“Um economista é um especialista que saberá amanhã por que as coisas que ele previu ontem não aconteceram hoje.”
Laurence J. Peter
Toda a ação de sucesso em assuntos de Estado depende de um exercício prévio de conjectura bem conduzido. O filósofo e economista francês Bertrand de Jouvenel afirmava que em muitos casos nos quais o exercício da conjectura se prova infundado isso ocorre devido ao erro crasso de se negligenciar um fator específico crucial, como o caráter dos agentes envolvidos, por exemplo. “A assinatura do Acordo de Munique com Hitler não tinha o mesmo significado futuro que teria com um Stresemann ou um Brüning”, ilustra Jouvenel.
No que tange à seara da economia e das finanças, um fator específico frequentemente ausente em grande parte das análises acerca dos impactos das medidas de contenção da pandemia da Covid-19 e da velocidade de uma eventual recuperação global é o da “propensão marginal a consumir”(PMC). Trata-se, cara leitora, de um conceito que busca quantificar os elementos subjetivos da decisão de consumir ou poupar, para entender os seus impactos no quadro geral do funcionamento da economia.
O conceito de propensão marginal a consumir foi desenvolvido por John Maynard Keynes em seu clássico “Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”. Em linhas muito gerais, o conceito procura mensurar a quantidade extra de consumo das pessoas a partir de uma unidade extra de rendimento, que pode ser um dólar ou um real. Como as pessoas não tendem a consumir toda a renda extra que recebem, poupando normalmente uma parcela dela, a propensão marginal a consumir é sempre menor do que 1. O importante aqui é que cada medida de estímulo fiscal ou monetário possui um efeito multiplicador pela economia, para mais ou para menos, cuja magnitude é definida precisamente pelo nível da propensão marginal a consumir. Em outras palavras, cara leitora, a eficácia das medidas de contenção dos efeitos econômicos da pandemia de SARS-Cov-2 dependem diretamente do agregado da PMC de uma determinada economia.
O problema, no contexto atual, é o de que, dado que a PMC é determinada por componentes subjetivos, isto é, psicológicos, uma alegada renda extra pode ter o feito oposto de diminuir a PMC, reduzindo o crescimento econômico, porque as pessoas estariam inseguras demais para consumir, o que, dado o efeito multiplicador do estímulo inicial, agora invertido, teria o efeito contrário de minimizar a poupança agregada e, consequentemente, contrair o investimento e o crescimento econômico.
Trata-se, cara leitora, do chamado Paradoxo da Parcimônia, segundo o qual o excesso de poupança individual leva a uma redução da poupança agregada. Isso se dá, porque, na vida real, se as pessoas consomem menos e poupam mais, as vendas vão cair e os produtores vão reduzir o investimento até que a economia encontre um novo ponto de equilíbrio, necessariamente abaixo do nível inicial do PIB. Ou seja, uma política de estímulos mal conduzida pode ter o efeito contrário ao pretendido.
Keynes argumenta que “em condições psicológicas normais um aumento do emprego somente será associado a um declínio do consumo se ao mesmo tempo houver uma mudança na propensão a consumir como resultado, por exemplo, de propaganda em tempos de guerra em favor de restringir o consumo individual”. A leitora atenta, certamente, não terá dúvidas que vivemos em condições psicológicas longe das normais nesses tempos de pandemia.
O cenário internacional, de fato, é pouco inspirador para um aumento do consumo. Com crescentes tensões na Ucrânia, no Mar do Sul da China e no Oriente Médio, além de um cenário de pandemia persistente, com a possibilidade sempre presente de uma nova variante, ou mesmo de um novo vírus que surja para fustigar a humanidade, aliadas a um ambiente estruturalmente inflacionário, qualquer analista sensata iria rever para baixo os seus cálculos de PMC, incluindo sempre em seus prognósticos as possibilidades de verificação de um Paradoxo da Parcimônia.
Nessa linha, o próprio Fundo Monetário Internacional (FMI), em sua última atualização do relatório “Global Economic Outlook”[1], de janeiro corrente, revisou para baixo a sua expectativa de crescimento global para 4,4%, ou seja, 0,5 ponto abaixo do previsto na atualização anterior de outubro de 2021. Os culpados pelo aumento do pessimismo global são justamente o trio ômicron, disrupção das cadeias globais e inflação.
O comentarista-chefe de economia do “Financial Times”, Martin Wolf, avalia[2] que a revisão da estimativa de crescimento do FMI é “demasiado otimista”, especialmente diante dos atuais riscos geopolíticos. “Uma questão particularmente interessante”, aponta Wolf, “é a de como administrar um mundo em que a maioria dos países decidiu viver com a Covid-19, enquanto a China decidiu a suprimir. Isso sugere um fechamento permanente das fronteiras ao movimento de pessoas. Esta seria uma nova cortina de ferro — uma quarentena de ferro.” Em outras palavras, Wolf questiona quais impactos a chamada “Segunda Guerra Fria” terá sobre o crescimento da economia global.
Nesse contexto, o caso do Brasil é particularmente delicado. O FMI projeta um crescimento de apenas 0,3% do PIB em 2022, o que, em um ambiente cuja inflação está no patamar dos dois dígitos, significa contração real da economia. A chave para se enfrentar essa situação está em uma avaliação muito fina, não apenas da PMC agregada, mas das diversas PMCs setoriais e regionais. O maior risco dessa análise é o de cair no que o economista norte-americano Paul Samuelson chamava de “falácia da composição”, isto é, confundir o dado microeconômico, individual, com o agregado macroeconômico.
País com enormes desigualdades sociais e regionais, estima-se que a PMC do brasileiro, em média, seja bastante alta, acima de 0,9. Em outras palavras, mesmo com renda extra, fruto das políticas de incentivos, a população ainda não consegue poupar, gastando praticamente toda a sua renda em consumo. Keynes aponta que, em situações como essa, de que a PMC está muito mais próxima da unidade do que de zero, tem-se “o pior dos dois mundos, com flutuações severas no nível de emprego e, ao mesmo tempo, o incremento necessário do investimento para se atingir o pleno emprego é demasiado grande para ser realizado com facilidade”.
O resultado é que o nível de equilíbrio do pleno emprego da economia é baixo, e qualquer estímulo mal conduzido somente teria o efeito de disparar uma espiral inflacionária. “Qualquer tentativa de aumentar o investimento irá desencadear uma tendência dos preços-monetários de aumentar sem limites, independente da PMC, i.e. nós teremos atingido um estado de inflação real”, alerta Keynes.
Essa análise encontra corroboração nos últimos dados da economia brasileira que entrou em recessão técnica, após o PIB ter recuado 0,1% no terceiro trimestre de 2021. Some-se a isso o fato de a inflação ter fechado o agregado do ano em alta de 10,06%, o que aponta para um quadro de estagflação da economia brasileira, com fortes indícios de que os estímulos fiscais e monetários teriam caído no Paradoxo da Parcimônia.
A questão, cara leitora, a partir desse diagnóstico passa a ser eminentemente prática: como resolver o paradoxo, retomando o crescimento econômico e, ao mesmo tempo, controlando a inflação? Aqui as respostas possíveis divergem, de acordo com a linha teórica adotada pela analista.
Para as seguidoras das escolas clássica e neoclássica, o pressuposto é que salários e preços são flexíveis o bastante para manter a economia sempre próxima do pleno emprego. Nesse cenário, um aumento da poupança diminuiria a demanda, mas deixaria a produção estável, trazendo a economia para um equilíbrio em um patamar mais baixo e reduzindo a inflação. O aumento da poupança, por sua vez, traria um aumento correspondente do investimento, fazendo com que a economia cresça no médio prazo.
Já para as seguidoras da escola keynesiana, salários e preços não seriam flexíveis, fazendo com que um aumento da poupança gerasse uma queda desproporcional da produção e do emprego. O fundamental para essa linha teórica é a manutenção do emprego em uma situação de recessão econômica, já que se o emprego se dissolver a recessão poderá se transformar, rapidamente, em depressão. O investimento, segundo essa escola, pode ser postergado até que a economia atinja o nível do pleno emprego. Trata-se de uma avaliação da situação análoga a de um paciente em uma UTI.
É importante ter em mente que essas posições teóricas foram formuladas em contextos e economias de características muito diferentes daquelas da economia brasileira. No caso do Brasil, um complicador adicional é o da necessidade de se adaptar as chaves teóricas para a complexa realidade nacional. Em tudo precisamos realizar um processo antropofágico.
A economia brasileira, assim, parece estar padecendo dos impasses dos dois modelos teóricos. De um lado, não há poupança interna disponível para, mantendo o nível de emprego, elevar o nível de poupança para aumentar o investimento e gerar crescimento no médio prazo. Ou seja, não há recursos excedentes internos para o remédio clássico e neoclássico. De outro lado, ainda que venha apresentando queda, o nível de desemprego no país ainda está muito elevado se comparado com a série histórica. Haveria espaço, então, ao menos em tese, para políticas de estímulos fiscais e monetários que precisariam ser finamente calibradas para aumentar o nível de emprego da economia, em linha com o remédio keynesiano.
O problema crucial aqui, é o da desagregação das cadeias produtivas globais, causadas pela pandemia da Covid-19. É possível que o lado da produção não consiga, ao menos no curto prazo, absorver um aumento maior da taxa de emprego. Nesse caso, a saída seria justamente o remédio clássico e neoclássico para os quais o país não dispõe de recursos: poupança e investimento para aumentar o nível de produção da economia. Sem isso o estímulo será inócuo, gerando apenas inflação. O problema se resume, então, a seguinte pergunta: poupança e investimento de quem, cara pálida?
O resultado final parece apontar para um círculo vicioso: há um alto nível de desemprego no Brasil que, para ser absorvido pelo setor produtivo, necessitaria de um aumento da poupança que permita o investimento necessário para que o setor produtivo cresça e absorva a mão de obra excedente. A chave do problema está na PMC: o seu nível está muito próximo da unidade, sem, contudo, a economia estar no pleno emprego, gerando um quadro clássico de estagflação, que seria agravado por uma política de estímulos fiscais ou monetários, já que o cenário anormal não recomenda um aumento do consumo em caso de renda extra.
A saída, assim, seria atuar em duas frentes, aparentemente antagônicas: manter o estímulo ao consumo e, ao mesmo tempo, aumentar o nível de investimento. O problema é que não há poupança interna o suficiente para isso, em que pese o Paradoxo da Parcimônia, em uma situação muito parecida com a apontada por Keynes acima descrita. Em suma, apesar de todo o esforço, mata-se o consumo em prol de uma poupança claramente insuficiente, gerando desemprego e inflação. Bem-vinda aos anos 1980, cara leitora. O Brasil não é para principiantes.
[1] https://www.imf.org/en/Publications/WEO/Issues/2022/01/25/world-economic-outlook-update-january-2022.
[2] https://www.ft.com/content/f681bdeb-f93a-4ec4-8356-77caf70f1c28