A discussão sobre a confiabilidade das pesquisas eleitorais costuma concentrar-se na comparação entre institutos ou na diferença entre os percentuais estimados e os resultados das urnas. Esse debate, embora relevante, obscurece uma transformação mais profunda: a mudança estrutural do mercado de pesquisas eleitorais no Brasil.
Desde a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em janeiro de 2023, o país passou a conviver com um fluxo praticamente contínuo de pesquisas sobre a sucessão presidencial de 2026. Em 2023 surgiram os primeiros cenários; em 2024, após as eleições municipais, os levantamentos tornaram-se mais frequentes; em 2025, passaram a ser regulares; e, em 2026, transformaram-se em rotina.
Segundo o Agregador de Pesquisas Eleitorais 2026 da DataPolicy, entre janeiro e junho deste ano foram realizadas 69 pesquisas nacionais de intenção de voto para presidente, conduzidas por 19 institutos diferentes e registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Nunca se pesquisou tanto, durante tanto tempo e por tantos institutos uma mesma eleição presidencial.
Esse ambiente difere substancialmente daquele analisado pelos principais estudos sobre a precisão das pesquisas eleitorais brasileiras, como é o trabalho de Wladimir Gramacho (2013), ao examinar as eleições de 2010, que estudou um contexto em que predominavam as entrevistas presenciais.
Assim é também o trabalho de Fernando Meireles e Guilherme Russo (2022), ao analisarem mais de duas mil pesquisas realizadas entre 2012 e 2020, onde encontraram um mercado ainda fortemente baseado em entrevistas presenciais, embora já em transição para modalidades telefônicas.
Os dois estudos demonstraram que as pesquisas brasileiras apresentam níveis de precisão compatíveis com os documentados pela literatura internacional, sobretudo nas eleições presidenciais e nas semanas finais da campanha, sem evidências de viés partidário sistemático. Em conjunto, os dois trabalhos indicam que a magnitude dos erros de estimação no Brasil é semelhante à observada em outros países, sugerindo que os desafios metodológicos enfrentados pelos institutos brasileiros não diferem substancialmente daqueles relatados pela literatura internacional.
Desde então, porém, a transformação foi além da incorporação de novas tecnologias de coleta de dados. Formou-se um novo ecossistema de pesquisas eleitorais, marcado pela expansão das entrevistas por telefone celular, dos painéis on-line, dos aplicativos e das redes sociais, pela entrada de novos institutos e pela divulgação quase permanente de levantamentos. Como consequência, alteraram-se as condições sob as quais as pesquisas são produzidas, comparadas e avaliadas.
Essa transformação dialoga com uma agenda consolidada da metodologia de surveys. Desde os trabalhos de Robert Groves e Mick Couper, a literatura internacional chama atenção para a queda das taxas de resposta às pesquisas de opinião e para o risco de que determinados grupos da população passem a participar menos dos levantamentos, comprometendo a representatividade das amostras. Essa discussão foi posteriormente aprofundada por autores como Don Dillman, Roger Tourangeau e Jelke Bethlehem, especialmente diante da expansão das pesquisas telefônicas e pela internet.
No contexto brasileiro, essa perspectiva ainda recebeu pouca atenção. Embora o eleitorado supere 150 milhões de pessoas, o universo de cidadãos efetivamente acessíveis e dispostos a responder pesquisas pode tornar-se cada vez mais restrito. Em um ambiente de campanha praticamente permanente, dezenas de institutos realizam levantamentos sucessivos durante anos, disputando um mesmo conjunto de respondentes.
Há ainda outra mudança importante. Além dos tradicionais contratantes — partidos políticos, veículos de comunicação e organizações da sociedade civil — instituições financeiras, gestoras de recursos, consultorias econômicas e consultorias de análise de conjuntura, passaram a demandar pesquisas eleitorais com frequência crescente.
Embora isso também ocorra em outras democracias, no Brasil a intensidade parece incomum, e muitos desses levantamentos acabam sendo divulgados publicamente. As pesquisas deixaram de servir apenas à estratégia eleitoral ou à informação jornalística. Tornaram-se também insumos para projeções econômicas, avaliação de riscos políticos e decisões de investimento, ampliando ainda mais a demanda por levantamentos ao longo de todo o ciclo político.
Nesse novo contexto, em que se verifica a multiplicação dos institutos, a realização contínua de levantamentos, isso faz com que diferentes organizações passem a disputar, simultaneamente, um universo relativamente limitado de pessoas dispostas a participar das pesquisas. Quanto maior a quantidade de levantamentos realizados ao longo de um mesmo ciclo eleitoral, maior tende a ser a probabilidade de diferentes institutos recorrerem, repetidamente, a perfis semelhantes de respondentes.
Essa mudança desloca o foco tradicional da análise das pesquisas eleitorais. O desafio já não consiste apenas em escolher entre levantamentos presenciais, telefônicos ou on-line, nem em comparar qual instituto produz a estimativa mais próxima do resultado das urnas. Passa também por compreender como a transformação do mercado de pesquisas eleitorais pode afetar a composição das amostras e, consequentemente, a capacidade de captar mudanças nas preferências do eleitorado.
Em um contexto de intensa competição por um conjunto relativamente limitado de respondentes, diferentes institutos tendem a recorrer a perfis cada vez mais semelhantes, aumentando a sobreposição entre as amostras, reduzindo sua diversidade efetiva e ampliando o risco de vieses de seleção, mesmo quando cada levantamento, considerado isoladamente, observa procedimentos metodológicos adequados.
As pesquisas eleitorais continuam sendo instrumentos indispensáveis para compreender o comportamento do eleitorado e, historicamente, têm produzido estimativas confiáveis nas eleições presidenciais. O desafio contemporâneo talvez seja interpretar as pesquisas à luz de um mercado que mudou profundamente. Nunca houve tantos levantamentos, tantos institutos e tantos demandantes por informações eleitorais.
Se essa nova configuração do mercado de pesquisas eleitorais altera a forma como os respondentes são continuamente mobilizados, talvez seja necessário ampliar o debate. Mais do que perguntar qual instituto acerta mais, será preciso compreender como a própria transformação desse mercado pode influenciar a qualidade das estimativas e a capacidade das pesquisas de acompanhar uma opinião pública em constante movimento.
O mercado de pesquisas eleitorais e de opinião dificilmente perderá relevância. Além da realização de eleições a cada dois anos, partidos, governos, empresas e organizações dependem continuamente dessas pesquisas para acompanhar o humor da opinião pública e orientar suas decisões.
Entretanto, essa demanda crescente ocorre em um momento de profunda transição tecnológica, no qual os métodos tradicionais de coleta de dados vêm sendo substituídos por novas modalidades de pesquisa. O resultado é um cenário em que diferentes estratégias de pesquisa passam a competir por um conjunto relativamente restrito de respondentes, aumentando a probabilidade de estimativas divergentes e tornando mais complexa a avaliação da qualidade dos levantamentos.