Garcia Pereira Advogados Associados

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O presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou a renúncia  do cargo nesta quinta-feira (5/11) em decorrência da crise envolvendo o Ueno Bank, um dos maiores bancos digitais do país. A instituição, que reunia por volta de 2,9 milhões de clientes, o equivalente a 40% da população do Paraguai, e administrava aproximadamente US$ 850 milhões em recursos públicos, foi alvo de uma intervenção do Banco Central do Paraguai (BCP) após serem identificados problemas em sua situação financeira. A crise no país vizinho é tamanha que tem sido comparada ao caso do Banco Master, no Brasil.

Os desdobramentos do caso vêm gerando uma das mais maiores turbulências políticas da história recente do país e levanta dúvidas sobre a segurança dos depósitos de milhões de clientes e a exposição de recursos públicos. Também coloca sob questionamento as relações entre os controladores do banco, autoridades monetárias e o governo paraguaio.

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A repercussão levou à renúncia do presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, à detenção de oito dirigentes do banco e a um pedido de impeachment contra Peña e o vice-presidente, Pedro Alliana. O presidente anunciou a saída antes que o processo avançasse, em meio à perda de apoio até mesmo dentro de sua legenda, o Partido Colorado. Ele é questionado por ter sido acionista da holding do banco até março de 2025.

O que aconteceu com o Ueno Bank?

A história eclodiu com a decisão do Banco Central do Paraguai, tomada por unanimidade na segunda-feira (2/11), de iniciar um procedimento de resolução do Ueno Bank. A medida foi divulgada na madrugada de terça-feira (3/11) e interrompeu o funcionamento da instituição. Horas antes do anúncio, o próprio banco havia divulgado uma nota dizendo não ter recebido nenhuma notificação do regulador e que seguia operando normalmente.

O procedimento colocou o banco sob controle das autoridades, suspendeu seus serviços e deu início a uma apuração da situação patrimonial. O aplicativo, os cartões e os demais canais deixaram de funcionar. Clientes que foram às agências encontraram as portas fechadas, com escolta policial.

O motivo apontado pelo Banco Central foi uma deterioração grave no índice de solvência da instituição. Segundo o órgão, o indicador caiu para 5,56%, menos da metade do mínimo de 12% exigido pela regulamentação paraguaia.

A queda ocorreu depois de ajustes nos demonstrativos financeiros feitos durante o processo de regularização determinado pelo Banco Central do Paraguai. O banco chegou a anunciar um plano de capitalização de US$ 100 milhões, segundo a Forbes Paraguai, mas a deterioração dos indicadores levou o regulador a agir.

O índice de solvência mede a capacidade de um banco de absorver perdas sem comprometer sua estabilidade. É o que indica se a instituição tem capital suficiente para suportar prejuízos com empréstimos não pagos ou outros riscos. Quando o indicador cai abaixo do mínimo, o banco deixa de cumprir os requisitos prudenciais para operar normalmente.

O Banco Central paraguaio afirmou que a revisão das operações de crédito identificou deficiências na avaliação de risco dos empréstimos, inconsistências nas informações financeiras usadas para aprovar financiamentos e falhas no acompanhamento dos recursos concedidos.

Também foram identificadas operações com empresas relacionadas aos acionistas. Segundo as autoridades, alguns financiamentos tinham valores elevados em relação à capacidade econômica e patrimonial dos tomadores e dependiam de receitas futuras de projetos de investimento cuja viabilidade não estava suficientemente demonstrada.

Somado a esses fatores, o banco também informou não ter condições de recompor uma exigência de reserva de US$ 70 milhões, segundo reportagem do jornal paraguaio ABC Color.

O que é o Ueno Bank?

A dimensão do problema se explica pelo tamanho que o banco alcançou em um curto período de  tempo. O Ueno Bank pertence ao Grupo Vázquez, conglomerado controlado pelo empresário paraguaio Federico Miguel Vázquez Villasanti, conhecido por Miguel Vázquez.

A instituição começou a operar como banco em novembro de 2023, depois de atuar como financeira. Com uma estratégia de expansão baseada em serviços digitais, conquistou espaço rapidamente. Em junho de 2026, declarava 2.941.996 clientes. É o equivalente a 40% da população do Paraguai, que tem por volta de 6,5 milhões de habitantes.

O crescimento veio acompanhado de forte presença comercial, publicidade e patrocínios esportivos. O Ueno era o patrocinador principal da seleção paraguaia de futebol e das competições oficiais da Associação Paraguaia de Futebol (APF).

De acordo com a imprensa paraguaia, além de investidores e grandes empresas, a suspensão dos serviços também atingiu uma parcela expressiva da população que usava a instituição para receber salários e aposentadorias, fazer pagamentos e guardar economias. Jogadores de futebol e pequenos empreendedores também ficaram sem acesso ao dinheiro.

Quanto dinheiro público estava no banco?

O Ueno administrava cerca de US$ 850 milhões em depósitos de órgãos e entidades estatais, valor que representa perto de 30% de seus depósitos, segundo dados do Ministério da Economia e Finanças do Paraguai divulgados pelo ABC Color.

Entre os principais depositantes estava o Instituto de Previsión Social (IPS), responsável pela previdência dos trabalhadores paraguaios, que mantinha US$ 355 milhões na instituição, o que remete à crise do Banco Master no Brasil. Além disso, cerca de 32 mil aposentados recebiam os benefícios por meio do Ueno. A estatal de energia ANDE também informou ter aproximadamente US$ 52 milhões no banco, entre recursos próprios e empréstimos internacionais. Estimativas apontam cerca de US$ 54 milhões em depósitos na Itaipu Binacional.

Essa concentração vinha sendo questionada. Parlamentares passaram a investigar como o Ueno conseguiu reunir um volume tão grande de depósitos estatais e se houve favorecimento.

Segundo jornais do país, o próprio diretor de Investimentos do IPS, Hugo Díaz, reconheceu que a concentração de recursos no Ueno havia ultrapassado os limites previstos nas normas. O jornal ABC Color revelou, em julho, que mudanças nas regras internas de investimento do IPS, feitas entre 2023 e 2024, coincidiram com o aumento expressivo dos recursos destinados ao banco.

Como a crise chegou ao governo de Santiago Peña?

Um dos principais personagens da crise política é Carlos Carvallo, que presidia o Banco Central do Paraguai desde 2023. Antes disso, ele havia dirigido a Financiera Ueno, que deu origem ao banco. A nomeação de um ex-dirigente da instituição para comandar o órgão que a supervisiona gerava questionamentos sobre conflito de interesses.

O próprio Peña também passou a ser questionado por vínculos empresariais anteriores com o grupo controlador. Ele foi acionista da Ueno Holding e declarou à imprensa, em abril de 2025, que havia deixado o quadro societário em março daquele ano. Sua participação era de 1,58% do capital da holding.

A oposição questiona se esses vínculos e a escolha de Carvallo comprometeram a independência da supervisão. Entre as acusações feitas por parlamentares estão conflito de interesses, encobrimento institucional, manipulação regulatória e comprometimento de recursos previdenciários.

Com o anúncio da dissolução do banco, clientes foram às agências tentar retirar recursos. Na noite de terça-feira, centenas de correntistas e aposentados marcharam até o Congresso, em Assunção, em protesto que terminou em confronto com a polícia. Os manifestantes prometeram acampar exigindo a saída de Peña. No mesmo dia, Carvallo renunciou à presidência do Banco Central, e Peña anunciou acordo com os presidentes das duas casas do Congresso para dar tramitação urgente a um projeto que autoriza o uso do Fundo de Garantia de Depósitos (FGD) para pagamento imediato aos correntistas.

Na quarta-feira (4/11), um grupo de 35 deputados apresentou pedido de sessão extraordinária da Câmara para discutir o julgamento político de Peña e de Alliana, seu vice, por possível conflito de interesses, comprometimento de recursos previdenciários e omissão diante dos problemas do banco.

A iniciativa ganhou força com a perda de apoio dentro do Partido Colorado, legenda do próprio Peña e que sustenta o governo. O ex-presidente Horacio Cartes, líder do partido e padrinho político de Peña, enviou carta pública cobrando firmeza para proteger os poupadores. Com o movimento, Peña perdeu apoio do presidente do Congresso, Basilio Núñez, também filiado ao partido.

Nesta quinta-feira (5/11), Peña anunciou a renúncia em vídeo nas redes sociais. “Nenhum cargo pode estar acima do bem-estar do Paraguai”, disse, segundo a imprensa. Ele pediu desculpas à população e afirmou esperar que os recursos dos depositantes sejam protegidos.

A renúncia depende de aceitação pelo Congresso. O vice-presidente Pedro Alliana deve assumir a Presidência, mas ele próprio é alvo do pedido de julgamento político apresentado pela oposição.

Em paralelo, a crise passou a ser investigada na esfera criminal. O Ministério Público abriu investigação a partir de denúncia do Banco Central do Paraguai, por suspeita de lesão de confiança e outros crimes. Oito dirigentes do banco já foram detidos, entre eles o presidente-executivo, Miguel Vázquez, e o presidente do conselho, Juan Manuel Gustale. A Procuradoria formalizou ainda acusações contra 27 pessoas ligadas à instituição.

A Justiça determinou o bloqueio de cerca de US$ 70 milhões em bens de dirigentes do Ueno e do Grupo Vázquez. Todos os outros acusados também tiveram bens bloqueados. A Promotoria avalia pedir cooperação de Luxemburgo e dos Estados Unidos para rastrear patrimônio no exterior.

Quem é Santiago Peña?

Santiago Peña, de 47 anos, é economista e filiado ao Partido Colorado, força política que domina a política paraguaia há décadas. Antes de chegar à Presidência, em agosto de 2023, foi funcionário do Banco Central, trabalhou no Fundo Monetário Internacional (FMI) e comandou o Ministério da Fazenda entre 2015 e 2017, durante o governo de Horacio Cartes, de quem é aliado político.

Peña foi eleito em abril de 2023, com 42,7% dos votos, para um mandato que iria até 2028. O vice-presidente, Pedro Alliana, de 52 anos, também é do Partido Colorado e tem trajetória política no Legislativo e no Executivo.