Uma passada de olho rápida sobre os dados de pesquisas eleitorais deste mês mostra que pouca coisa mudou desde dezembro de 2021. Esta é a primeira importante consideração a ser feita sobre os resultados disponibilizados nos institutos de pesquisa sobre a avaliação do governo, reunidos nos Agregadores do JOTA.
A opinião dos brasileiros parece ter entrado em recesso junto com as festas de fim de ano e segue aguardando a retomada dos trabalhos em Brasília, assim como a definição do cenário político para as eleições de 2022. Espera-se maior movimentação de partidos e lideranças políticas mais perto do prazo final para o anúncio de candidaturas que disputarão os pleitos. Mesmo com pouca novidade, uma segunda consideração geral também pode ser feita a respeito dos dados deste mês de fevereiro. Se o presidente Jair Bolsonaro (PL) conta com uma reeleição, é bom ser informado de que suas chances vão mal. Bem mal.
Essa segunda observação fica mais clara ao se comparar a desaprovação do presidente Bolsonaro com os dados referentes a Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Lula (PT) e Dilma Rousseff (PT) quando estes tentavam reeleição. FHC, em 1998, e Lula, em 2006, somaram, cada, um pouco mais de 20% de avaliação negativa. Dilma, ainda que mais mal avaliada do que os colegas, chegou a 27% de avaliação negativa em 2014, bem longe dos 52,5% conquistados por Bolsonaro em fevereiro deste ano. Em outras palavras, Bolsonaro conseguiu, neste ano eleitoral, que mais da metade população votante no Brasil avalie negativamente seu governo.
Olhando os resultados com um pouco mais de atenção, dá para ver que a rejeição continua a se concentrar majoritariamente entre mulheres mais pobres (mas não só entre elas), tendo piorado do último mês para cá. Parece que o peso do desemprego e da diminuição de renda nesse grupo, com os quase dois anos de afastamento dos filhos das escolas (que sequer tiveram condições de oferecer o ensino remoto), somados à campanha tresloucada e absurda do presidente contra a vacinação de crianças, resultaram num afastamento praticamente irreversível. Assim como apontei na coluna de janeiro, as mulheres continuam sendo a força motriz da rejeição a Bolsonaro.
Por mais importante que sejam esses resultados do ponto de vista eleitoral, proponho a partir daqui uma outra discussão. Frequentemente me perguntam como é que se explica essa base bolsonarista fiel, consolidada e disposta a brigar por um presidente cuja população foi castigada por sua péssima administração.
Embora Jair Bolsonaro esteja com uma avaliação negativa preocupante para um candidato à reeleição, é também verdade que o presidente conseguiu, desde as eleições, manter uma base fiel e consolidada, beirando os 25%. Para o estado geral em que se encontra a sociedade, é algo que não dá para desprezar, tanto do ponto de vista eleitoral, já que é com ela que o presidente conta para chegar ao segundo turno e se manter na competição, quanto das expectativas que faremos sobre o Brasil sem Bolsonaro (se isso se confirmar), mas com quase ¼ da população que vota apoiando suas ideias.
Toda essa divagação leva a alguns questionamentos. Como continuam apoiando? Por quê? Bem, na minha opinião, essa é a pergunta de US$ 1 milhão, a mais difícil de responder. Não consigo enxergar nenhuma resposta rápida, mas talvez ajude com algumas reflexões que tenho feito sem o compromisso de uma análise empírica. Esses pensamentos são muito mais frutos de uma indignação que me acompanha desde as eleições de 2018.
Tenho insistido que Bolsonaro aglutinou a seu favor grupos com interesses distintos, embora com alguns valores comuns e bem específicos. Hoje eu acredito que, para além das diferenças, há um determinado tipo de subjetividade, com traços difíceis de enxergar rapidamente e a olho nu, mas que estavam por aí distribuídos em nosso tecido social.
Um dos traços característicos seria uma determinada tolerância para a perversidade (em diferentes níveis e elaborações), o desprezo ou, ao menos, a pouca preocupação com outros seres humanos que não compartilham de determinados valores parecidos (em níveis diferentes também). Ficando mais evidentes em momentos específicos, como a pandemia do coronavírus, por exemplo, na qual assistimos horrorizados ao comportamento coletivamente destrutivo de tanta gente.
Nesse sentido, o bolsonarismo, o olavismo, o lavajatismo, a nova direita jovem e provocadora e tantos outros movimentos que orbitaram esse universo foram alimentando intensamente um certo, digamos, “desbloqueio do superego”, um desavergonhamento na defesa pública de qualquer barbárie ou, pelo menos, daquilo que antes se estabeleceu como bárbaro. É como se essa liderança liberasse a consciência e a fala daqueles que não engoliram o tal politicamente correto colocado a partir das agendas públicas de governos eleitos nas últimas décadas. Esse politicamente correto passa a ser um valor fundamental dos novos tempos e produto de uma ordem democrática e plural.
O bolsonarismo é, portanto, a força que atua na contramão dessa dinâmica, e Bolsonaro, por tantos motivos, passa a atuar como porta-voz preferencial para liberar a consciência de quem não tolerou essas mudanças.
O trabalho desses grupos no dia a dia passou também por normalizar e desconstruir ideias e regras já colocadas em acordos civilizatórios. E mesmo que não tivessem sido originalmente “organizados” em prol de uma militância política, mas como reação às sucessivas crises pelas quais o Brasil passou nos últimos anos, os “pré-apoiadores” de Bolsonaro conseguiram legitimar ideias que, à luz da civilidade, nos parecem bizarras e desumanas.
O ponto a que quero chegar é que Bolsonaro e esse ideário não apareceram como geração espontânea, mas foram construídos pouco a pouco a partir de ambientes propícios. Um exemplo disso são as teorias conspiratórias em relação às vacinas contra a Covid-19. Em uma das pesquisas de que participo no grupo do laboratório de pesquisa do neurocientista Paulo Boggio, constatamos que indivíduos cujas características se aproximam do tal “bolsonarista raiz”, isto é, cujos valores se associam mais à extrema direita no espectro ideológico, tenderam a acreditar mais em teorias conspiratórias, do tipo “vacinas carregam chip”, durante a pandemia da Covid-19. Portanto, teremos que lidar com eles para além do calendário eleitoral. O que então nos leva a questionar: e como não vimos antes?
Talvez a resposta mais fácil seja a de que simplesmente não estavam no nosso horizonte de preocupações (ou pelo menos da maioria das pessoas) nem dos grupos mais estabelecidos no debate político, pois permaneciam em guetos, em sítios pouco conhecidos da internet, longe dos olhos da justiça, onde não havia monitoramento, onde as pesquisas de opinião não se preocupavam em entender por quê. Era como se a sociedade estivesse enxergando com olhos velhos um mundo totalmente novo e escondido, principalmente, nas redes sociais. E foi por isso o nosso susto. Embora seja razoável pensar que sem uma liderança nefasta (ou algumas) movimentos tendem a se dissolver, dinâmicas sociais mostram que novas lideranças podem aparecer com condições para reorganizar e mobilizar grupos em torno de velhas ideias. Portanto, não se iludam, teremos muito trabalho pela frente em qualquer cenário após outubro de 2022.