Garcia Pereira Advogados Associados

A primeira batalha de qualquer eleição é pelo controle da agenda, do assunto ou dos assuntos que serão a moldura e o centro da discussão política. Depois de tantos exemplos de sucesso nesse sentido, como a introdução do tema das privatizações em 2006 e da autonomia do Banco Central em 2014, o PT parece ter desaprendido essa lição básica do marketing político.

No primeiro turno, o partido escolheu a agenda da continuidade, personificada pelas “entregas” que o presidente Lula tanto enfatiza. Não deu certo, e o petista terminou atrás de Flávio Bolsonaro (PL).

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Na agenda continuidade versus mudança, costuma ganhar a mudança, que Flávio tenta personificar. E isso parece meio óbvio quando se olha a desaprovação do governo, em torno de 50%, segundo as principais pesquisas.

Agora, no início da campanha de segundo turno, o PT caminha atordoado rumo à isca ofertada pelo bolsonarismo: a discussão sobre democracia, organização legal e institucional do país. Antes de mais nada, trata-se de um tema da agenda eleitoral de 2022, quando Lula iludiu os brasileiros com a história de sua “frente ampla” montada para ganhar o poder, mas não para partilhar o governo.

Neste ano, Flávio diz que vai aproveitar a maioria de direita no Congresso para mudar a Constituição. Segundo ele, a medida é necessária para “redemocratizar” o país. O filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) vem, inclusive, angariando apoios da classe política e do Centrão com essa proposta.  

Na sociedade, muita gente já se engajou no debate. Com razão. É um tema que merece atenção, ainda mais vindo de um grupo condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por tentativa de golpe. Maiorias eventuais não deveriam ter licença para mudar itens essenciais do contrato social, mas isso é assunto para outro momento.

Voltando ao tema da agenda de campanha, ser ele grave e importante não significa que seja bom para o atual presidente. Um experiente profissional do assunto vaticina: se Lula e o PT caírem nessa armadilha, não virarão os votos necessários para vencer a eleição.

Segundo ele, o tema tem rabo, focinho e forma de um “boi de piranha”, que atravessa o rio na frente para ser devorado pelos predadores. É um assunto para jornalistas, políticos da situação e professores gastarem seu tempo, diz. Enquanto a boiada passa. Cortinas de fumaça já começam a ser colocadas aqui e ali, como a soltura de Jair Bolsonaro e os cotados para assumirem ministérios.

A agenda que pode virar votos a favor de Lula, porém, deve ser a verdadeira e importante para os brasileiros, a da vida cotidiana. Nesse sentido, o debate sobre os planos de Flávio Bolsonaro e de sua equipe econômica para um futuro governo estaria mais próximos da vida real dos eleitores. 

Afinal, como, quando e onde Flávio vai promover os cortes que vem prometendo? Eles afetarão áreas como saúde, educação e aposentadorias? Qual a viabilidade fiscal das ideias do oposicionista? Haverá um “tesouraço” no Brasil à la Milei (presidente da Argentina)? Essas são perguntas que a campanha de Lula deveria levantar e que o candidato do PL deveria responder se quiserem mesmo contribuir com a democracia e a transparência do debate neste segundo turno. 

Sobre quase viradas…

Viradas em segundo turno são raras e nunca aconteceram na disputa presidencial brasileira. Aécio Neves (PSDB) quase conseguiu essa proeza em 2014, contra Dilma Rousseff (PT), mas bateu na trave.

… e viradas de verdade

Em eleições estaduais, a história registra viradas heroicas. Em 1998, por exemplo, Paulo Maluf (PP) quase ganhou no primeiro turno a disputa pelo governo de São Paulo. Faltou pouco. Na fase decisiva, porém, Mário Covas (1930-2001), com uma campanha que encurralou o adversário em várias frentes, saiu vencedor.

Enquanto o Maluf progandeava suas obras, a campanha de Covas, em linhas gerais, dizia que pobre não come cimento, não come viaduto. Venceu com a força da agenda social, ética e moral.