Os primeiros 15 dias da campanha eleitoral no Brasil, iniciada no último dia 16/8, reafirmaram algumas verdades incômodas para os candidatos a presidente, seus grupos político-eleitorais-empresariais e seus eleitores mais fiéis. A primeira e mais importante delas é: a reeleição de Lula, se não está ameaçada, permanece muito longe de garantida.
Em outras palavras, as dificuldades do atual presidente se mostram maiores do que o esperado e sonhado pela campanha dele e, principalmente, pelos petistas. A hipótese de vitória no primeiro turno vem minguando a cada dia e o enfrentamento de um segundo turno muito complicado já surgiu no horizonte.
Mas importante, porém, é que Lula teria de usar o primeiro turno para baixar sua alta rejeição, aumentar a aprovação do governo e apresentar alguma esperança ao eleitorado. Nada disso foi feito até agora, e o lançamento oficial da campanha petista e a entrevista do presidente ao Jornal Nacional (TV Globo) sintetizam seu momento — ou seja, muito passado, muita polarização com o bolsonarismo e pouco futuro.
Permanece entre comunicólogos, marqueteiros e pesquisadores o sentimento de que esta pode ser uma eleição de mudança. Em resumo, Lula segue firme na disputa, mas sem o favoritismo de outrora. Um experiente analista de campanhas e profundo conhecedor do PT alerta que, se Lula não for para o segundo com boa vantagem sobre seu adversário (quem quer que seja ele), sua reeleição estará seriamente comprometida.
Ainda vulnerável
Apesar de ter “encaixado” um discurso de campanha e demonstrado resiliência nas principais pesquisas, Flávio Bolsonaro (PL) ainda aparenta vulnerabilidade. Não por outro motivo, Gilberto Kassab (PSD) insinuou que o filho de Jair Bolsonaro será destruído pelo PT e é um candidato marcado para perder de Lula no segundo turno.
Outra verdade incômoda sobre a campanha de Flávio remonta ao período pré-eleitoral: quando o principal candidato de oposição tem de passar quase meia hora no JN respondendo sobre supostos desvios éticos e supostas irregularidades, é que a escolha do antipetismo para tirar Lula do Planalto talvez não tenha sido a melhor para o momento.
Ou seja, a oposição bolsonarista desprezou a oportunidade de lançar um nome que verdadeiramente represente uma mudança. Flávio, por ora, ainda não conseguiu se firmar como essa alternativa.
Está devendo
O desempenho de Ronaldo Caiado foi o principal destaque negativo até agora da campanha na visão de dez entre dez analistas: não conseguiu superar a polarização, se enrolou na entrevista ao JN e até agora insiste em tratar o país como um Goiás ampliado.
A aposta em se apresentar como um “independente” por razões óbvias não deu certo. Entre um “bolsonarista da Shoppe” ou um candidato “sabor bolsonarista” os eleitores antipetistas até agora têm preferido ficar com o original ou experimentar opções mais “exóticas”, como Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante).
Natimoro
O destino de Romeu Zema (Novo) parece ter sido selado antes mesmo do início da campanha, quando ele atacou duramente Flávio Bolsonaro por conta das revelações da ligação do candidato do PL com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Uma parte expressiva dos brasileiros pode estar procurando uma alternativa à direita, mas é certo historicamente que o eleitor tende a rejeitar o oportunismo.
Sem chances de crescer nas pesquisas, sobrou para o candidato do Novo a oportunidade de utilizar as sabatinas com o intuito de nacionalizar seu nome positivamente. Nesse sentido, um profundo conhecedor de Minas Gerais, estado governado por Zema entre 2019 e 2026, alertava de antemão: quando o Brasil prestar a atenção nele e no que ele fala, o efeito será contrário.
Ajuda externa
Renan Santos (Missão) pode ter recebido o empurrão que precisava para galgar alguns postos nas pesquisas de intenção de voto com a decisão do ministro Dias Toffoli, do Supremo e do TSE, de suspender sua campanha digital. A medida vai ao encontro da narrativa antissistema do candidato.
Quem mexeu no meu algoritmo?
O bom desempenho recente de Augusto Cury, impulsionado, sobretudo, pelas redes sociais, levantou várias dúvidas nas campanhas adversárias. Uma delas é: estariam as big techs deixando claro, apenas a título de aperitivo, que podem interferir nas eleições brasileiras?