O mundo voltou a produzir para a guerra. Da Ucrânia ao Oriente Médio, os conflitos em curso consomem munições, drones, mísseis e blindados em volumes que o Ocidente não via desde a Guerra Fria. A Rússia fabricou cerca de 7 milhões de projéteis em 2025; os EUA ainda tentam alcançar 100 mil projéteis de 155 mm por mês, tendo produzido pouco mais de 40 mil. A Europa corre atrás, projetando multiplicar por oito sua produção até 2026.
O resultado é um reordenamento profundo da economia militar global. As maiores empresas de defesa deslocam recursos da pesquisa e desenvolvimento para linhas de produção em série, e o motivo é simples. Quem está em guerra precisa de munição hoje, não de inovação para daqui a uma década. Essa urgência, porém, tem custo estratégico. O motor de inovação militar do mundo desacelera justo quando a demanda por capacidade industrial de defesa nunca esteve tão alta.
É aí que se abre uma oportunidade rara para o Brasil. Fora dos conflitos, o país tem o luxo de pensar em P&D com horizonte de médio e longo prazo, sem a pressão de abastecer uma linha de frente. Isso o credencia a ocupar um espaço que os grandes players estão temporariamente negligenciando, o de propositor de novas tecnologias, não apenas comprador de sistemas alheios.
Essa janela tem duas frentes complementares. A primeira é investir agora em P&D genuinamente nacional (sensores, sistemas autônomos, defesa cibernética, propulsão, novos materiais), justamente quando a concorrência global está mais voltada à produção do que ao próximo salto tecnológico. A segunda é comercial. Como fornecedor fora dos blocos militares tradicionais, o Brasil pode absorver parte da demanda que o mundo não consegue atender sozinho, usando esses contratos como veículo de transferência de conhecimento e encurtando um caminho que, sem essa alavanca, levaria décadas.
Os números já sinalizam o movimento. As exportações brasileiras de defesa somaram US$ 3,1 bilhões em 2025, alta de 74% sobre o ano anterior, para cerca de 140 países. Empresas como Embraer, Avibras, Imbel, Taurus e AEL Sistemas mostram que existe base industrial para crescer. O desafio é converter esse momento comercial em capacidade tecnológica própria, não apenas em volume de vendas.
O obstáculo não é falta de oportunidade, é falta de prioridade orçamentária. A lei que destinou R$ 30 bilhões, em seis anos, a projetos estratégicos fora do teto fiscal é um passo correto, mas insuficiente diante da oportunidade, e da velocidade com que ela pode se fechar. Bastam poucos anos de paz global para que os grandes centros de P&D retomem a dianteira.
Investir em defesa não é escolher entre canhões e manteiga, mas escolher entre autonomia tecnológica e dependência permanente. O Brasil não está em guerra, mas vive cercado por incertezas geopolíticas crescentes, como todo país. Aproveitar esta janela, em que o mundo produz e o Brasil ainda pode pensar, é decisão de Estado, não de governo, e o custo de adiá-la só cresce a cada ano.