Garcia Pereira Advogados Associados

O presidente do Hospital Israelita Albert Einstein, Sidney Klajner, afirmou durante o JOTA Global, realizado em Nova York, no dia 23 de setembro, que apenas 2% dos investimentos climáticos bilaterais e multilaterais no mundo são direcionados à área da saúde. Cirurgião do aparelho digestivo por formação, Klajner se tornou, em 2023, a voz do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 3, voltado à saúde, no Pacto Global da ONU.

Klajner fez a afirmação ao falar dos efeitos de eventos climáticos extremos sobre a saúde da população. Ele citou, por exemplo, que secas trazem problemas com a água e aumentam o risco de surtos de doenças infecciosas.”Precisamos de sistemas de saúde mais resilientes”, disse, defendendo que políticas públicas sejam construídas em conjunto com as organizações e o sistema de saúde, e que profissionais e instituições estejam preparados para lidar com o que está acontecendo no mundo.

Para o presidente do Einstein, a saúde precisa estar cada vez mais presente na discussão climática, porque eventos extremos já afetam a população. De acordo com Klajner, a comunidade científica reconhece ser improvável conter o aquecimento global em 1,5°C até 2030. “Não vamos alcançar os 1,5 graus centígrados, porque não há mais tempo para isso”, afirmou. Ele citou dados da ONU que apontam que 3,6 bilhões de pessoas, metade da população mundial, são impactadas por algum tipo de evento climático extremo.

O presidente do Einstein afirmou que mais de 70% da mortalidade associada a ondas de calor extremo nas últimas duas décadas, na Europa e nos Estados Unidos, ocorreu entre pessoas acima de 65 anos. “Até junho e julho deste ano, nos Estados Unidos, tivemos mais de 22 mil atendimentos em prontos-socorros relacionados a doenças causadas pelo calor. E, durante 2026, quase 150 mil pessoas passaram por prontos-socorros até a semana passada por essa mesma causa”, disse.

No Brasil, Klajner afirmou que o país se prepara para os efeitos do fenômeno climático El Niño, que provoca situações diversas simultaneamente em diferentes regiões, como seca na Amazônia, incêndios florestais e seca no centro do país, e tempestades de vento e tornados no Sul, fenômeno pouco comum historicamente no território brasileiro. Ele acrescentou que atualmente 4,7 milhões de pessoas em 641 municípios brasileiros são prejudicados por algum tipo de desastre ou calamidade pública ligada a esses eventos.

Plano de Belém e AdaptaSUS buscam preparar sistema de saúde

Klajner citou o plano de saúde lançado na COP30, em Belém, como exemplo de preparação concreta do sistema de saúde brasileiro, desenvolvido em parceria com o Ministério da Saúde. “Lançamos um guia para organizações sobre como se preparar, como treinar profissionais de saúde, como fazer planos B, como rotas alternativas, porque não é só quando perdemos um hospital ou uma unidade de atenção primária”, afirmou.

Ele citou o furacão Sandy, em Nova York, como exemplo histórico do problema: “os níveis de pressão arterial da população aumentaram por meses, porque muitas pessoas não conseguiam chegar às unidades de atenção primária por causa de mobilidade, porque médicos não conseguiam chegar às unidades, por causa da saúde mental também”, disse. Ele explicou que o Ministério da Saúde do Brasil lançou o programa AdaptaSUS, com 27 metas e 93 ações voltadas a ajudar estados e municípios a garantir a continuidade de tratamentos de doenças crônicas, como diabetes e hipertensão, mesmo durante calamidades.

Plataforma de monitoramento climático e de saúde

Conforme Klajner, o Hospital Israelita Albert Einstein lançou, durante a COP30, a plataforma Meio Ambiente e Impacto na Saúde (MAIS), voltada a cruzar dados climáticos com dados de saúde pública em mais de 5.500 municípios brasileiros. “MAIS é um termo relacionado ao meio ambiente e seu impacto na saúde”, explicou. O plano é instalar uma estação de monitoramento em cada uma dessas cidades, cruzando os dados climáticos com informações disponíveis no país, como os dados populacionais do IBGE e o histórico de casos respiratórios, cardiovasculares e de mortalidade registrados durante incêndios florestais anteriores.

O presidente do hospital também citou o trabalho da instituição com populações vulneráveis. Ele relatou que o Einstein coletou dados de saúde de mais de 800 mil indígenas, além de amostras de solo e água para monitorar contaminação por mercúrio ligada à mineração ilegal, repassando essas informações ao Ministério da Saúde. A instituição também desenvolve projeto semelhante com comunidades quilombolas em seis biomas brasileiros, coletando amostras ambientais e exames de sangue da população.

Conheça o Estúdio JOTA, área de conteúdo multimídia sob demanda do JOTA

Ao comentar lições aprendidas com desastres recentes, Klajner citou o deslizamento de terra no litoral norte de São Paulo, em 2023, quando a equipe do hospital atuou para garantir a continuidade de atendimento a pacientes com doenças crônicas na região. Ele também citou as enchentes no Sul do país, quando uma cidade atendida pela missão humanitária do Einstein perdeu um de três hospitais e dois de três unidades de emergência. “Os materiais não eram tão bons, não estavam preparados. Sabemos que, na América Latina, toda a infraestrutura e os prédios construídos depois de 1980 foram preparados para terremotos, mas não para o que acontece hoje, como enchentes ou calor extremo”, afirmou.

Para ele, parte do problema estrutural ficou evidente quando geradores de energia de emergência, instalados em porões, pararam de funcionar justamente durante as enchentes. “Quando houve a inundação, a maioria dos geradores de energia do prédio estava no porão ou no subterrâneo. Então, sem energia”, disse. Klajner encerrou citando que 67% das unidades de saúde da América Latina estão localizadas em regiões vulneráveis a eventos climáticos extremos.

Assista ao painel na íntegra

O JOTA Global teve realização do JOTA, com patrocínio de ApexBrasil, DLA Piper e Vale, suporte especial do Einstein Hospital Israelita e parceria institucional da Dinâmica.