O Ministério da Saúde, em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), firmará um acordo com a farmacêutica MSD para o desenvolvimento e a futura produção de uma profilaxia oral de longa duração contra o HIV. O anúncio foi feito nesta segunda-feira (27/7) pelo ministro a Saúde, Alexandre Padilha, durante a 26ª Conferência Internacional de Aids (AIDS 2026). O evento é realizado na cidade do Rio de Janeiro, que sedia o congresso pela primeira vez na América do Sul.
A tecnologia ainda passa por estudos clínicos. Segundo Padilha, a participação do Brasil nos testes tem o objetivo de assegurar a posterior incorporação do produto no Sistema Único de Saúde (SUS). “A Fiocruz vai participar de estudos clínicos e com a perspectiva de no futuro podermos também colaborar com a produção e inclusão no Sistema Único de Saúde”, afirmou.
As novas tecnologias de profilaxia chegam em um cenário de queda nas infecções e mortes globais por HIV desde 2010. O avanço, contudo, esbarra em desafios orçamentários. O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom, classificou as inovações como um divisor de águas, mas fez um alerta sobre os recursos direcionados às políticas de saúde. “Há um sério desafio agora, um declínio significativo no financiamento que pode reverter os ganhos que alcançamos nas últimas décadas”, declarou.
O diretor da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), Jarbas Barbosa, ressaltou a necessidade de direcionar as ações aos grupos vulneráveis. “A tecnologia não salva vidas [sozinha]. Precisamos alcançar as pessoas com alto risco de infecção para que tenham um melhor acesso a isso”, afirmou.
Descontos silenciados e lenacapavir
O Brasil adotará o modelo de descontos silenciados em suas negociações, estratégia antecipada pelo JOTA e confirmada há uma semana com a criação do Comitê de Negociação de Preços. Durante a conversa com a imprensa, Padilha defendeu a adoção da medida. “Essa decisão é um preço silenciado pro mercado, mas transparente pros órgãos de controle”, afirmou o ministro. Para evitar pressões da indústria e facilitar compras conjuntas, Padilha destacou que a estratégia “permite entrar negociações junto com a OPAS para facilitar o acesso à região das Américas e com os nossos parceiros do Sul Global”.
Além da profilaxia oral, o Ministério da Saúde avalia a incorporação de duas profilaxias injetáveis de longa duração. O governo enviará na próxima semana uma proposta à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) para a adoção do cabotegravir. O medicamento é administrado a cada dois meses. A pasta afirma ter chegado a um teto de preço comercial considerado adequado com a fabricante.
Já o lenacapavir, profilaxia injetável com aplicação semestral, enfrenta barreiras comerciais. O governo brasileiro propôs pagar pelo produto até dez vezes o valor de 40 dólares, ofertado a países como Indonésia e Tailândia. O laboratório, segundo Padilha, recusou a oferta.
“Não aceitamos preços estratosféricos, querendo tratar o Brasil, que é um sistema nacional público de mais de 200 milhões de habitantes, onde o acesso à medicação é direito, da mesma forma como trata país que só tem sistema nacional privado”, criticou.