A definição de quem responde por eventuais falhas da inteligência artificial é uma das questões regulatórias que acompanham o avanço da tecnologia na assistência à saúde. Para Gustavo Meirelles, vice-presidente médico e de Relações Institucionais da Afya, a responsabilidade pelas decisões é um dos motivos pelos quais o médico deve continuar no centro do atendimento, mesmo com a ampliação do uso de sistemas de IA.
“Por mais que alguma empresa fale ‘eu não preciso do médico, eu faço tudo com inteligência artificial’, tem uma questão chave que é regulatória. Quem vai assumir o que a gente chama em inglês de liability, ou seja, a responsabilidade por aquilo? Vai ser o dono da máquina na hora que ela falhar? Não, então tem o médico por trás e precisa ter”, afirmou a jornalistas no Afya Summit, evento anual realizado pela empresa que teve como tema, em 2026, a tecnologia e a humanização da medicina.
A avaliação do VP da Afya foi feita ao comentar sobre as One-Minute Clinics, modelos de cabines de atendimento que combinam telemedicina e dispositivos capazes de coletar informações dos pacientes. As estruturas, que têm se popularizado na China, podem reunir equipamentos para aferir pressão arterial e frequência cardíaca, câmeras inteligentes e uma tela para realização de teleconsulta. Meirelles afirma que já há empresas atuando com esse modelo no Brasil e prevê maior incorporação da tecnologia nos próximos anos.
A Afya, segundo o executivo, já vem incorporando inteligência artificial tanto na formação de estudantes quanto em ferramentas destinadas aos profissionais. Um dos exemplos é o Whitebook, plataforma de apoio à decisão clínica que passou a contar com recursos de IA. A empresa reúne cursos de Medicina, pós-graduações em Saúde e soluções digitais para a prática médica .
No consultório, Meirelles afirma que a tecnologia já permite transcrever a conversa entre médico e paciente, estruturar as informações coletadas e auxiliar o profissional durante o atendimento. A tendência, segundo ele, é de uma integração crescente dessas ferramentas à rotina médica.
Meirelles avalia que a inteligência artificial também está alterando o comportamento dos pacientes. Com a popularização das ferramentas de IA generativa disponíveis ao público, médicos passaram a receber pessoas que pesquisaram previamente sintomas, diagnósticos e tratamentos.
Para o vice-presidente da Afya, o cenário exige que o profissional esteja disposto a avaliar junto ao paciente o conteúdo levado à consulta. “Às vezes, a melhor resposta vai ser chegar para o paciente e falar: ‘interessante esse dado que você está trazendo, eu não conhecia, vamos olhar juntos’”, disse.
Essa mudança também vem sendo incorporada à formação. Meirelles afirma que estudantes já treinam situações de comunicação com pacientes utilizando atores, manequins de simulação e avatares de inteligência artificial, inclusive para aprender a comunicar notícias difíceis.
Incorporação pelo SUS
Meirelles defende que o impacto sobre o SUS seja um dos critérios para avaliar o sucesso de uma inovação. Segundo ele, novas soluções não deveriam permanecer restritas aos grupos com maior capacidade de acesso. “Na saúde, especificamente, eu consigo olhar para uma nova solução, produto ou tecnologia como de sucesso, onde ela impacta o SUS”, afirma.
O executivo aponta o custo como uma das dificuldades para essa incorporação. Novos tratamentos podem alcançar valores de milhões de reais, o que pressiona a capacidade de financiamento do sistema público.
Uma das alternativas, segundo Meirelles, está em novos modelos de parceria entre poder público e empresas. Ele citou como exemplo um contrato para fornecimento de medicamento de alto custo ao SUS no qual o pagamento estava associado ao resultado obtido com o tratamento.
Na avaliação de Meirelles, mecanismos desse tipo devem se tornar mais frequentes e podem alcançar não apenas medicamentos, mas também soluções digitais.
“Mais e mais eu acho que isso vai acontecer. Com medicamentos, com novas soluções digitais”, disse. Para ele, “o SUS e a saúde pública brasileira” estão “cada vez mais abertos a essa incorporação de parcerias com a iniciativa privada”.
Risco de divisão digital
A incorporação das tecnologias ao sistema público também é apontada por Meirelles como uma forma de evitar o aprofundamento da desigualdade no acesso à saúde. Para ele, o avanço tecnológico pode criar uma “divisão digital” se as novas ferramentas ficarem concentradas entre pessoas que vivem em regiões com mais recursos e infraestrutura.
Para o executivo, o desafio passa, portanto, não apenas por desenvolver novas tecnologias, mas por criar condições regulatórias e econômicas para incorporá-las à assistência sem retirar do médico a responsabilidade pelas decisões e sem restringir seus benefícios a uma parcela dos pacientes.
“A gente tem que fazer com que novas tecnologias não apenas cheguem, mas cheguem para todos e sejam inclusivas”, afirmou.
As declarações foram dadas durante o Afya Summit 2026, realizado em 29 de agosto, no Auditório Ibirapuera, em São Paulo. Em sua terceira edição, o evento reuniu médicos, pesquisadores e representantes do setor de saúde para discutir os impactos de novas tecnologias na prática e na formação médica.
Com o tema “Da revolução tecnológica à revolução humana”, a programação abordou assuntos como inteligência artificial, interoperabilidade de dados, saúde digital, ética e humanização do atendimento, com a participação de nomes como Drauzio Varella, Daniel Kraft e Ana Cláudia Quintana Arantes.
* A reportagem viajou a convite da Afya