Garcia Pereira Advogados Associados

“O mais belo som próximo do silêncio”. Este foi o lema escolhido por Manfred Eicher, 78 anos, para o sofisticado selo ECM (Edition of Contemporary Music) por ele fundado em 1969. Em mais de 1.700 registros fonográficos – de jazz ou de música “erudita” – a etiqueta sediada em Munique mantém um padrão elevado de exigência e de refinamento, como aquele que se lê nos rótulos dos grandes vinhos alemães: “Qualitätswein mit Prädikat” (“vinho com predicado” ainda superior ao “vinho de qualidade”).

Naked Truth, o mais recente lançamento jazzístico da ECM (25/2), deve ser ouvido e apreciado com a epígrafe de Eicher em mente. Trata-se de uma suíte do trompetista-compositor israelense Avishai Cohen à frente do seu quarteto com os compatriotas Yonathan Avishai (piano), Baraki Mori (baixo) e Ziv Ravitz (bateria). São nove partes, com tempos de duração variando de apenas 50 segundos a 7m35. Na última faixa, Departure (4m25) – a única com um subtítulo – o trompetista recita o poema assim nomeado de Zelda Mishkovsky (1914-1984), bem afinado com o mood de sua música.

Lembre-se que Avishai Cohen é irmão da clarinetista Anat, vencedora na sua especialidade das votações anuais dos críticos da revista Downbeat desde 2010. E também do saxofonista soprano Yuval. E que os três, todos ainda na faixa dos 40, formaram-se no Berklee College of Music de Boston, ganharam fama mundo afora em concertos e festivais com o conjunto por eles batizado de 3 Cohens.

Mas voltando Naked Truthlê-se na apresentação do novo CD pela gravadora de Manfred Eicher, com muita propriedade, tratar-se de “uma busca” marcada, ao mesmo tempo, pela “beleza e vulnerabilidade do som do trompete de Cohen naquele que é o seu disco mais significativo para a ECM, em termos de improvisação”.

Aos 43 anos, o irmão mais moço de Anat e de Yuval não esconde ter como referência seminal, em termos de poética musical, o cool jazz melancólico do Miles Davis dos anos 50/60. Mas chegou ao mesmo nível técnico e criativo do italiano Enrico Rava, cujos 80 anos, feitos em 2019, foram celebrados num concerto em Antuérpia, Bélgica, registrado pela ECM em Edizione Speciale

Agora, no quinto álbum como líder para o selo de Eicher (o primeiro foi Into the Silence, 2016)Avishai Cohen mais do que confirma o seu “senso imperturbável de fraseado”, para citar o reviwer Filipe Freitas, do site JazzTrailO pistonista usa a surdina nas partes 2, 3 e 7 do novo álbum. A oitava faixa (4m30) da suíte é – digamos – a mais movimentada em matéria de apoio rítmico. O que não significa que o pianista Yonathan, o baixista Baraki e o baterista Ziv sejam meros acompanhadores. Eles são também membros criativos do quarteto, com realce para o pianista (partes 2,3,5 e 8), o baixista (parte 1) e o baterista (parte 5).

Ouça “Parte 2”: 

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