Garcia Pereira Advogados Associados

Existe uma contradição que poucas empresas admitem em voz alta. Investem em governança, estruturam comitês de compliance, produzem relatórios sofisticados de risco e, ao mesmo tempo, administram seus contratos em planilhas, pastas compartilhadas e cadeias de e-mails. Não se trata de descuido. Trata-se de uma concepção equivocada sobre o que o contrato é, e sobre o papel que ele passou a desempenhar nas organizações.

Durante décadas, esse equívoco teve um custo administrável. O volume contratual era menor, o ambiente regulatório mais estável e a gestão manual funcionava dentro de seus próprios limites. Hoje, esses limites se tornaram evidentes.

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Grandes organizações operam simultaneamente com centenas de contratos ativos. Cada um reúne obrigações, prazos, cláusulas de reajuste, condições de rescisão, critérios de conformidade e responsabilidades que variam conforme a contraparte, o setor e a jurisdição. Acompanhar esse conjunto de forma manual não é apenas oneroso; é estruturalmente incompatível com a velocidade com que riscos, desvios e impactos operacionais emergem.

A pressão regulatória aprofundou esse descompasso. Regras de proteção de dados, exigências de auditoria, critérios ESG e normas setoriais transformaram o contrato em objeto de escrutínio contínuo. O que antes estava concentrado no jurídico passou a ser demandado por finanças, compras, compliance e pela alta liderança. A função do contrato mudou. A infraestrutura de gestão, em grande parte das empresas, não acompanhou.

O resultado é conhecido: contratos vencem sem renovação oportuna, cláusulas sensíveis são identificadas tarde demais, inconsistências só aparecem quando se transformam em litígios. Essa ineficiência não é episódica. É sistêmica.

É nesse ponto que começa a fazer sentido falar em Contract Intelligence. Não como uma nova camada tecnológica, mas como uma mudança de lógica. A discussão sobre inteligência artificial aplicada a contratos ainda costuma ficar restrita à produtividade: tempo economizado, tarefas automatizadas e documentos processados. Esses ganhos existem, mas não representam a transformação mais relevante.

O impacto da IA jurídica está na capacidade de transformar contratos em uma fonte contínua de inteligência para o negócio. Plataformas de gestão do ciclo de vida contratual com IA nativa não apenas aceleram revisões ou identificam cláusulas de risco. Elas mudam a natureza da informação contratual. O contrato deixa de ser um documento consultado sob demanda e passa a gerar sinais permanentes, alertas, comparações, padrões e desvios, que sustentam decisões.

Mas dados, por si só, não produzem inteligência. O valor surge quando esses sinais são interpretados dentro de um contexto: a relação comercial estabelecida, as obrigações assumidas, a operação envolvida e o impacto real para o negócio. É essa leitura contextual que separa a automação pura de uma estratégia de Contract Intelligence. Sem contexto, restam alertas, com contexto, surge a capacidade de decidir.

Isso não é uma digitalização de processos, passa a ser uma mudança de função. E há uma distinção essencial que muitas organizações ignoram: a tecnologia amplifica a maturidade existente. Empresas que não definiram claramente quem governa o contrato ao longo de seu ciclo continuam operando com os mesmos gargalos,  agora em escala digital. A decisão sobre o papel do contrato na arquitetura de governança é anterior à tecnologia. É estratégica e humana.

Também é equivocado supor que esse avanço reduz a necessidade de especialistas. No campo contratual, ocorre o oposto. Quanto maior a capacidade de processamento, maior a demanda por profissionais capazes de interpretar contexto, avaliar impactos e decidir diante de situações que não se resolvem por padrão estatístico.

A inteligência artificial organiza informações, identifica inconsistências e antecipa riscos com velocidade. Mas não substitui o julgamento sobre o que uma cláusula representa para o negócio em um cenário específico, nem conduz negociações complexas ou decisões estratégicas. Essas atribuições permanecem humanas e se tornam mais exigentes.

O que muda é o ponto de partida. Com análises operacionais executadas de forma contínua, jurídico e áreas de negócio deixam de consumir energia em tarefas de localização e revisão manual e passam a atuar sobre decisões. Historicamente visto como função de contenção e revisão documental, o jurídico ganha condições reais de se aproximar da estratégia corporativa, porque a informação deixa de estar dispersa e passa a ser inteligível.

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Por isso, o debate sobre IA aplicada a contratos não é tecnológico. É um debate sobre governança em um ambiente de complexidade crescente.

A pergunta que líderes deveriam se fazer não é “como automatizar a revisão de contratos”, mas “o que nossos contratos estão nos dizendo que ainda não estamos conseguindo interpretar”. Tratar o contrato como infraestrutura de governança é uma decisão estratégica. E as empresas que postergam essa escolha não estão apenas perdendo eficiência. Estão acumulando risco em um contexto em que o erro contratual tem custo regulatório, financeiro e reputacional cada vez maior.