Garcia Pereira Advogados Associados

A redução de 75% nos casos de dengue no Brasil nos primeiros meses de 2026, anunciada recentemente pelo Ministério da Saúde, é uma notícia que merece ser celebrada – mas também requer cautela analítica.

Dados oficiais mostram que o Brasil registrou cerca de 331 mil casos prováveis da doença entre janeiro e maio de 2026, contra 1,36 milhão no mesmo período de 2025. Embora expressiva, a comparação é feita contra um ano excepcionalmente epidêmico: 2024 registrou o pico histórico de 6,6 milhões de casos prováveis, seguido por cerca de 1,7 milhão em 2025.

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Em doenças fortemente influenciadas pelo clima, pela imunidade populacional e pela dinâmica de sorotipos dos arbovírus, grandes oscilações interanuais são esperadas, especialmente após surtos extremos, quando parte relevante da população permanece temporariamente imunizada.

Além disso, fatores climáticos, como temperaturas mais amenas e alterações nos regimes de chuva em parte do país, provavelmente contribuíram para reduzir a pressão vetorial no início de 2026. Isso não significa que os avanços em vigilância, vacinação e novas tecnologias de controle vetorial não tenham papel importante, mas sugere que interpretar a queda atual como uma “vitória definitiva” contra a dengue em 2026 seria precipitado.

Basta olhar para as realidades regionais: enquanto a maioria dos estados do Sul e do Nordeste registram queda no número de casos em 2026, estados da região central do país como Goiás, Tocantins, Espírito Santo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Piauí enfrentam surtos severos de dengue e chikungunya, com aumentos expressivos nos números de casos e dificuldade de acesso a meios mais eficazes de combate.

O Centro-Oeste brasileiro concentra hoje alguns dos cenários mais críticos do país. Goiás, por exemplo, apresenta o maior coeficiente de incidência de dengue do Brasil: 1.077 casos por 100 mil habitantes. O estado já contabiliza cerca de 80 mil casos prováveis nos quatro primeiros meses de 2026, acima dos 67 mil registrados no mesmo período do ano passado. Também preocupa o avanço da chikungunya, que beira os 10 mil casos.

Mato Grosso do Sul vive outro quadro alarmante, desta vez com chikungunya. São mais de 12,6 mil casos, o equivalente a 27,8% de todos os registrados no país, agravados por 17 mortes. São 433,1 casos por cada cem mil pessoas — o maior índice do Brasil para a doença. Dos cinco estados com maior coeficiente de incidência de chikungunya, três estão no Centro-Oeste.

Mas os surtos de arboviroses não se restringem a essa região. Tocantins, no Norte, chama atenção por um crescimento explosivo da dengue. O estado tem cerca de 15,4 mil casos prováveis apenas nos primeiros meses de 2026, contra 3.308 em todo o ano de 2025 — um aumento de 359%.

O alerta é claro: o Brasil ainda convive com diferentes realidades no combate às arboviroses, e a história epidemiológica brasileira mostra que períodos de baixa frequentemente antecedem novos ciclos de expansão, sobretudo quando há relaxamento das ações estruturais de controle.

A pergunta que o poder público e a sociedade civil devem se fazer é: por que, em um momento de queda nacional, essas regiões vão na direção oposta? A desigualdade reflete diferenças estruturais em saneamento, urbanização, capacidade de vigilância epidemiológica, financiamento local, continuidade das ações de controle vetorial, e, principalmente, acesso a novas tecnologias.

A principal diferença em relação aos anos anteriores é que o país nunca teve tantas ferramentas disponíveis para enfrentar o mosquito transmissor como agora. Além das ações tradicionais de eliminação de criadouros e campanhas educativas, o Brasil conta com tecnologias inovadoras e complementares.

Entre elas estão o Aedes do Bem, mosquito desenvolvido pela Flyttr para reduzir a população do vetor; a bactéria Wolbachia, que diminui a capacidade de transmissão dos vírus; as vacinas contra a dengue; as Estações Dispersoras de Larvicidas; e até mesmo sistemas preditivos que utilizam aprendizado de máquina e inteligência artificial.

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O desafio agora é de escala e acesso. Essas soluções, que permanecem concentradas em projetos-piloto ou grandes centros urbanos, precisam chegar de forma célere e coordenada aos municípios mais afetados, especialmente aqueles que historicamente enfrentam limitações estruturais e dificuldades de financiamento para ações permanentes de combate ao Aedes aegypti.

A história epidemiológica do Brasil mostra que não existe vitória isolada contra a dengue. Em um país de dimensões continentais, com intensa circulação de pessoas e diferenças climáticas marcantes, surtos regionais rapidamente podem se transformar em crises nacionais. O Brasil só poderá dizer que venceu a dengue quando todos os estados e municípios estiverem protegidos.