é fonte relevante de tecnologia, inovação e investimentos produtivos. O avanço do Acordo Mercosul-União Europeia reforça ainda mais essa perspectiva de integração econômica.

Diante desse cenário, políticas tarifárias excessivamente agressivas ou motivadas por disputas geopolíticas tendem a produzir efeitos contraproducentes. Tarifas elevadas encarecem produtos, aumentam custos para consumidores, reduzem a competitividade das empresas e criam incertezas para investidores.

A história econômica demonstra que o protecionismo raramente gera prosperidade sustentável. Em muitos casos, protege determinados setores no curto prazo, mas reduz a eficiência econômica, desestimula a inovação e enfraquece a inserção internacional das economias.

A recente adoção de novas tarifas comerciais pelos Estados Unidos ilustra esse dilema. Ao buscar proteger segmentos específicos da indústria doméstica, corre-se o risco de provocar retaliações, aumentar pressões inflacionárias e comprometer cadeias produtivas globais que hoje funcionam de forma integrada. Em um mundo profundamente conectado, barreiras comerciais raramente afetam apenas seus destinatários, seus custos acabam distribuídos por toda a economia.

Para o Brasil, o caminho mais promissor continua sendo a ampliação de acordos comerciais, a atração de investimentos, o fortalecimento da competitividade industrial e a diversificação de mercados. Não há contradição em aprofundar relações com Estados Unidos, China, União Europeia, Índia, Oriente Médio e África. Ao contrário, essa multiplicidade de parcerias fortalece nossa autonomia estratégica.

É importante reconhecer que o Brasil vive um momento de crescente protagonismo internacional. Sob a liderança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o país voltou a ocupar posição de destaque nos grandes debates globais, participando ativamente das discussões sobre clima, segurança alimentar, transição energética, reforma da governança internacional e cooperação entre países em desenvolvimento.

O respeito conquistado pelo Brasil decorre não apenas de sua dimensão econômica e territorial, mas da credibilidade de sua diplomacia, da força de suas instituições e de sua capacidade histórica de dialogar com diferentes polos de poder.

A retomada da presença brasileira nos fóruns multilaterais ampliou oportunidades para o comércio, para os investimentos e para a construção de novas parcerias estratégicas. O Brasil voltou a ser percebido como um interlocutor confiável, capaz de construir pontes em um ambiente internacional cada vez mais fragmentado. Essa posição fortalece a capacidade nacional de atrair investimentos, abrir mercados e defender seus interesses de forma soberana.

Merece destaque, igualmente, a atuação do vice-presidente da República e ex-ministro Geraldo Alckmin na promoção da competitividade da indústria brasileira e na ampliação das exportações de bens e serviços de maior valor agregado.

Os resultados dessa estratégia já começam a aparecer. O Brasil registra recordes sucessivos de exportação, amplia sua participação em setores de maior intensidade tecnológica e fortalece cadeias produtivas capazes de gerar empregos qualificados e renda. A atuação coordenada entre governo, setor produtivo, Itamaraty, MDIC e ApexBrasil tem contribuído para diversificar mercados e consolidar a imagem do país como fornecedor confiável de produtos, serviços e soluções inovadoras.

A geopolítica contemporânea não é um jogo de soma zero. O crescimento de uma nação não exige necessariamente o declínio de outra. O verdadeiro desafio consiste em construir mecanismos de convivência entre diferentes centros de poder em um mundo cada vez mais interdependente.

O século 21 provavelmente não será definido pelo desaparecimento da liderança americana nem pela substituição integral de uma potência por outra. Será marcado pela coexistência competitiva entre grandes atores globais, pela disputa tecnológica, pela transição energética e pela busca de novas formas de governança internacional.

Nesse ambiente, o Brasil possui uma oportunidade singular. Somos uma democracia consolidada, uma potência ambiental, energética e agroindustrial, além de uma economia capaz de dialogar com diferentes blocos e correntes políticas. Poucos países reúnem simultaneamente os ativos econômicos, ambientais e diplomáticos que o Brasil possui.

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Mais do que escolher entre Washington, Pequim ou Bruxelas, o desafio brasileiro consiste em fortalecer sua própria capacidade de influência, ampliar sua presença internacional e transformar sua relevância econômica em protagonismo diplomático.

Em um mundo de competição crescente, a inteligência estratégica vale mais do que o alinhamento automático. A liderança do presidente Lula, o fortalecimento da política industrial brasileira, a ampliação das exportações de maior valor agregado e a capacidade nacional de dialogar com diferentes parceiros demonstram que o país está preparado para exercer um papel cada vez mais relevante na construção da nova ordem global. E, apesar das tensões e disputas que caracterizam este momento histórico, a cooperação continua sendo o caminho mais seguro para a prosperidade compartilhada.