Em 24 de novembro de 2025, um mês antes de ser anunciado o sucessor de Jair Bolsonaro (PL) na disputa pela Presidência da República nas eleições 2026, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho zero um do ex-presidente, fez um discurso a aliados em que pediu que parassem de lavar roupa suja em público; demandou maior união do grupo político; disse que a escolha de candidatos nos estados iria acabar desagradando alguém, mas era necessário respeitar o comando do ex-presidente, transmitido por ele, e não trocar farpas em redes sociais.
A fala ocorreu na sequência da prisão preventiva de Bolsonaro, em uma reunião no PL com parlamentares, aliados e a família. Na época, a crise girava em torno da candidatura de Carlos Bolsonaro a senador por Santa Catarina. Oito meses depois, já alçado pré-candidato à Presidência da República, Flávio lança mão de uma carta de próprio punho do pai para pedir as mesmas coisas: respeito ao comando do líder e união – agora, em torno de si.
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A necessidade de o senador reforçar o mesmo discurso meses depois evidencia a dificuldade de incutir isso na própria base. O bolsonarismo tem muitas alas, mas Jair Bolsonaro conseguia exercer liderança. Flávio Bolsonaro – que será confirmado como candidato a presidente na convenção do PL neste sábado (25/7) – ainda não.
No mais recente episódio, ainda a ser testado pelas pesquisas, ele foi aos Estados Unidos pedir adiamento do novo tarifaço de Donald Trump contra o Brasil, fala que repercutiu mal entre os setores econômicos e reacendeu o discurso petista de soberania. Um presente para a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que se consolidou em primeiro lugar nas pesquisas de opinião, tanto no primeiro quanto no segundo turno.
O senador foi desaconselhado a entrar no que aliados classificaram como cilada, mas seguiu os conselhos do irmão Eduardo Bolsonaro, figura central na sua campanha.
Antes disso, em outro momento envolvendo a própria família, houve o rompimento com a madrasta, Michelle Bolsonaro, que não deve apoiar a candidatura do enteado. Ela fez vídeos dizendo ter sido humilhada por Flávio Bolsonaro e se queixando da coligação no Ceará com Ciro Gomes, algo que prejudicou (mas não de morte) a performance do senador do PL entre mulheres, fatia do eleitorado que já rejeita o sobrenome.
Em entrevista ao podcast Flow, no dia 15 de julho Flávio Bolsonaro afirmou não ter mais relação com Michelle e recorreu à mesma fórmula de cobrar lealdade ao pai: “É uma questão de bom senso e de fidelidade à escolha do nosso líder, que é o presidente Jair Bolsonaro. Eu nunca pressionei para entrar na campanha ou para não entrar, vem a hora que quer, vem se quiser também, porque assim, eu tô dando o meu melhor, eu sei qual caminho que eu tenho que seguir”. Na véspera da convenção, os dois estão em processo de reaproximação.
A esta crise soma-se à relação com o ex-banqueiro do Banco Master, Daniel Vorcaro, cuja extensão ainda é desconhecida, mas o pré-candidato garante estar restrita a um pedido de financiamento para o filme da biografia do pai, o Dark Horse.
Flávio Bolsonaro agora é formalmente investigado no STF por esta questão. Adversários esperam e apoiadores temem que surjam novas informações que possam comprometer a campanha.
Aposta na polarização
A despeito de todos esses contratempos, Flávio Bolsonaro segue posicionado em segundo lugar nas pesquisas, algo a que a campanha se agarra para buscar superar todas as crises, uma seguida da outra. Virou um mantra do entorno do senador repetir que, apesar da crise X, Y ou Z, ele segue resiliente atrás de Lula. Para eles, a polarização garantirá o caminho para Flávio chegar ao segundo turno.
Enquanto isso, ele tenta achar um espaço para se apresentar ao eleitorado, mas uma parte ainda sonha com Bolsonaro, enquanto outra não quer saber desse sobrenome. O centro é um voto difícil de conquistar e as sucessivas crises, que jogam Flávio de volta ao bolsonarismo, não parecem ajudar.
Uma semana antes da confirmação da candidatura de Flávio Bolsonaro na convenção nacional do PL, alas do bolsonarismo ainda buscavam um nome alternativo, temerosas de nova vitória de Lula. Mas aliados dizem ser impossível que Jair mude de ideia – e ninguém sairá à sua revelia.
A ideia inicial do ex-presidente era indicar quem seria o seu candidato só depois da condenação do STF, que ocorreria em setembro, mas a ação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos antecipou para julho a determinação, pelo Supremo, do uso da tornozeleira eletrônica no pai e, no mundo político, o debate sobre a sucessão.
Naquele momento, Flávio já havia sido escalado para ser o principal porta-voz do pai. Como a condenação do ex-presidente por liderar a trama golpista de 2022 já era dada como certa, a discussão era sobre o pedágio que um sucessor deveria pagar para obter o apoio – e os votos – de Bolsonaro.
Em entrevista à Folha, o senador deu a letra: disse que um candidato teria não apenas de conceder, mas de brigar pelo indulto ao pai, que certamente seria questionado e derrubado pelo Supremo Tribunal Federal, no seu entendimento. À época, chegou a mencionar “uso da força” para garantir isso, sem entrar em detalhes. Tentou consertar a fala, dizendo não ser o que pensavam. Afinal, ele não é o irmão que disse que bastava um “cabo e um soldado” para fechar a Corte.
Fato é que a família tinha clareza de que a eleição de um nome Bolsonaro garantiria não apenas a sobrevivência política do clã, como também a liberdade de seus integrantes e, sobretudo, do patriarca. E se o bolsonarismo já exige fidelidade canina como prova, esse era o principal momento de cobrar a fatura.
A indicação que a Faria Lima e lideranças do centrão queriam, a de Tarcísio de Freitas (Republicanos), não aconteceu, o que resultou em frustrações de lado a lado. O clã queria demonstrações de maior fidelidade, como a garantia de um indulto. Já o governador temia gestos mais enfáticos pela Presidência, porque sofreria – e sofreu – ataques das alas mais ideológicas, sobretudo dentro da família.
Eduardo Bolsonaro chegou a dizer que ele próprio seria candidato, só abrindo mão para Jair Bolsonaro – o recado que verdadeiramente queria passar era o de que só toleraria Flávio como candidato. Não é desprezível a engrenagem bolsonarista de trucidar ex-aliados ou quem queira declarar sua independência.
Em agosto, quando Bolsonaro já estava em prisão domiciliar, o bolsonarismo fez um ato esvaziado na Avenida Paulista, sem a presença de Tarcísio e dos demais governadores, e Flávio deu outro recado: “Achei um erro estratégico grande a ausência dos demais. No momento em que Bolsonaro mais precisa, estava em prisão domiciliar no domingo, é que sabemos quem está disposto a resgatar a nossa democracia junto com a gente”, disse na ocasião.
Os meses seguiram e Bolsonaro teve prisão preventiva decretada num sábado, 22 de novembro, pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF, após Flávio fazer um vídeo convocando para uma vigília em frente ao condomínio do pai em Brasília. A decisão do magistrado, na avaliação de aliados, era um sinal de que o senador, até então de fora de todos os inquéritos da Corte contra bolsonaristas, entraria na mira de Moraes. Mas isso não impediu Jair Bolsonaro.
Pouco mais de um mês depois, ele estaria no leito do hospital, minutos antes de uma nova cirurgia, quando escreveu carta de próprio punho anunciando o filho zero um como seu candidato à Presidência. Essa cena teria incomodado Michelle, listada como possível vice de Tarcísio numa chapa dos sonhos apenas de aliados, não de Jair.
Até então, a trajetória política de Flávio Bolsonaro incluía mandatos para a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro de 2002 até 2018, ano em que disputou o Senado. No governo do pai, atuava em conversas de bastidores, que incluíam indicações políticas e negociações com partidos.
Agora, ao buscar um eleitorado que não tem, precisa ampliar a exposição e se apresentar como uma versão modernizada do pai. O obstáculo é justamente ultrapassar o ex-presidente, quando mal consegue manter unido o bolsonarismo.