Garcia Pereira Advogados Associados

Enquanto Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) disputam a liderança das pesquisas eleitorais para presidente da República, no pelotão logo abaixo um nome desponta como surpresa: Renan Santos, pré-candidato pelo recém-criado partido Missão, varia de 3% a 6% no eleitorado geral, consolidando-se na terceira colocação, em empate técnico com outros nomes da “terceira via”, conforme as mais recentes sondagens feitas por diferentes institutos.

Embora o índice de Renan Santos ainda esteja bem abaixo da pontuação dos líderes, o pré-candidato vem apresentando um crescimento constante desde que foi lançado para presidente.  Aos 42 anos, Renan Santos é músico e nunca disputou uma eleição. Apesar de ser um novato,  aparece tecnicamente empatado com veteranos como Ronaldo Caiado (PSD), que há 37 anos disputa eleições, e à frente de outros políticos muito conhecidos, como Romeu Zema (Novo).

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Alternando propostas que têm grande apoio da população, como matar bandidos e combater o crime organizado, com ideias mais radicais, o partido e o pré-candidato proclamam ser a “terceira via” real no cenário polarizado entre Lula e Flávio Bolsonaro.

Aliado de Jair Bolsonaro na eleição de 2018, um ano depois o grupo político de Renan Santos rompeu com o então chefe do Executivo e hoje faz contra o filho pré-candidato do ex-presidente ameaças semelhantes àquelas outrora perpetradas por Jair contra os petistas. “O traíra tem que morrer, e o traíra é o Flávio Bolsonaro. Ele precisa ser destruído, e eu vou acabar com a raça do Flávio Bolsonaro”, afirmou Renan Santos durante uma live em janeiro deste ano.

Depois disse que se referia à morte política do adversário. As ameaças a Lula, chamado por ele de “o grande larápio da nação”, não são muito diferentes.
Embora nunca tenha concorrido a cargo público, Renan Santos é figura bastante ativa na vida pública brasileira há mais de uma década. Em novembro de 2014, foi um dos fundadores do Movimento Brasil Livre (MBL), grupo político de direita que ganhou fama na internet, conquistou milhões de seguidores e, em 2016, liderou protestos pelo impeachment da então presidente Dilma Rousseff (PT).

O grupo ficou famoso por vídeos nos quais provocava adversários políticos, muitas vezes, até que houvesse reação violenta, e pela produção de memes, como são chamadas imagens, textos ou pequenos vídeos com efeito humorístico disseminados pela internet. Em uma das publicações que mais repercutiram, o MBL ajudou a difundir a versão (mentirosa) de que a vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco (PSOL), assassinada na capital fluminense em março de 2018, tinha ligações com traficantes de drogas.

Principal pilar de mobilização do MBL, as redes sociais também são o principal meio de divulgação dos projetos políticos da Missão (os integrantes do partido usam o gênero feminino, em vez de o Missão) e de seu pré-candidato a presidente, que está viajando pelo Brasil de carro para divulgar suas ideias e gravar vídeos.

Nesta próxima eleição, o partido não terá direito a participar do horário eleitoral gratuito na TV e no rádio, que começa em 28 de agosto, mas Renan tem 1,5 milhão de seguidores no Instagram, onde posta vídeos em que, a partir de temas atuais, dissemina suas ideias. Nos últimos dias, por exemplo, ele fez postagens sobre a escala 6×1, frei Gilson, política no Rio de Janeiro e uma pesquisa eleitoral que registrou seu aumento nas intenções de voto.  O número de visualizações de cada post é alto. Seu principal público são os homens de 16 a 34 anos, grupo no qual tem a maior proporção de intenção de votos.

Outra importante fonte de disseminação das ideias de Renan Santos são os grupos de WhatsApp. Monitoramento feito pela empresa Palver em mais de 100 mil grupos públicos do aplicativo entre 6 e 24 de maio deste ano indicou que apenas Renan Santos, Lula e Flávio Bolsonaro têm militância digital própria. Zema e Caiado não dispõem desse apoio e são alvos frequentes de críticas dos apoiadores de seus adversários.

Entre as ideias radicais do partido, destaca-se uma defendida por Orlando Lima, um dos líderes do Missão: acabar com o voto universal. “Temos que fazer uma gradação da cidadania”, já defendeu publicamente. “Eu acredito que as pessoas que não têm propriedade, que recebem auxílio do governo, enfim, você tem uma série de limitações ali. Essas pessoas tinham que ter apenas os direitos básicos.”

Fundação do MBL

Renan Santos nasceu em 1984, em São Paulo, filho de um advogado e de uma psicóloga. Morou na Mooca (zona leste) e ingressou na faculdade de Direito da USP, mas abandonou o curso antes de se formar. Em seu perfil no Instagram, apresenta-se como guitarrista da banda Limão Rosa.

Começou a ganhar fama durante os protestos que tomaram as ruas do Brasil em junho de 2013. Na ocasião, sua principal bandeira era a rejeição da Proposta de Emenda Constitucional 37. Apresentada em 2011 pelo então deputado federal Lourival Mendes (PTdoB-MA), a proposta proibia o Ministério Público de investigar crimes. Com a mobilização popular, a PEC foi rejeitada pela Câmara dos Deputados.

Em 2014 Renan Santos fundou o MBL, cujo embrião foi um grupo político com perfil semelhante criado por ele mesmo em Vinhedo (SP). Após impulsionar o impeachment de Dilma Rousseff, ocorrido em 2016, o MBL apoiou iniciativas do governo de Michel Temer (PMDB) e, em 2018, a candidatura de Jair Bolsonaro, então no PSL, à Presidência.

Em 2019, o grupo rompeu com o então presidente que ajudou a eleger e, na eleição de 2022, defendeu o voto nulo, o que gerou uma onda de ataques perpetrados por aliados de Bolsonaro.

Guerra, viagens e polêmicas

O MBL e o próprio Renan Santos também se envolveram em várias polêmicas de comportamento. Em setembro de 2017, o grupo participou da campanha contra a exposição Queermuseu, com obras de artistas famosos sobre o universo LGBTQIA+, em Porto Alegre, que acabou interrompida. Dias depois, lançou uma campanha contra uma performance artística realizada no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Segundo o MBL, o ato promovia a erotização de crianças.

Em 2022, Arthur do Val, integrante do MBL eleito deputado estadual em São Paulo pelo Democratas, viajou para a Ucrânia, que havia sido invadida pela Rússia. O objetivo declarado era apoiar os ucranianos. Uma vaquinha arrecadou R$ 275 mil que seriam usados para comprar produtos de primeira necessidade a serem entregues às vítimas da guerra. Mas, em uma conversa de WhatsApp com amigos, do Val, que é conhecido como Mamãe Falei, afirmou que as mulheres ucranianas “são fáceis porque são pobres” e que a fila de refugiados tinha mais mulheres bonitas que “a melhor balada do Brasil”. Os comentários ensejaram a cassação do deputado pelos pares na Assembleia Legislativa de São Paulo.

Nesse conjunto de áudios, do Val contou que Renan Santos fazia uma viagem anual pela Europa com o objetivo de “pegar loiras”: “O Renan faz uma viagem todo ano, ele chama tour des blondes. Ele viaja os países e vai só para pegar loira. Ele tem técnicas, ele está avançado. Pra começar, ele fala sueco, o cara é viciado nisso”.

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O próprio Renan já havia contado essa história na internet, em um vídeo de 2020: “Uma vez, eu estava muito focado em xavecar gringa. Aí, eu ficava indo para fora do Brasil. Eu falo sueco, aprendi, elas são muito gatas, vou pegar”, disse no podcast Flow.

Propostas

As principais propostas de governo do pré-candidato do Missão estão expostas em suas redes sociais. Sete delas são enumeradas em uma postagem de novembro de 2025. O partido defende que integrantes do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC), as duas principais facções criminosas brasileiras, recentemente declaradas terroristas pelo governo norte-americano, não tenham direito a “um processo criminal com ampla defesa”.

Trata-se da teoria do Direito Penal do Inimigo, que classifica os réus dos processos penais em cidadãos (pessoas que têm histórico de correção, réus primários) e não-cidadãos (pessoas com histórico de reincidência criminosa).

Outra proposta é de desfavelização. “Favelas não são apenas lugares com condições subhumanas de vida. Se tornaram (sic) QGs de facções, que sequestram os trabalhadores que lá vivem. A cultura que sai desses lugares, os problemas e a falta de perspectiva não devem ser romantizados. A cadeia de reprodução de desvantagem – famílias sem figura paterna – são o maior alimento para a criação do crime organizado”, afirma o texto. “O Brasil precisa de um gigantesco plano de habitação para acabar com tudo que a favela representa hoje”, conclui a postagem.

Outras propostas são declarar “guerra contra o crime organizado”; tirar os direitos políticos das pessoas que, uma vez eleitas, não entregarem melhorias em índices de educação, saneamento, saúde e segurança; criar mutirões “anti Bolsa-Família” e tirar o direito ao benefício de pessoas em idade economicamente ativa que se recusarem a trabalhar; fundir municípios que não sobrevivem sem verbas federais ou estaduais; e “levar atividades produtivas para os interiores, especialmente do Nordeste”.’