Garcia Pereira Advogados Associados

Natalino Irti, emérito professor e jurista italiano da Universidade de Parma e da Universidade La Sapienza, de Roma, lembrou, em artigo antológico, ser a alma universitária eternizada na continuidade entre professores e alunos, graças à cadeia de constante doação intelectual. E que nesse devir há professores especiais, notavelmente vocacionados, a inspirar e fazer despertar o lampejo acadêmico de seus discípulos. Uma dinâmica virtuosa, enfim, em que subjaz a ideia-força da importância dos estudos, da cultura e da erudição, a promover o colimado e necessário progresso da humanidade.

René Ariel Dotti, multifacetado advogado, escritor e humanista, falecido há um ano, em 11 de fevereiro de 2021, foi claramente desses mestres essenciais, um dos mais versados e influentes scholars brasileiros, professor catedrático da Universidade Federal do Paraná, emérito cultor do direito, mas ainda amante intransigente das humanidades e das artes, de seus teatros, bibliotecas e museus.

Sem nunca descurar da advocacia e da cátedra, René Dotti colaborou decisivamente para o aggiornamento do direito brasileiro, tanto por meio de livros de doutrina, como por sua decisiva participação em congressos e comissões do Ministério da Justiça. Redator incansável de anteprojetos e de exposições de motivos, foi constante presença em audiências públicas do Congresso Nacional e na Assembleia Nacional Constituinte. Nesta, em particular, era oráculo da intelligentsia — com Miguel Reale Júnior — para a concepção do antológico artigo 5º da Lei Maior, sempre consultados em primeira hora por Ulysses Guimarães, Marco Maciel, Cabral e Jobim. Na advocacia organizada, no Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), exímio orador, atuou a primar pela defesa de valores republicanos, da humanização das penas e da sacralidade da democracia e das garantias fundamentais.

Como colaborador da imprensa, Dotti foi assíduo colunista e requisitado autor de artigos de opinião, publicados por décadas a fio nos principais veículos do país. Textos luminares, muitos dos quais ainda disponíveis em dotti.adv.br, escritos finamente cinzelados em cultura invulgar, verdadeiros documentos históricos a retratar as ingentes mudanças verificadas na momentosa vida brasileira da última transição de séculos.

Bem a propósito dessa genealogia que deve permear a perenidade universitária, da qual falava Natalino Irti, feliz exemplo deu-se na recente sucessão de René Dotti em duas academias culturais, quando as cadeiras por ele ocupadas foram preenchidas por ex-alunos: Clémerson Merlin Clève, para a cadeira 23, da Academia Paranaense de Letras, e Luiz Eduardo Gunther para a cadeira 3, da Academia Paranaense de Letras Jurídicas. Não apenas juristas, como o Dotti ensinava, os dois empossados passaram para bem além da Taprobana, como intelectuais refinados e cosmopolitas, inspirados no compromisso com a beleza das artes e com o humanismo indeclinável da civilização.

Atentos à condição humana, desde estudantes, nos anos 1970, Luiz Eduardo Gunther e Merlin Clève produziram literatura de qualidade, teatro, poesia e prosa, ainda na ambiência clássica da Faculdade de Direito, na curitibana praça Santos Andrade. Um cenário perfeito, ateneu de escalonata, colunas e capitéis em branco, verdadeiro monumento de beleza incomum. Ainda desses tempos seminais, de conferências e de congressos literários, já eram acolhidos em privilegiado círculo de prosa e verso, com Helena Kolody, Paulo Leminski e Wilson Martins, autor da ainda insuperada “História da Inteligência Brasileira”. Imbuídos pelo exemplo, os novos acadêmicos construíam seus percursos intelectuais além de becas e de togas, com múltiplos empenhos no universo jurídico, a observar a máxima de Saramago, “não tenhamos pressa, mas não percamos tempo”.

É de rigor concluir que, para René Ariel Dotti, por sua vida e obra, o cotejo docente foi também mister de constante cultivo de excelência, na busca demiúrgica dos futuros guardiões do templo, no ciclo inexorável da renovação e da continuidade da flama universitária. Ou, por outra, em perspectiva mais singela, apenas a perpetuação da vida e da obra de professores imortais: ars longa vita brevis.