O governo brasileiro subiu o tom e convocou a representante da Embaixada dos EUA em Brasília para comunicar-lhe verbalmente sua decisão de aplicar a reciprocidade “diante da decisão sumária contra o agente da Polícia Federal brasileira naquele país”. Na linguagem diplomática, isso é grave. A retirada dos EUA do delegado da PF Marcelo Ivo de Carvalho, envolvido na prisão do ex-deputado Alexandre Ramagem (PL-RJ), funcionário de ligação da Polícia Federal brasileira junto ao Serviço de Imigração e Alfândega, abre um novo capítulo de tensão na relação bilateral.
Em texto divulgado em sua conta no X, o Ministério das Relações Exteriores afirmou que a medida adotada pelos americanos — comunicada verbalmente ao funcionário brasileiro, sem qualquer contato prévio com as autoridades, pedido de esclarecimentos ou tentativa de diálogo — não observou a “boa prática diplomática de diálogo entre nações amigas, como o Brasil e os Estados Unidos, ao longo de mais de 200 anos de relação”.
Os termos da aplicação da reciprocidade foram transmitidos verbalmente à representante da embaixada americana, como fez questão de ressaltar o Itamaraty, também pelas redes sociais, a exemplo do que havia feito o governo de Donald Trump. As funções do adido americano homólogo também seriam interrompidas de forma imediata.
Nos dois casos, trata-se de funcionários que trabalham no âmbito da cooperação bilateral entre Brasil e EUA na área de segurança. Ainda não se sabe em que medida os dois episódios poderão prejudicar, ou não, o acordo que está sendo costurado entre os dois países para o combate ao crime organizado. De todo modo, não parece um bom sinal.
Fontes ouvidas pelo JOTA disseram que as negociações sobre a relação bilateral correm em paralelo. Mas admitem que “não há bússola” para resolver as questões com os EUA, que são tratadas caso a caso. Há quem diga que a decisão americana teria sido tomada em nível intermediário da hierarquia em Washington, por uma ala mais ligada ao movimento MAGA. Essa é uma das razões pelas quais o governo brasileiro tinha pressa em promover um encontro entre Lula e Trump. Sabe-se que a dinâmica das decisões e o fluxo dos canais de relacionamento costumam mover-se de cima para baixo.
Não há data marcada para o “olho no olho”, que vinha sendo organizado desde novembro passado. A ideia era que acontecesse em março, mas, diante da crise no Oriente Médio, acabou ficando para depois. No entorno do presidente, afirma-se que há uma janela até julho, quando o Palácio entrará em modo eleitoral.
Mas, sem uma luz no fim do túnel no Oriente Médio, é difícil saber se e quando a reunião poderá sair. Na China, autoridades e especialistas já se perguntam, segundo periódicos locais, se a reunião marcada entre Trump e Xi Jinping, durante visita de Estado do americano a Pequim em 8 de maio, acontecerá de fato.
Mas o problema pode não ser apenas uma questão de agenda. O episódio da PF pode acabar azedando a relação, que vinha sendo conduzida com cordialidade.