Garcia Pereira Advogados Associados

*Este artigo é o terceiro de uma série analisando os desafios que o governo Lula terá para se reeleger em 2026. Clique aqui para ler o primeiro e aqui para o segundo.

O desemprego diminuiu (5,4% em junho, o menor da série histórica para o mês), a renda média mensal dos brasileiros aumentou (R$ 3.367 em 2025, crescimento de 5,7% em relação a 2024), o PIB cresceu (cerca de 3% ao ano desde 2022) e os mais pobres estão pagando menos imposto de renda.

Apesar desses indicadores positivos dos últimos anos, o endividamento dos brasileiros atingiu nível recorde em julho de 2026, com 82% das famílias endividadas, segundo dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

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Quais fatores estão por trás desse aumento do endividamento das famílias? Para responder a essa questão, partiremos de uma visão sistêmica que analisa a própria estrutura trabalhista e econômica da sociedade brasileira que permitiu que chegássemos até o atual cenário de corrosão do poder de compra das famílias, juros altos e bets, fatores conjunturais que fazem parte da maioria das análises midiáticas.

O sistema político-econômico neoliberal, que desde a década de 90 tornou-se predominante tendo sido defendido e praticado por todos os governos desde então, inclusive petistas, é a resposta mais direta à pergunta. Por trás de todo esse “economês” positivo apresentado inicialmente existe uma realidade vivida pela maioria do povo marcada por salários baixos, trabalho precário, terceirizações, jornadas extenuantes, rotinas de assédio e destruição de direitos básicos.

Essa conjuntura atual do mundo do trabalho teve início ainda nos anos 1970 com a crise do fordismo e, a partir dos anos 1980, com a consolidação da hegemonia neoliberal. Ambos os movimentos deram início a uma onda de mercantilização, a qual tem como principal resultado o crescimento da insegurança econômica e da desigualdade entre as classes sociais em quase todo o mundo.

A consolidação do modelo neoliberal no Brasil e no mundo, marcado pela reestruturação produtiva, financeirização, desregulamentação, privatização e pelo desmonte de direitos, resultou em aumento do desemprego que, por sua vez, impulsiona a expansão da informalidade no trabalho, distanciando os trabalhadores da proteção legal e favorecendo a intermitência e o alto grau de rotatividade das ocupações.

Apesar de variações periódicas positivas no grau da formalização laboral, do aquecimento do mercado de trabalho, dos ganhos reais do salário-mínimo e do aumento dos gastos sociais nos períodos de governos petistas, o modelo de desenvolvimento do país apoiou-se sobre condições precárias de trabalho, elevação das taxas de terceirização, flexibilização da força de trabalho e o declínio em termos relativos dos gastos com serviços públicos de transporte, saúde e educação.

Segundo o sociólogo Ruy Braga, autor de A rebeldia do precariado: Trabalho e neoliberalismo no Sul Global, o capitalismo periférico em sua fase tardia depende estruturalmente de elevados índices de informalidade e precarização, que garantem a sub-remuneração da força de trabalho enquanto mercadoria. No Brasil, as relações de trabalho pioraram ainda mais com a reforma trabalhista realizada pelo governo Michel Temer (MDB) em 2017, a qual Lula manteve intacta apesar de suas promessas de campanha.

Esse é o cenário geral, portanto, que corrói o poder de compra das famílias mesmo diante de um quadro de crescimento da inflação dentro das metas. Importante lembrar que, embora sob controle, qualquer aumento no custo de vida impacta o bem-estar da população e o salário-mínimo, que atualmente equivale a R$ 1.621,00, deveria ser, segundo cálculos do Dieese, de aproximadamente R$ 8.110,92. Isso em um cenário em que 35,3% dos trabalhadores no Brasil recebem até um salário -mínimo e cerca de 80% até três salários.

É essa lógica neoliberal, que prioriza o setor financeiro e a continuidade do cartel bancário em detrimento do investimento produtivo e do emprego, que incentiva a política de juros altos praticada pelo Banco Central (BC). Na última reunião do Comitê de Política Monetária, em 5 de agosto, a taxa Selic caiu apenas 0,25 ponto percentual, variando de 14,25% para 14,00% ao ano.

Essa política de juros altos encarece o crédito e reduz o consumo e os investimentos, desaquecendo a economia. Vale lembrar que essa política foi criticada pelo PT enquanto Roberto Campos Neto era presidente do BC, mas as críticas arrefeceram a partir de 2024 quando Gabriel Galípolo foi indicado pelo presidente Lula e seguiu apoiando a mesma política monetária.

Soma-se a esse cenário geral o problema recente das bets, liberadas durante o governo Temer, ignoradas pela gestão de Jair Bolsonaro (PL), que as deixou sem regulamentação, e regulamentadas por Lula em 2023. Dado seu efeito devastador entre as famílias, as apostas, em vez de regulamentadas, deveriam ter sido simplesmente proibidas por constituírem um setor parasita da economia. Em 2025, as apostas online provocaram uma saída líquida de R$ 62,5 bilhões do orçamento das famílias, segundo a terceira edição do Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros.

A expansão das bets tornou-se, portanto, um fator adicional de vulnerabilidade financeira para as famílias brasileiras ao somar-se a um ambiente de juros elevados e maior dificuldade para administrar as despesas. Para os autores do Boletim, essa transferência de recursos ajuda a explicar por que o consumo das famílias tem crescido em ritmo menor que o esperado, mesmo com o mercado de trabalho aquecido e a renda em alta. O endividamento é pior em lares que ganham até três salários-mínimos, grupo com maior pressão no orçamento e uso do cartão de crédito para despesas básicas.

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O estudo mostra ainda que, após a regulamentação das bets, o Pix virou a principal ferramenta dos brasileiros para transferir dinheiro às plataformas de apostas, com uma explosão no volume de transferências para empresas ligadas a esse setor. Antes da entrada em vigor da regulamentação, as transferências mensais de pessoas físicas para empresas do segmento de artes, cultura, esporte e recreação giravam em torno de R$ 5 bilhões. Poucos meses depois, esse volume superou R$ 25 bilhões e chegou perto de R$ 42 bilhões.

Contornar esse problema do endividamento e apresentar soluções para ele será uma das tarefas de Lula nessas eleições e, caso seja eleito, do seu próximo governo. Porém, o cenário que se desenha para um provável governo Lula 4 será de ainda mais austeridade e controle de gastos, dando continuidade à lógica neoliberal que destrói empregos, precariza o trabalho, corrói o poder de compra das famílias e que trouxe o país até a conjuntura atual.