Na manhã do dia 5 de junho deste ano, uma sexta-feira, policiais militares de São Paulo prenderam um homem que, segundo a corporação, havia entrado momentos antes em uma farmácia dos Jardins, bairro nobre da capital paulista, e roubado dinheiro do caixa e canetas emagrecedoras do estabelecimento. O assaltante chegou a fugir, mas acabou detido com um revólver calibre 38 e uma sacola com 19 canetas emagrecedoras, avaliadas em cerca de R$ 48.000, além de mais de R$ 3.000 em espécie roubado do caixa. O homem, que já tinha anotações criminais por roubos em farmácias, registradas em 2019, confessou o crime e foi acusado pelos crimes de roubo e porte ilegal de arma, ainda segundo a Polícia Militar.
Não foi um caso isolado. Medicamentos análogos de GLP-1, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, se tornaram um dos principais riscos impostos pelo crime organizado contra varejistas, distribuidores e farmacêuticas no Brasil. Nos últimos 12 meses, as notificações de roubo, furto e extravio desses produtos à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) saltaram de pontuais ocorrências de carga isoladas para um problema que avança na capilarizada rede de farmácias brasileiras. Assaltos à mão armada, como o registrado em junho, passaram a ser um risco real para farmacêuticos e atendentes que trabalham no balcão das farmácias.
Levantamento feito pelo JOTA nos registros da Anvisa desde o ano de 2014 até os últimos dados publicados em 7 de julho de 2026 identificou 24 ocorrências criminais distintas envolvendo os sete medicamentos da família dos análogos de GLP-1 (Ozempic, Rybelsus, Mounjaro, Victoza, Trulicity, Wegovy e Saxenda) entre 2024 e junho de 2026. Mas a explosão é recente, conforme esses medicamentos se popularizaram a partir de 2024: 18 dessas ocorrências aconteceram só entre 7 de julho de 2025 e 7 de julho de 2026, contra apenas duas nos 12 meses imediatamente anteriores, um salto de 800%. Em volume, foram 2.978 unidades desviadas nos últimos 12 meses, contra 162 nos 12 meses anteriores, um aumento de 1.738%.
No primeiro semestre de 2025 (1º de janeiro a 30 de junho), a Anvisa recebeu apenas uma ocorrência criminal envolvendo esses sete medicamentos: uma carga de 161 unidades de Wegovy notificada pela Novo Nordisk em São Paulo, no dia 26 de junho. No mesmo semestre de 2026, já são 7 ocorrências e 195 unidades, um crescimento de 600% em ocorrências criminais entre um ano e outro. O coronel aposentado José Vicente da Silva Filho, ex-secretário nacional de Segurança Pública, avalia que esse tipo de crime aumentou porque as quadrilhas vislumbraram facilidades, o que exige que tanto a polícia quanto as empresas aumentem as dificuldades para os criminosos.
“Onde há oportunidade, facilidade e valor elevado, o crime comparece. A polícia tem que levantar a tábua e ter mais risco percebido pelo bandido. É preciso verificar qual o roteiro dessas canetas e o que os casos traduzem da dinâmica criminal que está se instalando, para direcionar respostas. Também são necessários alguns cuidados que as farmácias não costumam ter: câmera ajuda muito a inibir e reconhecer depois, fumaça não tóxica que dificulta visibilidade”, diz Silva Filho em entrevista ao JOTA.
De carga grande para varejo capilarizado
Desde o lançamento no mercado brasileiro do Ozempic, em 2019, até o fim de 2023, na média foi notificada à Anvisa cerca de uma ocorrência criminal a cada dois meses envolvendo esses medicamentos, quase sempre vinculadas a roubos de carga, de centenas a milhares de caixas.
Mas, em 2024, quando esses medicamentos consolidaram sua popularidade e políticos passaram a debater o fornecimento gratuito pelo Sistema Único de Saúde (SUS), foi registrado o ponto mais alto do roubo de cargas, quando apenas 5 ocorrências no ano resultaram em 8.221 unidades desviadas. Em um único caso, em 14 de março de 2024, foram levadas 4.453 unidades em São Gonçalo do Sapucaí (MG).
Em 2025, porém, a dinâmica mudou. Foram 12 ocorrências criminais envolvendo roubo, extravio ou furto de medicamentos análogos a GLP-1, mas só 2.944 unidades. Em 2026, com base nos dados publicados pela Anvisa em 7 de julho, cuja última notificação envolvendo GLP-1 é de 19 de junho, foram registradas 7 ocorrências e 195 unidades de medicamentos roubados, furtados ou extraviados. A média de unidades por ocorrência caiu de 1.644 em 2024 para 28 em 2026, uma queda de 98%.
Essa queda se deve ao fato de que os criminosos trocaram o assalto às carretas pelo furto e roubo nas gôndolas das farmácias.
Esse ponto de virada coincide com a chegada às farmácias brasileiras das duas marcas mais novas: Wegovy, em agosto de 2024, e Mounjaro, em maio de 2025, ambas popularmente prescritas para uso estético ou emagrecedor.
Unidades desviadas por canal e ano
| Notificante | 2024 | 2025 | 2026* | Total |
|---|---|---|---|---|
| Farmacêuticas | 8.219 | 2.874 | 156 | 11.249 |
| Farmácias / varejistas | 0 | 57 | 36 | 93 |
| Distribuidores | 2 | 13 | 3 | 18 |
| TOTAL | 8.221 | 2.944 | 195 | 11.360 |
*2026 até 07/07. Fonte: Anvisa.
Os dados de 2024-2026 mostram que, no roubo de cargas, o principal alvo foi o Ozempic (presente em 5 das 8 cargas atacadas), seguido por Rybelsus, Wegovy e Saxenda, todos da Novo Nordisk, que viajam em caminhões refrigerados de distribuidoras e fabricantes. Foram 8 cargas atacadas no período (3 em 2024, 4 em 2025, 1 em 2026), responsáveis por 99% das unidades desviadas: 11.249 das 11.360 unidades totais.
Mas no varejo os criminosos atacam principalmente Wegovy, Ozempic e Mounjaro. Nesse canal foram 11 ocorrências criminais (nenhuma em 2024, 6 em 2025 e 5 até junho de 2026), com menos unidades roubadas por episódio, em geral entre 1 e 20 canetas por evento, mas frequência muito superior.
Entre as sete marcas analisadas, de janeiro de 2024 a junho de 2026, Wegovy (semaglutida em dose para obesidade) é o mais levado em frequência: 15 das 24 ocorrências criminais do período, com forte concentração em farmácias. Ozempic aparece em 13 ocorrências, mas teve mais unidades roubadas (8.414). Mounjaro aparece em 6 ocorrências, Rybelsus em 4, Saxenda em 4, Victoza em 4 e Trulicity em nenhuma.
RJ, SP, BA e PE concentram crimes
Pelos casos comunicados à Anvisa entre janeiro de 2024 e o começo de julho de 2026, é possível notar a concentração geográfica dos roubos dos medicamentos análogos a GLP-1, caso das canetas emagrecedoras. São Paulo foi o estado com mais casos no período: 14 das 24 ocorrências (58%), seguido pelo Rio de Janeiro (6), Bahia (2), Pernambuco (1) e Minas Gerais (1).
Só a cidade de São Paulo soma 10 das 14 ocorrências do estado. Já a capital fluminense concentra 4 das 6 do Rio. Em 7 de janeiro deste ano, uma única farmácia carioca sofreu com o roubo de 2 unidades de Mounjaro, 4 de Wegovy e 7 de Rybelsus. O estabelecimento fica na Estrada Adhemar Bebiano, uma das principais rotas de acesso ao Complexo do Alemão, o QG do Comando Vermelho no Rio de Janeiro, área historicamente associada a roubos de carga.
De Moema à Zona Leste de SP
Na capital paulista, houve casos até em bairros considerados nobres como Moema, Aclimação e Bela Vista, segundo análise dos registros publicados pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) na base “Objetos Subtraídos“. Os dados mostram que a polícia paulista registrou cerca de 21 vezes mais ocorrências criminais no estado do que as notificações comunicadas oficialmente à Anvisa. Entre 1º de janeiro de 2024 e 28 de março de 2026 (data do último registro disponível pela SSP-SP), pelo menos 249 boletins de ocorrência distintos citam roubo ou furto de Ozempic, Wegovy, Mounjaro, Rybelsus, Saxenda, Victoza ou Trulicity, o que resultou em 803 produtos roubados ou furtados. No mesmo período, a Anvisa havia registrado apenas 12 ocorrências criminais para o estado.
Se comparado o mesmo primeiro trimestre (1º de janeiro a 31 de março) em 2024, 2025 e 2026, o crescimento em São Paulo é evidente. Nos três primeiros meses de 2024, a SSP-SP registrou 16 BOs e 338 unidades de GLP-1 roubadas ou furtadas. No mesmo período de 2025, os números praticamente triplicaram: 37 BOs (+131%) e 990 unidades (+193%). No primeiro trimestre de 2026, foram 29 BOs e 1.198 unidades, mais que o triplo das 338 unidades do primeiro trimestre de 2024. De acordo com os BOs, também aumentou a quantidade média de medicamentos análogos de GLP-1 roubados ou furtados por ocasião: 2,4 em 2024, 3,1 em 2025 e 4,0 em 2026.
Dos 128 BOs registrados somente na cidade de São Paulo entre janeiro de 2024 e março de 2026, somando 3.099 unidades roubadas ou furtadas, há grande concentração na Zona Leste, que sozinha responde por 46 BOs e 1.303 unidades (42% do total). Os bairros mais atingidos da região em unidades levadas foram: Vila Formosa (217 unidades), Parque São Lucas (202), Sapopemba (155), Jardim Líder (153), Tatuapé (151), Alto da Mooca (77), Vila Carrão (62), Água Rasa (55), Vila Diva-Zona Leste (54), Mooca (48), Carrão (43), São Rafael (20) e Vila Prudente (20). Também há concentração em outras regiões: Moema (258 unidades, zona sul), Vila Anastácio (216, zona norte), Aclimação (153, zona sul), Tucuruvi (62, zona norte), Vila Leopoldina (56, zona oeste) e Brooklin (42, zona sul). Em 21 de agosto de 2025, só uma farmácia no Alto da Mooca teve levadas 67 unidades de Ozempic em 25 lotes diferentes.
“Caso de polícia e problema de saúde pública”
Para Paulo Maia, presidente da Abradimex (Associação Brasileira de Atacadistas e Distribuidores de Medicamentos Especiais), o problema do roubo de medicamentos é estruturalmente difícil. “Falo desse problema há, no mínimo, seis anos. Conseguimos dar destaque agora em razão do roubo das canetas, que beira o descontrole”, afirma.
Segundo ele, os medicamentos de alto custo, como os GLP-1, acabam cobiçados por criminosos, porque “são produtos pequenos com alto valor agregado”, fáceis de transportar e fáceis de revender.
“De certo esse medicamento volta pro mercado, porque tem alguém que compre. Ele volta sem controle sanitário e sem os efeitos que precisa ter para tratar a doença. Quando sai do controle sanitário, perde assistência, perde eficácia”, diz Paulo Maia, presidente da Abradimex.
Maia conta que uma carga recente roubada no Rio de Janeiro, avaliada em cerca de R$ 4 milhões, foi flagrada já em Brasília “para evitar a rejeição” do mercado paralelo do estado de origem. “Medicamento de alto custo é produto pequeno com alto valor agregado. Até um carro pequeno, comparado às carretas em trânsito, pode levar uma carga inteira”, descreve.
O dirigente diz que a entidade tem dialogado com a Anvisa, com a Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) e com legisladores sobre o problema. Há dois projetos de lei em tramitação no Congresso que tratam do roubo de cargas e são acompanhados pela Abradimex. O objetivo é criar agravantes específicos para quem rouba e para quem revende carga roubada de medicamentos. Maia também defende a regulação de plataformas digitais que comercializam medicamentos a hospitais sem fiscalização adequada.
“Tem que botar mais peso nisso, inclusive no receptador. E ter regulação em plataformas que estão entrando no mercado. Existem plataformas que vendem para hospitais e não têm regulação específica sobre isso”, acrescentou o executivo.
O risco específico das canetas
No caso dos GLP-1, há mais risco em consumir produtos roubados ou furtados, porque as canetas de Ozempic, Wegovy, Mounjaro, Saxenda, Victoza e Trulicity (Rybelsus é comprimido) exigem refrigeração contínua entre 2°C e 8°C. Os medicamentos perdem efeito quando expostos ao calor, à luz ou a oscilações de temperatura. Para Nelson Mussolini, presidente-executivo do Sindicato da Indústria Farmacêutica (Sindusfarma), isso é especialmente grave.
“No caso específico das canetas emagrecedoras, além do aspecto criminal, há um risco adicional e significativo à saúde da população, já que esses produtos precisam ser transportados e armazenados sob cadeia fria. Produtos desviados por meio de roubo certamente não seguem essas exigências, o que pode comprometer qualidade, eficácia e segurança, representando um sério risco aos pacientes. As autoridades devem garantir a segurança do varejo e proteger a sociedade”, afirmou Nelson Mussolini, presidente executivo do Sindusfarma.
O que diz a Anvisa
Procurada, a Anvisa afirmou ao JOTA que a verificação dos lotes roubados é “essencial para proteger a saúde pública”. Segundo a agência, quando um medicamento sai da cadeia regular, ele pode ter sido armazenado de forma inadequada, adulterado, contrabandeado ou falsificado e por isso passa a ser considerado impróprio para uso, “mesmo que aparente estar intacto”.
Esse tipo de caso é regulado pela RDC 430/2020, que estabelece as Boas Práticas de armazenamento, distribuição e transporte para a cadeia farmacêutica. Segundo a norma, fabricantes e distribuidoras devem monitorar continuamente os alertas da Anvisa, rastrear a distribuição (mapa de distribuição) e comunicar à agência qualquer suspeita. Farmácias devem qualificar fornecedores, conferir lotes contra notas fiscais, consultar o portal da Anvisa antes de receber e segregar produtos sob suspeita.
Para o consumidor, a agência orienta verificar se o lote e a data de validade estão dispostos e legíveis na caixa, se há tinta reativa ou selo de rastreabilidade, se o lacre de segurança está íntegro e, sobretudo, comprar apenas em estabelecimentos regularizados. Os dados de roubo, furto e extravio são públicos e podem ser consultados em www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/fiscalizacao-e-monitoramento/roubos-furtos-e-extravios. A Anvisa lembra ainda que os roubos ocorridos em farmácias e drogarias são consolidados pelas polícias civis, e não pelo sistema federal de notificação, o que pode subdimensionar ainda mais o problema.
Procuradas, a Novo Nordisk (dona de Ozempic, Rybelsus, Victoza, Wegovy e Saxenda) informou que não iria comentar e a Eli Lilly (dona de Mounjaro e Trulicity) informou que “acompanha com atenção os relatos relacionados à segurança no varejo farmacêutico e reforça que a proteção de pacientes, profissionais e estabelecimentos deve ser prioridade em toda a cadeia de saúde”.
A farmacêutica reforçou que seus medicamentos devem ser comprados somente em canais “regulares e autorizados”, pois versões roubadas ou furtadas podem ameaçar a saúde de pacientes.
“Entendemos que esse cenário reflete um desafio mais amplo de segurança pública, cuja responsabilidade de prevenção e combate cabe às autoridades competentes. Trata-se de uma questão que impacta diferentes setores e demanda ações coordenadas para garantir a integridade de todos os envolvidos. Reforçamos que nossos medicamentos devem ser adquiridos exclusivamente por meio de canais regulares e autorizados. Produtos fora dessa cadeia podem ter tido sua integridade comprometida, colocando em risco a segurança do paciente”, informou a Eli Lilly em nota ao JOTA.